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Leituras ao domingo

por Diogo Noivo, em 06.03.16

nadademelancolia.jpg

 

OS FILISTEUS

“O nome deste povo vencido ficou associado a um ostensivo desprezo pelas artes, por razões que desconheço. O que sei é que existem imensos filisteus nesse sentido comum. E não são proletários nem analfabetos: são burgueses licenciados, com bons empregos, boa situação económica e atitudes socialmente elitistas. Eles no entanto fazem questão de “não ler bons livros nem ver bons filmes”. Ou seja: fazem questão de anunciar isso aos outros, com grande orgulho.

[…] Cada um lê e ouve e compra o que quer (ou o que pode) e ninguém tem nada com isso. Não me passa pela cabeça achar que um tipo «culto» é mais recomendável que um tipo «inculto». O que me faz impressão não é o filistinismo: é o orgulho dos filisteus. Acho ridículo que alguém se considere acima dos outros porque é «culto». Mas também não percebo esses tipos que proclamam, ufanos, a sua incultura. […].

Eu creio que esta gente faz das fraquezas forças. Goza com o que não conhece, ataca o que não entende, mas há nisso uma fragilidade quase tocante. As pessoas sentem uma inferioridade (sem sentido) que transformam em superioridade (igualmente sem sentido). Às vezes pressinto uma secreta vontade de outros hábitos culturais, mais exigentes, mas é uma vontade logo reprimida, como se fosse o surgimento incómodo de desejos homossexuais num homem casado. Tenho por isso alguma piedade dos filisteus”.

 

Pedro Mexia (2008), Nada de Melancolia, Lisboa: Tinta-da-China, p. 55-56.

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5 comentários

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De João de Brito a 06.03.2016 às 12:38

O que verdadeiramente me angustia não é tanto mais ou menos cultura, esta ou aquela cultura.
O que mais me angustia é não haver entre essa gente quem questione verdadeira e consequentemente o sistema em que vivemos no chamado mundo ocidental.
Na cerimónia recente da entrega dos óscares, a mais que questionável Gaga transportou nas orelhas uns brincos
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De João de Brito a 06.03.2016 às 12:48

O que verdadeiramente me angustia não é tanto mais ou menos cultura, esta ou aquela cultura.
O que mais me angustia é não haver entre essa gente quem questione verdadeira e consequentemente o sistema em que vivemos no chamado mundo ocidental.
Na cerimónia recente da entrega dos óscares, a mais que questionável Gaga transportou nas orelhas uns brincos de 7 ou 8 milhões de dólares.
O que realmente vale um objeto desses comparado com o sorriso de uma criança que, apesar da fome e da mais que provável doença presente ou futura, brinca numa qualquer clareira de uma qualquer floresta africana?!
Vale zero.
No entanto, aquela criança não tem futuro.
E as gagas deste mundo continuarão a exibir a obscenidade daqueles brincos nas suas patéticas máscaras.
Isto, sim, angustia-me.
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De Costa a 06.03.2016 às 15:59

"O chamado mundo ocidental" João de Brito? Não será antes "o (no) mundo"? Não vê você como são anacrónicas essas classificações? Veja você a Mãe Rússia, por estes dias; a África livre da terrível colonização "ocidental" e transformada em palco das festas de aniversário de Robert Mugabe , das fomes devastadoras, das chacinas inomináveis e de colossais fortunas; a Coreia da mais enlouquecida dinastia (de esquerda, e da mais pura, alegadamente); a América Latina da extrema desigualdade, da corrupção sem freio, dos líderes imortais e infalíveis revelando a verdade revolucionária pela boca de passarinhos; o próximo e médio-oriente nas mãos do fanatismo religioso mais assassino e da misoginia mais absurda.

E em quanto disto não há - regressando à sua dogmática divisão das coisas - resquícios dessa calamidade sem fim que foi (é) a experiência comunista? Essa aberração sacralizada por ter integrado os vencedores de 45.

Costa
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De lucklucky a 06.03.2016 às 18:12

O que é que você está aqui a fazer em vez de ajudar essas crianças João de Brito?
Você também pode perguntar aos actores ou a qualquer um de nós porque é que são o que são e não estão a ajudar crianças numa aldeia?

Só podemos ir ao cinema, ver um jogo de futebol, no fundo ser feliz quando todas as crianças do mundo tiverem o que necessitam?
E já agora até acabarmos com todas as doenças?
E como estamos a falar de "cultura" que tal acabar, proibir todos os livros, ,cinema excepto aqueles que contribuem para o essencial?
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De Luiz Santos-Roza a 08.03.2016 às 14:06

Já li vários textos de Pedro Mexia onde ele mostrou uma clara aptidão para o filistinismo, para repreender livros pela sua dificuldade verbal, para os celebrar apenas por serem fáceis. As palavras dele são bonitas, mas há não nada mais fácil do que expressar ideias bonitas com palavras bonitas.

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