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Leituras

por Pedro Correia, em 07.09.19

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«O trabalho liberta-nos de três calamidades: o aborrecimento, o vício e a necessidade.»

Voltaire, Cândido ou o Optimismo (1759)p. 164

Ed. Visão, 2016. Tradução de Maria Archer


46 comentários

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De Vorph Valknut a 07.09.2019 às 21:04

Que Cândido era esse Voltaire
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De João Campos a 07.09.2019 às 21:11

Voltaire só não previu três coisas: 1) que houvesse trabalhos aborrecidos, 2) que houvesse quem se viciasse no trabalho, e 3) que houvesse quem tivesse de se sujeitar às mais inimagináveis condições de trabalho (ou, vá, a call centers nos dias de hoje) por necessidade.

A segunda, enfim, seria talvez difícil de imaginar no século XVIII. Já a primeira e a terceira parecem mais conversa de quem nunca teve de trabalhar... :)
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De Vorph Valknut a 07.09.2019 às 23:05

É isso João. Voltaire e Montaigne herdaram, sendo interessante a comparação com Rousseau que nasceu, viveu e morreu miseravelmente. Umas vezes materialmente, mas moralmente, quase sempre. Voltaire pai do calmo e racional liberalismo, Rousseau, divino ao romantismo revolucionário. Não é o comunismo que torna pobre, a pobre gente. É a pobreza que as conduz ao socialismo.
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De Anónimo a 07.09.2019 às 22:02

A frase é muito actual. Mesmo quem se aborrece num call center a trabalhar por necessidade percebe o quão útil e válido é por não se deixar cair na doce tentação/engano de viver dos rendimentos, da pedinchice ou dos "esquemas". Trabalhar pode dar boa saúde e é um dos melhores caminhos para aprender a cuidar do nosso jardim.
O uso abusivo e aberrante nos campos nazis da expressão "o trabalho liberta", não é justificação para manter a má fama da ideia ou aforismo.

Isabel
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De João Campos a 07.09.2019 às 22:55

Isabel, se me permite a pergunta, já trabalhou num call center?
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De Anónimo a 07.09.2019 às 23:55

Já, caro João Campos.

Isabel
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De João Campos a 08.09.2019 às 00:13

E achou esse trabalho "útil e válido"?

A minha experiência - que estará muito longe de ser das piores, de acordo com as descrições feitas por alguns amigos que trabalharam em "outbound" (estas tretas saem todas em estrangeiro) - é de um trabalho absolutamente inútil, irrelevante, e estupidificante. Ao fim de oito horas com os auriculares nos ouvidos, o cérebro não permitia muito mais do que um ecrã de televisão a passar qualquer coisa pouco sofisticada, e o ordenado mínimo não permitia grandes sonhos ou aventuras. Que venha um HAL 9000 responder aos pedidos mais imbecis "I'm sorry, Dave, I'm afraid I can't do that"; quando chegar, já chegará tarde.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 00:57

Um dos nossos principais problemas é acharmos que só um tipo de trabalho dignifica e, pior, fazer corresponder essa valorização às funções de gestão ou comando.

Todos os ofícios têm momentos rotineiros e "estupidificantes". Isso não retira mérito nem dignidade ao trabalho.

O que está errado é não valorizar o ofício em si, mas sim o estatuto social que pode variar conforme os ventos.

O que está errado é chamar estúpido ao trabalhador, ao invés de defender que este seja considerado, respeitado e bem remunerado.

Isabel
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De João Campos a 08.09.2019 às 01:48

Esse erro não é meu. As funções de comando ou de gestão não funcionam se não tiverem ninguém para comandar ou gerir. E isso do estatuto social é uma piada que só resulta se todos aceitarmos fazer parte dela.

Sim, todos os trabalhos têm momentos rotineiros e estupidificantes. E há trabalhos que são rotineiros e estupidificantes. Imagino que trabalhador numa linha de montagem seja um exemplo, se ainda houver linhas de montagem com trabalhadores humanos. E outro, que conheci durante treze longos meses, é operador de call center. Se na sua experiência encontrou mérito, dignidade ou utilidade na coisa, parabéns. Eu não encontrei, nem conheci quem tenha encontrado. Pelo contrário: conheci pessoas inteligentes e capazes presas a um trabalho esgotante durante anos a fio para chegarem ao fim do mês a contar trocos, na ambição de que talvez aquele suplício diário permita chegar a algum lado (na maioria dos casos não permite). Mais do que estupidificar, desumaniza - quem está do outro lado da linha esquece-se facilmente de que fala com uma pessoa real, e não com um atendedor de chamadas glorificado, e a dada altura a única forma de lidar com isso é esquecendo que quem liga é, também, uma pessoa real. É com indiferença, portanto - e poucas coisas corroem tanto como a indiferença.

No entanto, é um pouco como servir às mesas - toda a gente devia fazê-lo uma vez na vida, nem que fosse só por um mês (eu fi-lo, e por vários meses). Acabaria com muitas manias.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 02:45

As funções de comando ou de gestão não funcionam se não tiverem ninguém para comandar ou gerir.

Disse tudo nesta frase. Nada nasce feito

E é uma ilusão, por um lado, achar que as máquinas algum dia farão tudo quando os humanos não queiram fazer e, por outro, presumir que todos os humanos têm capacidade ou vontade intelectual/criativa para assumir voos mais altos. Ou simples oportunidade.

Quis salientar que hoje em dia é muito usual desvalorizar um trabalho por não ser da área de formação ou não ser apelativo intelectual ou socialmente. Puro engano, ter pessoas mais formadas, mais capazes e mais exigentes a desempenhar funções ditas 'menores' é uma assinalável vantagem para as empresas. Além do que, os trabalhadores se forem de facto mais capazes, cedo ou tarde, saberão enveredar por caminhos mais compensadores.

O erro, continuo a achar, está em não valorizar e remunerar com justiça quem faz bem, quem é bom naquilo que faz, ainda que seja a coser 70 bolsos de calças por dia.

E enquanto vingar o discurso da desvalorização e menorização desse tipo de trabalhos haverá pretexto para as entidades patronais pagarem o menos possível, com o argumento de que 'aquilo' até uma máquina faz. O pretexto perfeito para tratar trabalhadores como máquinas.

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 10:42

Isabel tenhamos contudo atenção que certos ditos como o "trabalho dignifica" , "felizes são os simples, ou os pobres de espírito", ou outros que dão a entender que só os pobres conhecem a liberdade, pois os "ricos" estão presos ao que possuem, muitas vezes não passa de propaganda que pretende justificar, manter, dar a entender que o sistema é justo e não poderia ser de outra forma. Se o trabalhador for convencido que o trabalho é por si já um valor por si é meio caminho andado para ser explorado (o que recebe como paga do seu trabalho importa menos que o sacralizado Trabalho).

Umas das grandes patranhas e fonte de frustrações e prejuízo é a ideia que com trabalho e esforço todos conseguem tudo, pois todos somos iguais. Mentira. Há gente destinada a grandes obras e outros condenadas a pequenos nadas. Há uns escolhidos para o papel principal e outros destinados a serem mortos à meio da novela. E é para estes, que em todos os tempos, a política, de reis a presidentes, a religião, de padres, a frades dedicou especial atenção. É um retrocesso civilizacional este recente abandono a que muitos parecem pretender votar os mais fragilizados.

Não revi texto.... Estou bastante atrasado. Cumprimentos
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De Anónimo a 08.09.2019 às 12:25

Tem razão. É preciso estar atento às patranhas.

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 13:54

Tenhamos cuidado com certos dizeres, ditos da sabedoria popular, porque muitas vezes, tais engenhosos saberes provêm de donos de Engenhos. Inventiva propaganda que pretende justificar, manter, convencer que o sistema social, político, económico, a distribuição do Poder, ou mesmo que a Injustiça, a todos visível, é justa, pois certa é a Ideologia, vigente, que não impede a cegueira da Justiça.
Limitando-me ao Trabalho, se quem trabalha for convencido que o Trabalho é um Valor, que vale por si, é meio caminho andado para deixarmos de ter pé, entre o que é digno trabalho, e o que é indigna exploração (o que se recebe, como pagamento do trabalho, vale menos que o sacralizado Trabalho).

"O trabalho enriquece, a preguiça empobrece"

"Sonhar com dinheiro é pobreza"




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De João Campos a 08.09.2019 às 11:53

"E é uma ilusão, por um lado, achar que as máquinas algum dia farão tudo quando os humanos não queiram fazer e, por outro, presumir que todos os humanos têm capacidade ou vontade intelectual/criativa para assumir voos mais altos. Ou simples oportunidade."

Julgo que só não chegaremos a este ponto porque nos extinguiremos antes de lá chegarmos. Ou porque, tendo os meios para lá chegar, optamos por outros disparates.

"Quis salientar que hoje em dia é muito usual desvalorizar um trabalho por não ser da área de formação ou não ser apelativo intelectual ou socialmente."

Eu não trabalho na minha área desde 2010 (tal como a maior parte das pessoas que conheço da minha idade), e não me queixo especialmente disso. Não pagava as contas, e a dada altura temos de ser pragmáticos - pessoalmente, como não vivo para o trabalho nem acho que o trabalho me defina, prefiro passar oito horas por dia a fazer algo que estará longe do que idealizei em tempos, mas que me permite manter a minha casa, comprar os meus livros, e fazer algumas outras coisas que gosto de fazer. São escolhas.

"Além do que, os trabalhadores se forem de facto mais capazes, cedo ou tarde, saberão enveredar por caminhos mais compensadores."

Quem me dera que tudo fosse assim tão simples.

"O erro, continuo a achar, está em não valorizar e remunerar com justiça quem faz bem, quem é bom naquilo que faz, ainda que seja a coser 70 bolsos de calças por dia."

Nisto estamos de acordo.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 12:16

No fim de contas, estamos muito próximos nas escolhas de vida e na modo de ver "a coisa".

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 12:26

Isabel, voltei

Julgo que as máquinas deveriam libertar o Homem de todo os Trabalhos, sobretudo do estupidificante,tendo eu atenção, em não confundir estúpido, com simples. Coser sapatos, fechado num armazém é um trabalho que decompõe mãos e cabeça. Trabalhar na terra, tendo por luz, a do sol, e o céu, tecto, vivendo ao ritmo do staccato da vida não é estupidificação da nossa natureza , mas sim emulação. (mexer na terra é antidepressivo, segundo os referidos psiquiatras).

Aliás, nem entendo porque diabos não deve ser objectivo da tecnologia criar máquinas que substituam o Homem nas mais variadas áreas do fazer. Dinheiro, dizem? Para quê a necessidade dele se seriam as máquinas a trabalhar?

São tantas as coisas que gostaria de fazer, mas que a vida do trabalho me impede. Viajar, dar a volta ao mundo, conhecer, para um dia conseguir dar-me a volta e virar - me do avesso. Conhecer - me a mim próprio.

O que chateia, a alguns, num mundo feito de máquinas, é que com a perda do valor do dinheiro, haver uma, consequente, perda de hierarquia social. Pois se há algo (porventura a sua principal função) que o dinheiro permite é a formação de hierarquias e o gozo que a alguns "muitos" isso dá. O poder mostrar - se a mais e mais que o outro. Essa necessidade de reconhecimento material.

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De Anónimo a 08.09.2019 às 13:44

Agora não concordo consigo. Não diabolizo a tecnologias, mas também não a idolatro e, reitero, não acho que algum dia nos venha a substituir (se o fizer será porque deixou de haver humanidade).

Mas mais do que tudo, pergunto-me que raio de sociedade imagina que daí adviria? A hierarquia social continuaria (as ditas classes).

Quando o li imaginei logo uma humanidade bastante intelectualizada, deitada da alcova, a deliciar-se com um soufflé de queijo acompanhado de um belo vinho, a perorar sobre a textura do dito, ignorando que as batatas são deitadas à terra lavrada, de onde cresce uma planta de cerca de 40 centímetros, folha verde arredondada, com flor branca, e que são arrancada das entranhas da terra, e que algumas delas serão deitadas à terra novamente no ano seguinte. E também que as vacas (ou cabras ou ovelhas) de cujo leite é feito o queijo, precisam de comer, de ser tratadas, de ser vigiadas medicamente. E ignorando que os tractores carregados pelas pipas de uvas, são conduzidos por humanos, que às vezes tombam numa valeta. Ignorando e desprezando a contabilidade, as contas que alguém faz, para nos pagar (ou para nós pagarmos a alguém) o salário ao fim do mês (ou os impostos e outras obrigações ao Estado). Ignorando que voltar a trabalhar numa fábrica a coser bolsos em jeans pode ser o sonho de uma mulher que emigrou para Alemanha, onde não conseguiu vingar, voltou para montar um negócio próprio, que resultou em prejuízos e dívidas ao Estado, e que se encontra fazer serviços de empregada doméstica. Voltar à fábrica, coisa impossível para uma mulher de 60 anos, era um fim de vida profissional que lhe daria outra tranquilidade e benefícios financeiros.

O nosso mundo também resulta do trabalho. Não é só natureza e ideias.

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 14:55


Excelente, Isabel.

Isabel, quando falo em libertar o Homem, do trabalho, faço-o metaforicamente. Trabalhar é transformar, mas pensar, entender, é também transformar, o que existe dentro e o que existe fora. Por isso Pensar é Trabalhar.

Quando falo em usar a tecnologia para substituir o Homem, sigo o raciocínio inicial, aquando da invenção da primeira máquina a vapor. Tornar menos pesada a vida. Tornar menos presente a necessidade. Tornar o Homem mais Livre (da Necessidade) . É nisto que consiste a ciência. É nisso que ela se justifica.

Quando falo na substituição do Homem, pela máquina, vinco também a eficiência superior da máquina na execução de um trabalho e como isso se traduz numa poupança de recursos (materiais, intelectuais, espirituais) . Recursos que poderiam ser usados para outros fins, ou apenas não gastos.

Claro que as hierarquias nunca desaparecerão, apenas mudariam. Mas julgo que seria preferível ter como exemplo o pai que usa o seu tempo com a família, do que aquele que em nome da família perde o seu tempo longe dela.

Quanto aos interesses cósmicos, metafísicos, quanto às grandes questões da vida, desdenhadas por esta pragmática sociedade, habituada, ensinada sob o Altar do Trabalho, talvez se houvesse mais tempo, e menos preocupação, houvesse mais atenção, na Escola, e nos pais, em formar Pensadores e não trabalhadores. Lembrando-me de Einstein, a Sabedoria é o que fica depois de esquecermos o aprendido na Escola.

Como pode haver Progresso, se as preocupações, de hoje, são as mesmas que no passado? No fundo, apenas comer e quem sabe esquecer.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 16:12

Trabalhar menos? Mais tempo para a família, para pensar e respirar?

O descanso foi sendo conquistado. O Sábado inteiro foi uma vitória recente.

Apoiado. Avante, camarada.

Se houvesse uma manifestação para exigir as 35 horas semanais no privado, ponderaria ir a uma coisa dessas pela primeira vez na vida.

(ainda assim, temo que aquela hora diária a menos no horário de trabalho, fosse passada no centro comercial, a 'tuitar', 'facebookar' ou 'blogar', em vez de ser passada com a família, a pensar ou a respirar.)

Isabel
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De João Campos a 08.09.2019 às 20:44

"(ainda assim, temo que aquela hora diária a menos no horário de trabalho, fosse passada no centro comercial, a 'tuitar', 'facebookar' ou 'blogar', em vez de ser passada com a família, a pensar ou a respirar.)"

E daí não viria mal nenhum ao mundo.
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De Vorph Valknut a 07.09.2019 às 23:14

Isabel, hoje estive a falar com uma senhora, dos seus 60 anos, que se despediu, sem direito a nada, de um hotel, no Porto. O patrão contratou uns colombianos, que andam a fazer bullying aos mais velhos e mais bem pagos portugueses, com o objectivo de "dar uma geral" naquilo. Segundo parece também as jovens e novas empregadas colombianas limpam o que as portuguesas se recusavam sequer a mexer.
Como esta história conheço dezenas de casos. Até de suicídios. Isabel, Isabel.... Isabel...Isabel...bom, mas cada um conhece, sabe o que vê. E eu tenho visto muito destes nadas de tudo.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 00:03

É tudo verdade.
Mas visite um qualquer hospital psiquiátrico, fale com médicos (dos que tratam, não dos que teorizam) e com pacientes que conseguem ter uma vida familiar, social e profissional equilibrada, e talvez consiga concluir que uma rotina de trabalho faz mais pela saúde mental do que qualquer outro método.

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 00:13

Verdade. Como há trabalhos que dão cabo do juízo a muita gente. E não é tanto pelas contas que têm de fazer para gerir as contas. Na maioria dos casos é pelo enxovalho a que são submetidas.
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De Vorph Valknut a 07.09.2019 às 23:21

Já entrou numa apartamento de um bairro social? Se sim, em quantos? Mesmo hoje fui a um barraco, que fica entre a Via Norte e uma antiga fábrica de fibrocimento, ali para São Mamede. Quase de certeza que recebem algum subsídio, ou assim o espero. Mãe do Céu, como o desejo.

Nestas coisas passo - me, completamente.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 00:40

Nunca vivi nestas condições, mas comecei por conhecer casebres do campo com "buraco" (em vez de w.c) e na cidade entrei em "ilhas" (sendo do Porto
saberá o que são), mais tarde, em cubículos de águas furtadas na Ribeira, habitadas por famílias. Estudei até aos 17 anos no ensino público e os meus amigos nunca foram "betinhos". Alguns caíam na sala de aula de tão pedrados, outros afiançavam-me que tinham controlo sobre aquilo, até os ver em Sta. Catarina ou Cedofeita a mendigar. Passei ilesa por ter uma estrutura familiar robusta e, é verdade, sem problemas financeiros de maior, mas sempre procurei a autonomia e nunca fugi do trabalho.
Tarde, quando finalmente tive um contrato e a possibilidade de contrair um crédito habitação, procurei um apartamento, e um dos primeiros que visitei foi justamente num bairro social.
Acabei por de decidir por outro, um T0, num terceiro andar sem elevador, em edifício antigo. Quando tive possibilidade mudei.
Não tenho carro e aos 45 anos faço toda a minha vida em transportes públicos.

Não sei se acha que deva pedir desculpa por achar que o trabalho dignifica, mas é assim que penso.

Isabel
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 10:12

A Isabel é uma mulher de armas.
Claro que trabalhar é preferível a não fazer nada. E claro que em termos de sanidade mental trabalhar ajuda. Mas falávamos nos subsídios sociais. Sou a favor, Isabel, e considero uma injustiça tremenda quando se alude aos RSI, ou a outros, como explicação do descalabro financeiro/moral do país. É simplesmente ridículo, desumano, com o que hoje se sabe (banca, corrupção, etc) . A pobreza, a miséria, na maioria das vezes não é uma opção pessoal. É-se para ela conduzido, pela Escola que se frequenta, pelo "Bairro" onde nascemos, pelos amigos que fazemos, pelos exemplos que vemos, por outros mil e um factores "ambientais", externos a nós, que nos marcam a fogo durante os nossos anos de desenvolvimento (os anos de condicionamento psicológico) . Claro que há excepções, mas são isso mesmo, excepções. Para isso, julgo que contribuem os pais, ou outros exemplos que tomemos para nós , mas também a nossa maneira de ser, dependente, claro está, dos pais que tivemos,da sua herança genética, ou de alguns traços de personalidade, próprios, nossos, como a capacidade de formarmos uma carapaça aos riscos de fora. Essa carapaça que, felizmente, em dada altura da vida não deixou entrar quase nada, mas que noutra, mais adiantada, continua, desgraçadamente, a fazer o mesmo. A não deixar que nada entre, e a impedir que nada saia.

Obrigado pelo testemunho
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De Anónimo a 08.09.2019 às 10:56

Tem razão, a injustiça existe, nem tudo corre pelo melhor dos mundos, e percebo a sua sensibilidade à desigualdade, mas lá está, a nosso bem
devemos cultivar o nosso jardim.
Apesar dos pesares.

Isabel
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De Vorph Valknut a 07.09.2019 às 23:32

https://youtu.be/vf_JE7KojU0

A Fundação EDP andava a receber apoios do Estado por ter andado a pintar às cores as barragens. Em nome da arte, justificavam-se.

https://www.publico.pt/2011/12/22/jornal/edp-pinta-barragem-a-revelia-do-icnb-23660246
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De Anónimo a 08.09.2019 às 00:44

EDP é aquele assunto que continua a despertar os meus piores instintos.
É a prova provada que somos um País de lorpas, um País de gozo.

Isabel
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De Anónimo a 08.09.2019 às 04:14

Como eu a compreendo...
Grato pelos testemunhos do Vorph e da Isabel mas o que referem não abre telejornais nem vende jornais ou revistas, ninguém quer saber dessas situações para nada, o que interessa é tirar uma selfies ou postar no insta.
Hoje o "mundo" do trabalho é uma selva e por incrível que pareça é quem vive esquemas no trabalho que se safa e é bem visto, quem cumpre é mal visto pelas chefias directas e superiores e sobretudo pelos colegas.
Os Kansas é que têm razão - "Dust in the Wind"

WW

P.S. - Há 10 anos trabalhava menos (embora fazendo mais horas por semana do que agora) mas ganhava muito mais.
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 10:18

WW, os esquemas são, muitas vezes, uma necessidade para não se cair na pobreza. Se há coisa portuguesa concerteza, é o viver de esquemas.... a não ser que se trabalhe para o Estado.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 16:46

Vorph os esquemas de que falo não são trabalhar por fora , fazer uns biscates aqui e ali mas dentro do trabalho normal , faltar quando dá jeito, alegar bastas vezes que se tem filhos para criar e que o trabalho custa para serem sempre outros a fazerem, estar constantemente no corte e costura e sobretudo melarem as chefias directas e superiores com informação irrelevante sobre o trabalho que é feito.

WW
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 18:22

Desses , já ouvi falar, mas desconheço. Talvez no Estado, ou nas Empresas.
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De Anónimo a 08.09.2019 às 12:55

Somos muitos na mesma situação, por isso é de estranhar a passividade com o rumo do País.
Em 2015 perdi 40% do salário. E passados 5 anos não há margem para o repor ao menos em parte.
Como se falava noutro dia são dois países no mesmo rectângulo, o das reposições e o do mercado pouco dado a igualdades e justiças.

Isabel
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De Carlos Ernesto Faria a 07.09.2019 às 22:54

Lido e gostei, mesmo assim, o livro deixa claro que mesmo com trabalho não ficamos isentos de muitos percalços e azares da vida que muitos só ultrapassam quando a sorte vem ao nosso encontro.
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De Vítor Augusto a 08.09.2019 às 00:33

Não tenho a certeza de que o corvo Jacobo de Aub, esteja bem de acordo com a expressão do senhor Voltaire. Eu tenho a versão da tinta da China, mas ainda não li. Como diria o odre "já o pus na minha lista"
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De Anónimo a 08.09.2019 às 04:00

É por estas sugestões do Pedro Correia que vale a pena ler livros.
As frases que escolhe para destacar são profundas e merecedoras de ir á Bertrand mais próxima adquirir alguns dos livros que aqui são recomendados.
Fala quem ao longo da vida leu muito pouco e agora não sendo tarde, o "trabalho" não permite, além de que a inicial formação em ciências também não puxou muito á leitura.

WW
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De Cristina Torrão a 08.09.2019 às 11:42

O aborrecimento pode realmente tornar-se num grande problema, meio caminho andado para a depressão. Quanto ao vício, nem é preciso dizer nada. No que respeita à necessidade, porém, esta nem sempre é má. Pelo contrário: a necessidade é essencial para a motivação. Sem necessidade(s), vegetamos.

Não somos engenhos, que nos contentemos apenas com estarmos ocupados, seja qual for o trabalho. Temos impulsos e sentimentos que, sendo constantemente ignorados, provocam doenças. Usando as palavras de António Damásio: «Nós não somos máquinas de pensar que sentem, somos máquinas de sentir que pensam». Mas Voltaire era um filósofo do Iluminismo, altura em que se desdenhava dos sentimentos, pondo a racionalidade à frente de todas as características humanas... Até que Damásio descobriu o "erro de Descartes".
(Descartes não era um filósofo do Iluminismo, mas estabeleceu o ponto de partida).
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De anónimo. a 08.09.2019 às 21:46

Estou inteiramente de acordo com os senhores Vorph Valknut e João Campos que o trabalho é uma seca. Por mim dispenso sem relutância da minha vida essa cena do trabalho, mas como sou uma mimada que não dispensa o bem bom, que haja quem trabalhe por mim.
E todos viveremos muito felizes para sempre.

Violeta Gina dos Prazeres e Morais.
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De Vorph Valknut a 08.09.2019 às 23:35

Gina, não percebeste a Moral. Ficaste-te na valeta da estrada. Tivesses tempo para não trabalhar e dela saísses para pensares sem a mania das mamas.
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De anónimo. a 09.09.2019 às 01:16

Não está a falar para a sua ... mulherzinha, senhor malcriado.

Violeta Gina dos Prazeres e Morais
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De Vorph Valknut a 09.09.2019 às 10:11

Mal educado foi quem te pôs nome
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De anónimo. a 09.09.2019 às 15:31

coisinha mailinda. Orgulho da mãezinha que o defecou.

Violeta Gina dos Prazeres e Morais.
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De Vorph Valknut a 09.09.2019 às 16:08

cobardíssimo da merda...ora envia-me lá para o meu email pedro_mao@sapo.pt o teu número de telefone , meu grande merdas, para te partir essa carinha laroca…Sou do Porto, mas vou a Lisboa dia 24 e 25...se fores daí

É tudo uma cambada de cobardes, estes heróis, anónimos, da net.
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De anónimo. a 09.09.2019 às 17:55

Vai-me bater? Quer bater-me? E não se importa de mostrar ao mundo a sua verdadeira natureza de bestialidade encapotada pelos copianços do Google que depois vem debitar como sapiência? Vão reparar, senhorzinho.
Não sabe quem sou, não me conhece, ofende-me, insulta-me, desrespeita-me e quer bater-me?
Sou mulher, sou bonita e elegante e sou muito feminina, e o senhorzinho é um excremento.
Vá bater na sua mulherzinha.

Violeta Gina dos Prazeres e Morais.

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