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Legislativas (4)

por Pedro Correia, em 08.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PAULO PORTAS

 

Desta vez houve mesmo debate e não apenas um simulacro, como aconteceu há uma semana. Ana Lourenço, a jornalista que arbitrou o frente-a-frente desta noite na SIC Notícias, teve a intuição de perceber que haveria vantagem em deixar falar os antagonistas sem pretender impor-lhes um cardápio de questões. Fez bem. Porque o telespectadores ganharam ao ver Catarina Martins e Paulo Portas em diálogos que pediam pouca moderação.

Pela segunda vez consecutiva, a porta-voz do Bloco de Esquerda mostrou-se em boa forma. Surgiu perante as câmaras com ar menos crispado do que costuma revelar no Parlamento, soube escutar, demonstrou capacidade de argumentação e destreza verbal, sem se deixar atemorizar pela arguta raposa da política que tinha à sua frente.

O presidente do CDS, em representação da coligação governamental que procura renovar o mandato a 4 de Outubro, estava constipado e mal ocultava algum cansaço. Mesmo assim conseguiu conduzir o debate para o terreno que lhe interessava, puxando-o logo de início para o caso grego - numa antecipação daquilo que Passos Coelho não deixará de fazer no frente-a-frente de amanhã com António Costa.

"Até há um mês o Bloco de Esquerda tinha um modelo: chamava-se Grécia, Tsipras e Syriza. Reestruturação da dívida grega: onde é que ela está? O Syriza dizia que nunca mais pediria um resgate: acabou de pedir um terceiro. Dizia que a austeridade ia acabar: aceitou a austeridade em dobro. Dizia que a Europa ia mudar: quem mudou foi Tsipras", declarou Portas, com ar vagamente enfastiado.

O assunto incomoda os bloquistas. Mas Catarina, por sua vez, soube pôr Portas em sentido ao salientar que "o programa da coligação não apresenta um único número" aos portugueses enquanto o Governo se compromete em Bruxelas a cortar 600 milhões de euros na segurança social.

"Não aceitamos ser um protectorado da Alemanha", esclareceu a porta-voz do BE, piscando o olho aos eleitores mais moderados ao mencionar Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite entre os portugueses que já advogaram uma reestruturação da dívida portuguesa. Algo impensável há quatro anos.

A verdade é que nem o Bloco tem a pretensão de pescar votos junto dos habituais eleitores do CDS nem os democratas-cristão aspiram a seduzir votantes situados à esquerda do PS, o que explica em boa parte o tom cordato deste debate, que não deixou de ter acutilância e algum fogo cruzado digno de registo. Com Catarina a apontar o dedo acusador: "Este é o governo recordista dos ajustes directos." E Portas a replicar: "O Bloco de Esquerda nunca governou nenhuma entidade em Portugal excepto a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, que em 2009 fez um ajuste directo para os transportes urbanos, entregando-os à [empresa privada] Barraqueiro."

Cada qual, à sua maneira, comprovou que o traquejo parlamentar é muito útil nestas ocasiões. Mas, no confronto das expectativas com a prestação concreta, a líder bloquista destacou-se ligeiramente.

Como aperitivo não esteve mal. O prato forte será servido amanhã à noite, com outros protagonistas, nos três canais em sinal aberto.

 

...................................................................

 

FRASES

Catarina - «Não é possível governar quase sistematicamente contra a Constituição. O actual Governo não foi capaz de fazer um único orçamento dentro da Constituição: essa é a maior instabilidade que o País pode ter em termos políticos.»

Portas - «A política não é a arte do impossível. A senhora tem um discurso de utopias coladas umas às outras, sem adesão à realidade.»

Catarina - «Não há estado social sem solidariedade entre as gerações.»

Portas - «Não há estado social com o Estado falido.»

Catarina - «O doutor Paulo Portas é um belíssimo ilusionista da política.»

Portas - «Não trate os outros por ilusionistas. Ilusionismo foi o que aconteceu na Grécia.»


19 comentários

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De Susana a 09.09.2015 às 00:24

A frase da Catarina que me ficou na memória foi "...é incrível que seja o bloco a defender a social democracia..." a propósito da segurança social e a solidariedade entre gerações.
Muito bem.
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 10:31

Também poderia destacar que só o Bloco parece hoje defender ideias já assumidas por Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, duas das personalidades mais conservadoras da sociedade portuguesa, o que não deixa de constituir um curioso sinal dos tempos. Ou estas duas personalidades mudaram muito, o que não creio, ou o Bloco mudou alguma coisa, algo em que acredito mais.
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De William Wallace a 09.09.2015 às 01:40

Acho que o BE vai desaparecer de vez, o efeito novidade já passou e teima em não evoluir.
Defender a social-democracia implica sacrifícios a todos os níveis, para os quais o BE não tem, nem nunca terá capacidade, aliás o PS também não e é por isso que Costa diz não ser tão "radical" como Pacheco Pereira.
O CDS ao abandonar as suas raízes cristãs e contra a eurolândia " também assinou o seu óbito que só não ocorrerá já porque vai coligado e beneficia de um bom acordo em termos de lugares para a AR mas assim que houver eleições novamente será votado á insignificância.

Quem votar PS não sendo indefectível estará a cair no engodo que os Portugueses ainda mandam alguma coisa e que algo poderá mudar quando tudo é já decidido em Bruxelas (na Alemanha).

Nestas eleições se ganhar o PS, Portugal "morrerá" enforcado, se ganhar a coligação "morrerá" guilhotinado.
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 10:27

Hoje só a extrema-esquerda defende a "social-democracia", o que demonstra bem como as coordenadas ideológicas andam pelo menos tão baralhadas como a semântica dos partidos. Não por culpa do dirigente X ou do líder Y, mas por "culpa" da realidade: eppur si muove, como ensinava o outro.
O que resta do Syriza, na Grécia, reclama-se da herança histórica dos sociais-democratas: depois da falência do "modelo Hollande", que era afinal um nítido nulo, ele representa hoje a última esperança da clássica esquerda europeia. Mas convém que esperem sentados: o engenheiro Tsipras pode ter militado na juventude comunista, pode ainda fechar o punho nos palcos dos comícios, mas jamais o ouvimos reclamar algum quinhão da herança ideológica do marxismo-leninismo. Ele sabe que isso não serve para ganhar votos.
Da mesma forma, por cá, não voltámos a escutar a palavra de ordem "Partido Socialista, partido marxista" muito proclamada após a Revolução dos Cravos: dos socialistas espera-se que possam gerir, com mais umas gotas de "sensibilidade social" do que os restantes, a política económica imposta pelos parâmetros financeiros de Bruxelas e Frankfurt.
O PSD abandonou há muito a "inspiração marxista" que constava do seu programa original: o partido estacionou no liberalismo tradicional, sem disfarces, e o último social-democrata genuíno que conserva o cartão de militante é Alberto João Jardim, estatista por excelência, que aplicou a receita na Madeira, com os resultados conhecidos.
Já o CDS despediu-se há duas décadas da democracia-cristã - falecida um pouco por toda a parte no continente europeu excepto na Alemanha da "senhora Merkel" a quem agora tantos batem palmas pela corajosa política anti-xenófoba face aos refugiados sírios - e abraçou o populismo eurocéptico antes de se converter ao liberalismo eurófilo, que aliás o PSD pratica com maior convicção e desenvoltura.
E o PCP, falidos todos os seus modelos e convertida a própria China ex-maoísta ao capitalismo mais desbragado, é comunista só de nome, como de resto já era no tempo em que o líder histórico Álvaro Cunhal ainda dirigia os seus destinos orientado pela bússola de Moscovo. A foice foi-se. E a mirífica "sociedade sem classes" ainda plasmada no programa do partido é como o pote de oiro no fim do arco-íris: não existe em lugar algum.
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De William Wallace a 09.09.2015 às 11:20

Há mais marés que marinheiros !

Dizer que Alberto João Jardim é o ultimo social-democrata filiado no PSD é querer desviar as atenções da realidade, nem é o ultimo nem nunca foi social democrata, praticou aliás um gritante socialismo / estalinismo em toda a região e que só acabou porque o dinheiro também acabou.

Quem confunde social democracia com socialismo está muito equivocado e aliás são muitos por aí, a começar no PS.

No resto concordo consigo, o liberalismo (imposto pela maçonaria) mais selvagem está na mó de cima e é sobretudo defendido pelos que ganham algo com isso ou têm a ganhar e será rapidamente abandonado (o apoio) assim que essas castas começarem a ser atacadas por esse pseudo liberalismo, daí ser necessário atacar 1º as castas que o suportam e o resto ruirá como um castelo de cartas.

" Quem se coloca no terreno nacional não tem partidos, nem grupos, nem escolas... "
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De campus a 09.09.2015 às 15:56

Bravóóó.....
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De Reaça a 09.09.2015 às 09:58

De todos os debates só vai ficar um intenso cheiro a borracha queimada, nada mais.

Mais insustentável só os debates dos comentadores da bola.
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 10:07

E por falar em bola: no campeonato dos debates, o BE já ganha dois a zero.
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De JPT a 09.09.2015 às 10:07

"Ana Lourenço, a jornalista que arbitrou o frente-a-frente desta noite": Esta frase é uma piada do Pedro Correia só para Sportinguistas ;)
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De am a 09.09.2015 às 10:20

O BE ganha 2 a zero:

Na secretaria(!)... queria vê-lo no campo|Syrizava-se?
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 10:53

O BE syrizou-se antes do Syriza, fragmentando-se em várias facções: é Bloco só de nome. E nem precisou de entrar em campo.
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De sampy a 09.09.2015 às 12:26

Alguma razão para a última frase do post ser atribuída a Jerónimo? :)
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 13:41

Eheheheh... Um teste à perspicácia dos leitores. Você ganhou o prémio, Sampy.
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De Vento a 09.09.2015 às 13:36

Afinal quais foram as propostas apresentadas por uma raposa que pretende ser governante?

Não há dúvida nenhuma que há quem veja as coisas à sua dimensão.

http://sicnoticias.sapo.pt/diretos/2015-09-08-Debate-de-Catarina-Martins-e-Paulo-Portas-em-analise.

Portas só revelou que as companhias tornam-no igual. E se isto é uma arguta raposa da política não restam dúvidas que as galinhas merecem o que têm.

Vem Portas dizer que as pessoas foram prejudicadas por causa do resgate. Com tanta certeza que ele tem dos prejuízos não foi capaz de tornear as políticas para os evitar. Aliás, nós sabemos que Portas é uma raposa na irrevogabilidade, e que é capaz de transformar, com seu par PSD, um assalto ao poder num resgate. Isto é, num abate do PEC IV um pretexto para implementar os V, VI e VII.

A política só é suja porque fazem dela porcaria.

Quis também trazer a Grécia à colação. Mostrem-me o que aconteceu na Grécia depois da assinatura do acordo.

Falou em tarifas sociais, mas não disse que a maioria não aderiu. Se entendem como tarifa social o que estão a propor o melhor é ficar a pagar o que pagam sem chatice em burocracias.
Mostrem que tarifas são essas e qual a poupança feita pelos aderentes.

E sobre a aldrabice dos números do emprego nem vale a pena perder tempo.

A balança comercial ocorre por alguns vectores: a melhoria do turismo, a baixa do preço de petróleo e a diminuição das importações.
E nisto o governo nada pode dizer que é por suas políticas que ocorre. Nem pode dizer que as exportações se devem a políticas por si implementadas. E as exportações de bens só revelam que o volume também ocorre pelo aumento de PREÇOS.

Infelizmente, Portas transformou-se num vendedor da banha da cobra.
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De Ana Margarida a 09.09.2015 às 17:29

Catarina esteve muito à frente de Paulo Portas. Portas não consegue convencer nada nem ninguém, como nunca convenceu. Ilude aqueles que pululam à sua volta e nada mais e mesmo esses, já começa a ser difícil.
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 18:45

Sim, Catarina Martins esteve muito à frente de Paulo Portas. Tal como Paulo Portas esteve muito à frente de Catarina Martins.
Qualquer pessoa que tivesse acompanhado este debate se apercebeu disso.
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De Reaça a 09.09.2015 às 18:21

Quando o serralheiro Jerónimo fôr embora, já não haverá mais serralheiros, e lá vai o PCP para o museu.

É que dótores não sabem as tiradas do poetAleixo.
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De Pedro Correia a 09.09.2015 às 18:46

Nenhum candidato dança o tango e o fox-trot como o camarada Jerónimo. Essa é que é essa.

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