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Legislativas (1)

por Pedro Correia, em 01.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Cheguei ao fim do debate desta noite na RTP informação (não valeria a pena a televisão pública tê-lo emitido em sinal aberto?) quase sem distinguir o Bloco de Esquerda do Partido Comunista. Excepto na questão do euro: o PCP faz um balanço "profundamente desastroso" da nossa integração na moeda única e o Bloco deixa claro que "a saída do euro não é a saída para a crise".

Há também um pormenor semântico, que aliás está longe de constituir novidade: ao contrário do que sucede com Catarina, Jerónimo de Sousa faz questão de iniciar sempre as frases recorrendo à primeira pessoa do plural ("a nossa análise, o nosso projecto, as nossas propostas...")

Em quase tudo o resto o secretário-geral do PCP e a porta-voz do Bloco de Esquerda não fizeram qualquer esforço em diferenciar-se neste frente-a-frente moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves. São ambos contra as "políticas de austeridade", pretendem renegociar a dívida pública, estão prontos a rasgar o tratado orçamental e nem admitem ouvir falar de possíveis alianças pós-eleitorais com os socialistas, transformados em bombo da festa neste debate. 

"O PS sempre praticou políticas de direita", sentenciou Jerónimo, sem introduzir um átomo de alteração à prédica habitual dos comunistas, campanha após campanha. "O PS, nas questões de fundo, não se distingue da direita", sublinhou a porta-voz bloquista, de olho verde mas discurso bem vermelho.

De um lado venta, do outro chove: Bloco e PCP contentam-se em ser partidos de protesto. E como se somariam a um hipotético executivo socialista se não se dão sequer ao incómodo de juntar forças numa plataforma eleitoral comum?

Jerónimo pareceu fatigado, Catarina esteve mais fresca e exibiu palavra mais solta, chegando a conceder arguta e merecida vénia ao parceiro de debate: "O Bloco é muito devedor da luta e do combate do PCP." A dado momento um plano televisivo fixou-a a mirar com ar carinhoso para o histórico comunista: parecia uma neta a contemplar o avô.

Estes pequenos apontamentos visuais proporcionados pela indiscrição das câmaras tornam-se quase sempre os aspectos mais interessantes dos debates em que os protagonistas fazem tudo para ocultar divergências, como foi o caso. No final, outra pequena diferença: Catarina, desfavorecida nas sondagens, apelou explicitamente ao voto dos abstencionistas militantes. Jerónimo nem se deu a esse incómodo: com saber de experiência feito, ele não ignora que a batalha à esquerda do PS está antecipadamente ganha pelo PCP.

...................................................................

 

FRASES

Catarina - «O PS, para fazer um governo de direita, precisa de um partido de esquerda? Não. Pode fazê-lo com partidos de direita. Não é para isso que cá estamos, de certeza.»

Jerónimo - «Nós defendemos a ruptura com este caminho para o desastre a que a política de direita tem conduzido o País.»

Catarina - «O PS tem um alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial.»

Jerónimo - «Temos um valioso património de trabalho unitário.»

Catarina - «As pessoas estão cansadas de uma alternância que nunca lhes trouxe alternativa.»

Jerónimo - «Ninguém é dono dos votos dos portugueses.»

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28 comentários

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De Vento a 02.09.2015 às 01:55

Concordo em substância com sua interpretação. Mas o bloco vai subir. Eu sempre disse que era importante que o PCP e o BE saíssem reforçados, o que ocorrerá.
A próxima legislatura vai confirmar o quão eles são importantes para as mudanças que ocorrerão.
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De Pedro Correia a 02.09.2015 às 11:49

A questão aqui não é se estes partidos sobem ou descem umas décimas mas a aversão que ambos sentem em tornar-se alternativas de governo. A questão - que deixa muita gente perplexa - é por que motivo, não apresentando qualquer diferença digna de registo, tardam ambos em formar um bloco eleitoral que, potenciando o método de Hondt, lhes permitiria converter mais votos em mandatos parlamentares. Assim disputam irracionalmente votos um ao outro, impedindo essa dispersão a eleição de vários deputados.
Com isto condenam-se à irrelevância política. Sobretudo o Bloco, que hoje pouco mais é do que um decalque do PCP. Sem a implantação autárquica e sobretudo sindical dos comunistas.
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De Vento a 03.09.2015 às 01:29

Meu caro, eles são importantes na gestão de equilíbrios. Foi isto que pretendi dizer.
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De Pedro Correia a 03.09.2015 às 12:41

São importantes na gestão de equilíbrios do sistema político e no quadro parlamentar, sim. Mas é uma importância reduzida - por exclusiva culpa própria. Porque subtraem votos mutuamente em vez de os somarem. É isso que pouca gente entende. Eu não entendo de todo.
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De Vento a 03.09.2015 às 12:46

Meu caro, essa sua tese reforça a lógica do equilíbrio que lhe dava conta.
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De Pedro Correia a 03.09.2015 às 13:03

Entendo mal a sua tese. Geram mais equilíbrio subtraindo do que somando?
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De Vento a 03.09.2015 às 13:51

A competição não subtrai, acrescenta.
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De Pedro Correia a 03.09.2015 às 14:08

Como é que a competição entre o Bloco e o PCP "acrescenta"? Só se acrescentar a outras forças políticas, que acabam por conquistar deputados graças à dispersão de votos entre estas duas forças políticas, sobretudo nos círculos eleitorais que elegem menos parlamentares.
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De Vento a 03.09.2015 às 21:56

Meu caro, você vê as coisas em termos numéricos, mas eu vejo-as pelo lado qualitativo das propostas políticas e o público alvo. A uniformidade subtrai e a pluralidade ou diversidade não, esta última complementa.

Não se esqueça que o BE situa-se como uma força política fora dos tradicionais cânones do operariado, ainda que defenda esta classe.

Mas de hoje em diante procurarei ser mais explicito em nossos diálogos.
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De Pedro Correia a 03.09.2015 às 22:04

Há uma diferença enorme entre pluralidade e duplicação. A pluralidade em duplicado, em vez de somar, subtrai.
Mas a questão não é aritmética: é política. Revelando convergência de posições em 95% dos temas, BE e PCP tinham a estrita obrigação de ensaiar uma pré-coligação eleitoral com vista a potenciar o método de Hondt na conversão de votos em mandatos. Assim, e dado o sistema eleitoral português, acabarão por disputar votos um ao outro, propiciando que terceiras forças aproveitem para eleger deputados graças a essa dispersão de sufrágios.
Julgo, pela minha parte, ter sido suficientemente claro.
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De Vento a 03.09.2015 às 22:40

Não há duplicação, Pedro, em minha óptica. Repare que o PCP é um partido de tradições, isto é, assente numa ortodoxia bem vincada e que vai ao encontro de seus militantes.
Em contraponto o BE é um partido mais cosmopolita e uma esquerda mais liberal.
Neste cenário, e como nenhum deles quererá abdicar, pelas razões expostas, dos princípios que os rege seria de todo impossível uma unificação partidária ou até mesmo uma coligação eleitoral. Logo, os acordos intra e extra-parlamentares são o caminho que deve regê-los.

Repare na questão PSD/CDS. Esta coligação só se tornou possível pela completa anulação do CDS. Mas neste caso o que estava em causa era o projecto que o CDS tem de estar no poder e não porque exista uma coerente política de valores políticos e de causas sociais.
O CDS tenta colmatar tudo quanto não tem através de um discurso tecnocrata que não é capaz de implementar e que também não compreende.

Trago este tema porque as comparações ajudam a entender o sentido do que aqui produzo.

Poderei desenvolver esta temática num post mais oportuno. Espero que o post seja seu.
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De Pedro Correia a 03.09.2015 às 23:59

Percebi. Cada qual entrincheirado na sua capelinha. E depois queixam-se de que o governo "é de direita" e que as políticas "são de direita". Quando não dão um passo - um só - para construírem uma alternativa de esquerda.
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De Vento a 04.09.2015 às 13:04

Bem, vamos a uma coisa de cada vez.

Eu não sei se a coligação ou governo é de direita. Até agora eles mostraram-me não ser nada. E o que me surpreende é o facto de quem os apoia pensar que apoia alguma coisa.
Nós não temos um governo, temos um grupo que é manobrado de fora para fazer para fora e nada cá dentro.

No meu comentário pretendi precisamente mostrar-lhe a minha visão sobre a importância de ter princípios e valores em que acreditar e que, apesar das diferenças, pode haver unidade com acordos.

Aliás, a sua resposta ao meu comentário prova exactamente a tal cartilha que lhe dava conta em outro post sobre pretender-se uma ditadura da lei que coaja todos a agir, pensar e viver contra si mesmos e a favor de uma não sei quê.

É contra esta uniformidade que sempre me insurgi. Quando o colectivo se sobrepõe ao individual deixa de haver individuo e, consequentemente, progresso. Aceita-se tudo e transformam-se todos os indivíduos numa espécie de leitões a alimentar-se de dejectos. Mas um dia virá a revolta dos porcos; e ela já está à porta.

https://www.youtube.com/watch?v=A5wavuhrqZ0
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De Pedro Correia a 04.09.2015 às 22:41

"Quando o colectivo se sobrepõe ao individual deixa de haver individuo e, consequentemente, progresso."
Estas suas palavras parecem-me uma crítica demasiado severa ao PCP, um partido em que o colectivo se sobrepõe sempre ao individual.
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De Vento a 04.09.2015 às 23:48

Pedro, o individual aqui são os partidos. E se o individuo opta por fazer parte deste círculo ele faz uso de sua liberdade. Quando está contra rebela-se, muda ou sai.
Isto aconteceu em todos os partidos que conhecemos.
Mais objectivamente, em nome do colectivo não se pode limitar o surgimento de partidos. Isto é próprio dos sistemas ditatoriais de esquerda e direita.
Não posso aceitar que um colectivo de pessoas e/ou instituições pretendam através de um governo submeter os indivíduos.
Aliás, ao Pedro é caro o que acontece com os gays e verificará que estes são vitimas exactamente de uma mentalidade colectiva que os tem subordinado e contrariado seu progresso.

Mas serei ainda mais preciso, em qualquer organização entendo que deve ser "lei" a liberdade para se criar e não a de conduzir. Esta norma, a última, é lei em todas as instituições da nação. Por isto mesmo pagou-se e pagam-se avultados custos no progresso tão desejado mas pouco concretizado desta nação.
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De Pedro Correia a 04.09.2015 às 23:58

Então na sua perspectiva o PCP não faz sobrepor o colectivo ao individual?
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De Vento a 05.09.2015 às 00:05

Meu caro, ou não entendeu a minha perspectiva ou está convencido que eu sou parte do secretariado geral do PCP. Vai ter de fazer essas perguntas aos seus militantes.
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De Pedro Correia a 05.09.2015 às 00:33

Não preciso de fazer essas perguntas. Conheço as respostas de antemão.
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De Vento a 05.09.2015 às 01:02

Pronto. Quer dizer que aquela gente por ali é toda masoquista. Gostam de sofrer.
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De Pedro Correia a 05.09.2015 às 01:06

Quero dizer apenas que conheço bem o PCP. Muito bem mesmo.
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De habitualmente a 02.09.2015 às 03:13

Obrigado pelo reporte.Desisti da TV,em especial a "pública".Há muito tempo enviei-lhes uma crítica/sugestão e nem sequer me confirmaram a recepção.
Sabe se poderei deixar de pagar a respectiva taxa?
Quanto ao seu relato confirmo que nada perdi,são previsíveis desde Marx.Lendo
este estão lidos os acólitos,é sempre a descer,é que nem sequer conseguem ombrear com o profeta.
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De Pedro Correia a 02.09.2015 às 11:55

O Bloco funciona hoje como uma réplica do PCP. Aos poucos, as diferenças foram-se esbatendo e tornaram-se quase indistinguíveis. Também pela sábia decisão dos comunistas de procederem à renovação geracional do seu grupo parlamentar. Uma das poucas coisas em que se distinguiam era a visibilidade geracional: o PCP parecia um partido de "velhos" e o Bloco parecia um partido de "malta jovem".
O nível etário médio da bancada comunista baixou em relação à do BE. E as semelhanças entre ambos tornaram-se mais notórias. Coincidem no diagnóstico, coincidem na suposta terapia, coincidem na firme decisão de não darem um passo concreto para assumirem responsabilidades governamentais no quadro de uma hipotética e sempre adiada "maioria de esquerda".
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De Luís Lavoura a 02.09.2015 às 09:46

parecia uma neta a contemplar o avô

Corrijo: uma filha a contemplar o pai. Catarina tem 40 anos de idade e Jerónimo 70 (mais ou menos).
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De Pedro Correia a 02.09.2015 às 11:56

Parecia, escrevi. Os bilhetes de identidade são irrelevantes para estas percepções. E em política o que parece é.
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De Luís Lavoura a 02.09.2015 às 09:47

A fotografia que ilustra o post demonstra inequivocamente que Catarina, tal como Passos Coelho, está mais volumosa.
A política é lixada.
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De JPT a 02.09.2015 às 10:26

Não sou apreciador do jornalista Vítor Gonçalves (fiquei marcado pelo seu trágico-cómico salto de janela no Haiti), mas ontem esteve brilhante ao começar o debate PCP/BE com a pergunta: "digam lá o que vos distingue?". Foi um dos raros momentos em que um jornalista fez a pergunta que se impõe, o que estarreceu ambos os inquiridos. Superado esse trauma inicial (pela Catarina, que o Jerónimo não recuperou), o resto do debate fez lembrar aquele "topos" do Pedro Correia dos dois velhos dos Marretas, ambos com uma infinito stock de críticas, mas sem a menor ideia do que fariam se chegassem ao poder, ainda que a reboque do PS (e apavorados pela hipótese de isso alguma vez vir a acontecer).
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De Pedro Correia a 02.09.2015 às 12:01

Eu aprecio o Vítor Gonçalves e considero-o um bom profissional. A pergunta que ele fez é fundamental: sem que essa questão ficasse esclarecida (e não ficou) a própria razão de ser daquele frente-a-frente esvaziava-se. Como podem ser forças concorrentes dois partidos que convergem em praticamente tudo?
Quanto aos marretas/jarretas, agradeço-lhe a referência. E para os leitores que não a conheçam, aqui fica aberta a via de acesso a essa minha série:
http://sporting.blogs.sapo.pt/tag/jarretas

Saudações leoninas!
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De Reaça a 02.09.2015 às 10:31

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