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Delito de Opinião

Larga lá a bola e vai votar

Pedro Correia, 15.09.17

Alberto Gonçalves:

«Em matéria de gozo um reles derby não chega aos pés do espectáculo de burlesco providenciado pelos nossos extraordinários políticos, principalmente aqueles que sonham com um mundo repleto de proibições, interdições, regulamentações e resignações. É óptimo que imponham à força um dia inteirinho para reflectirmos sobre eles e a democracia que representam – e, enquanto não proibirem tudo, optarmos por outra coisa qualquer.»

 

António Costa:

«O Estado tem de tomar conta dos portugueses, por isso é até de estranhar que o governo não alargue o princípio. O povo precisa de ser educado, senão, não vai lá. O domingo, como se sabe, é dia de missa, passem-na para o sábado, as sessões de cinema poderiam também ser suspensas, as televisões deveriam ser obrigadas a passar a pior das programações possível, e por aí adiante. Feche-se mesmo o país, as fronteiras e os aeroportos, para garantir que ninguém foge.»

 

Francisco José Viegas:

«A Comissão Nacional de Eleições zela por nós com um desvelo de jardim-escola, definindo o que devemos e não devemos fazer no dia das eleições. Nada de futebol nesse dia; nem sexo, nem carnes vermelhas, nem saltar ao eixo – só eleições. Qualquer outra actividade pode "potenciar a abstenção". (...) Peço humildemente ao governo que na sua lei não se esqueça de mandar encerrar os cinemas e os teatros, bem como livrarias, cervejarias de bairro, restaurantes tailandeses e bares de striptease

 

Henrique Monteiro:

«Há uma versão benigna para a ideia peregrina de o Governo querer proibir o futebol em dias de eleições (depois das autárquicas): nunca mais se fala disso e nunca mais se legisla. Há outra ideia um pouco perversa: o Bloco e o PCP insistiram um pouco e, uma vez que a medida não custa dinheiro, foi trocada por outras do Bloco e do PCP que davam cabo das contas do Governo. Por último, há a ideia do título: estão loucos, no sentido de totalmente desorientados.»

 

João Pereira Coutinho:

«O problema não está na existência de jogos. Está, obviamente, em dois jogos específicos (o Sporting-FC Porto e até o Marítimo-Benfica) que prometem dominar as televisões, roubando a António Costa as luzes da consagração eleitoral. Para quê ganhar se ninguém está a ver? O Governo sabe que o futebol deixa qualquer político em fora de jogo. Proibir a bola não é uma forma de combater a abstenção nas urnas. É um expediente autoritário para evitar a abstenção das televisões.»

 

Joel Neto:

«Se a politica já não consegue mobilizar a população para as urnas, o defeito está nos políticos, não na concorrência. Obrigar o futebol a estar quieto para não lhe roubar gente, como António Costa se prepara para fazer, é, em segundo lugar, um gesto de paternalismo para com uma classe que, ademais, passa três quartos do tempo em campanha. E é, em primeiro, um insulto não só aos adeptos de futebol, mas aos portugueses. Um insulto.» [No jornal O Jogo, sem hiperligação]

 

José Manuel Delgado:

«Aos  portugueses estará para ser passado um atestado de menoridade, como se ao fim de 43 anos de democracia as pessoas não soubessem tratar da sua vida cívica e deixassem de votar pelo simples facto de, nesse mesmo dia, assistirem a um jogo de futebol. Sim, de futebol e só de futebol profissional, porque como disse o secretário de Estado [do Desporto] ao Expresso, as restantes modalidades (que são profissionais!) não estão organizadas numa Liga. Se tudo isto não representasse uma tragédia quanto a alguns dos nossos governantes seria, sem dúvida, motivo de grandes gargalhadas.» [No jornal A Bola, sem hiperligação]

 

Leonardo Ralha:

«Regista-se o paternalismo de quem pretende salvar os incautos eleitores das suas fraquezas. Mas então a medida ‘antifutebol’ peca por defeito. Seria também preciso instituir a obrigatoriedade de bandeiras vermelhas nas praias em dias de sol, encerrar superfícies comerciais, ou até tornar o voto obrigatório, sob pena de pagamento de coimas, embora fosse difícil cobrá-las aos milhares de defuntos nos cadernos eleitorais.»

 

Pedro Magalhães:

«Proibir é fácil, o que é difícil é algo que exige algum investimento e alguma organização: tornar o voto mais conveniente para as pessoas, mas isso não parece ser prioridade, o que é prioridade é proibir jogos de futebol.»

 

Ricardo Costa:

«Parece que agora o governo vai tentar proibir jogos de futebol em dia de eleições. Digo tentar, porque não estou a ver como é que isso é possível de fazer quando o calendário de futebol nacional depende de várias provas internacionais e de sorteios e datas que ninguém pode determinar ou condicionar em Portugal.»

 

Tiago Freire:

«Não paremos pelo futebol em dias de eleições. Fechem-se os cinemas, os teatros, os centros comerciais. Vedem-se as praias e os bosques. Proíbam-se as almoçaradas de domingo, a missa, o namoro ou a leitura de um livro. Nesse dia, não. Ponto final. Enquanto isso, o voto electrónico é uma miragem, os cadernos eleitorais têm mais mortos que um filme de terror, os cidadãos distanciam-se dos que lhes são propostos para governar, aumentando a abstenção, por preguiça ou por convicção. Mas o futebol, meus senhores, isso é que é preciso resolver.»

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