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Lamento por um título arruinado

por Paulo Sousa, em 29.11.20

Hillbilly Elegy.jpg

Ontem vi o filme “Hillbilly ElegyGosto de histórias baseadas em factos verídicos. Na ficção existem limitações de razoabilidade de que a realidade se deve rir à gargalhada.

Esta é uma história pessoal e familiar, que se tivesse sido inventada pouco passaria de um chorrilho de clichés. Baseia-se num Best Seller com o mesmo nome, escrito por J.D.Vance.

Uma gravidez involuntária nos anos 50 leva um jovem casal a fugir do Kentuky e a estabelecer-se no Ohio. Além da história familiar, o filme mostra-nos também as grandes mudanças ocorridas desde então no midwest, com destaque para a desindustrialização, para a falta de oportunidades da classe média, para a facilidade no acesso a drogas e no fundo para a degradação social.

Olhando à imensidão de informação que foi divulgada nos últimos meses por ocasião das eleições americanas, esta é a América que, por estar descontente com a evolução das suas perspectivas de vida, vota Trump. Salta à vista que ali se comunica com o jargão a que Trump nos habituou. Quando as elites liberais e bem sucedidas dos grandes centros urbanos ficam corados com a rudeza com que o ainda POTUS se dirige aos seus cidadãos, não fez ideia de que é assim que se fala nas zonas rurais. É assim que os rednecks se manifestam e é assim que funcionam. Mal comparado, podemos imaginar o choque de um lisboeta com pedigree quando pára num café duma terriola na cintura urbana do Porto e troca dois dedos de conversa com um local. Eu adoro as nossas diferenças, as nossas pronúncias e a liberdade como moldamos a língua à forma como pensamos e somos, mas no filme, os recorrentes palavrões dentro das conversas familiares surgem como um sinal da degradação moral.

Histórias como esta, algumas com final bem mais triste, desenrolam-se perto da nossa casa, à volta das grandes cidades no nosso país e por todo o mundo.

Apesar do difícil percurso de J.D.Vance, dos momentos traumáticos que a sua instável mãe lhe proporcionou, e assente na sua relação com a irmã e sobretudo com a avó, esta é uma história de superação e até inspiradora para jovens à procura de uma fasquia a que possam ambicionar.

A tradução literal do título desta obra poderia ser qualquer coisa como “Elegia campónia” ou “Elegia provinciana” ou até “Elegia matarruana”. No Brasil, que tem uma tradição bem cómica na tradução de títulos de filmes, este filme chama-se “Era uma vez um sonho”. Em Portugal, alguém que quis sublinhar a sua visão pessoal, poupando-nos assim o esforço de uma análise, achou que a história de um miúdo que cresceu fora das elites, num ambiente terrível, e ainda assim (spoiler alert) consegue formar-se em Yale, deveria ser “Lamento de uma América em ruínas”, o que retrata melhor o tradutor, que o filme.


4 comentários

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De V. a 30.11.2020 às 14:15

Podem ser boas histórias — mas não acredito em histórias inspiradoras nem no poder moralizador do exemplo. A motivação e o bom desempenho vêm do interior das situações, são coisas muito concretas, como a oportunidade ou a recompensa.

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De Paulo Sousa a 30.11.2020 às 22:30

Eu pelo contrário acho que algumas histórias e alguns exemplos podem ser inspiradores pela resistência que mostram, pela esperança que transmitem ou pelo caminho que apontam. Algumas pessoas, em alguns momentos, conseguem superar a nossa condição de bicho e provam que, como dizem os anciãos de Tebas na Antígona de Sófocles "Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem"
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De sampy a 30.11.2020 às 14:59

É possível que o tradutor português tenha querido tomar em consideração o subtítulo do livro.
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De Paulo Sousa a 30.11.2020 às 22:34

Mesmo olhando para o subtítulo, "a memoir of a family and culture in crisis", e daí conseguir à uma "América em ruínas"... é muita certeza absoluta.

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