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"La Pasionaria" da Alameda

por Pedro Correia, em 07.07.20

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A nova secretária-geral da CGTP diz-se "representante dos trabalhadores" sem fazer a menor ideia, por experiência própria, do que é o trabalho em Portugal.

Chegou aos 60 anos sem nunca ter conhecido a amarga experiência do desemprego, sem jamais lhe faltar o salário ao fim do mês, ignorando o que é trabalhar sem auferir dois subsídios - o de férias e o de Natal - ano após ano, sem falhar um.

Isabel Camarinha exerce há quatro décadas como funcionária da própria central sindical. Apregoa o exercício permanente do direito à greve sem ela própria jamais ter feito greve: a sua entidade patronal não lhe perdoaria tal atrevimento.

Eis o exemplo supremo da endogamia reinante na CGTP, estrutura cada vez mais encerrada na própria bolha e divorciada do país real.

 

Não admira que os seus dirigentes cometam grosseiros erros de perspectiva e análise da sociedade, que está muito longe de ser como imaginam. Daí as críticas duríssimas e generalizadas que receberam, de quase todos os sectores, por terem levado "avante" aquela grotesca coreografia do 1.º de Maio na Alameda que até incluiu gente arrebanhada em autocarros, como no tempo da velha senhora, chocante excepção à regra em pleno estado de emergência.

A 8 de Maio, por macabra coincidência, Portugal registou o pior dia em estatísticas relativas ao Covid-19 desde o início da crise pandémica: 533 infectados, além de nove vítimas mortais. E desde então não pararam de aumentar os preocupantes focos de infecção na região de Lisboa e Vale do Tejo.

 

São factos e números com custos reputacionais incalculáveis para a central sindical, que ficará irremediavelmente ligada, na perspectiva do cidadão comum, à progressão da pandemia na Grande Lisboa.

Se Camarinha tivesse noção do que é o mundo do trabalho, fora da bolha onde sempre viveu, jamais teria cometido esse erro lapidar de se estrear num "banho de massas" durante o estado de emergência. Imaginando-se porventura como La Pasionaria da Alameda, quando afinal é apenas o que sempre foi: uma obediente e diligente funcionária comunista há quatro décadas em "comissão de serviço" na CGTP.


84 comentários

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De Antonio Maria Lamas a 07.07.2020 às 13:58

A versão feminina (?) "Made in USSR" do "Serafim Saudade.
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:05

Daria uma excelente protagonista da versão portuguesa do filme 'Adeus Lenine'.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 14:04

Boa tarde Pedro Correia. Respeitosamente, sem divergências, assino por baixo. Saúde. António Cabral
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:05

Agradeço e retribuo os votos de boa saúde, caro António Cabral.
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:06

Viva, Vorph. Uma cotovelada amiga.
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De Luís Lavoura a 07.07.2020 às 14:41

Não tem nada que criticar. A maior parte dos políticos faz o mesmo que a Isabel Camarinha: defende coisas e pessoas que nunca foram nem conhecem por experiência própria. Há políticos que defendem o empreendedorismo mas que nunca empreenderam, outros que defendem os homossexuais mas não são homossexuais, outros que são brancos e lutam contra o racismo, outros que defendem a religiosidade e a tradição mas não são religiosos, e outros que defendem os trabalhadores sem jamais o terem sido.

E nada de mal há nisto tudo. As pessoas podem saber perfeitamente bem como é o mundo do trabalho sem jamais terem sido trabalhadores. Tal como podem conhecer os problemas dos patrões de empresas sem jamais terem sido patrões de empresa nenhuma.

Quanto à manifestação do Primeiro de Maio, ainda não ouvi falar de ninguém que tivesse sido contaminado nela. Já ouvi falar de pessoas que se contaminaram a cantar num coro em Fátima, de outras que se contaminaram numa festa no Alvor, e de outras que se contaminaram no seu trabalho em Santa Iria da Azóia. Agora, na manifestação do Primeiro de Maio, não ouvi de ninguém que lá se tivesse contaminado. E nada tem de surpreendente: pessoas caladas, que não gritam nem riem nem cantam perto de outras, não contaminam ninguém.
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De V. a 07.07.2020 às 16:04

outros que são brancos e lutam contra o racismo

Aí está a vulgaridade máxima dos tempos que correm nos termos imperfeitos deste silogismo imbecil: o racismo é "branco"

Já contra o racismo dos japoneses, dos chineses, dos indianos, dos africanos, dos ameríndios — contra esses racismos ferozes que configuraram a história e as classes sociais desses povos ninguém luta.

O que me leva a pensar que os brancos são os menos racistas de todos os seres sobre a terra porque lutam contra o seu próprio racismo enquanto que os outros são racistas à vontade sem que nenhum palerma inculto se lembre de criticar disso e nem fazem SOS's nem Blocos nem gaita nenhuma. Os Mudabis ou Mulalás ou lá o que isso fecham o bico e afiam as catanas.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 16:30

Para :V
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De Anónimo a 07.07.2020 às 17:52

«A maior parte dos políticos faz o mesmo»
Correcto ou certeiro.
A última crónica Clara Ferreira Alves na Revista Expresso,
retrato exemplar Talented Mr António Costa.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 18:35

Senhor Lavoura, sim senhor.
Vejam o que haveriam de arranjar para culpar o aumento de infectados e mais mortes devido ao covid.
Só podia ser: foram os cheneses em geral e os comunistas de cá em particular.
Não havia, desde o tempo do pequeno almoço de criancinhas e injecções atrás das orelhas dos velhinhos, tanta falta de sentido do ridículo.
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:07

Não me diga. Lavoura levou uma injecção atrás da orelha quando era criancinha?
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De Ricardo Abreu a 07.07.2020 às 19:53

Já sentia falta da lavourada da semana
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 20:22

Só faltou propor a camarada Camarinha para belle toujours.
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De Cristina M. a 07.07.2020 às 14:53

muito bem!
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:08

Grato, Cristina.
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De Isabel Paulos a 07.07.2020 às 14:55

São dois países dentro do rectângulo, bem visíveis para quem não conta com o eterno amparo do Estado ou das Centrais Sindicais. E pelos que vão trabalhar em autocarros da STCP, a quem é pedido que se curvem ante tamanha abnegação dos heróis mencionados na publicidade: Obrigado Funcionários Públicos. Que andam na rua por todos.

A imagem (só a foto) comum aos autocarros da STCP por estes dias: https://www.jn.pt/local/noticias/porto/porto/quatro-linhas-da-stcp-com-percursos-mais-rapidos-e-diretos-12269134.html.
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:11

A CGTP tem regras que só se aplicam a ela, mesmo em estado de emergência, tal como o PCP, cuja "festa" apregoada como tal há quase meio século afinal parece agora não ser festa e em princípio vai mesmo realizar-se, ao contrário de todas as outras festas estivais. Irão chamar-lhe como?

Inconcebíveis privilégios que bafejam um partido e uma central sindical que dizem lutar contra eles.
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De Isabel Paulos a 08.07.2020 às 08:16

Encontro reservado a 'bolchechiques'?
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De Pedro Correia a 08.07.2020 às 08:20

Dos mais chiques entre os bolcheviques.
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De Isabel Paulos a 08.07.2020 às 09:17

Esses todos. Também conhecidos por meninos da Quinta da Atalaia.
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De Pedro Correia a 08.07.2020 às 09:21

Sinto inveja social desses meninos. Quando for grande também quero brincar num latifúndio.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 14:55

Covenhamos, não é só ela que não sabe o que é "ser trabalhador" em Portugal....
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 15:37

Convenhamos: só ela chega a secretária-geral de uma central sindical portuguesa sem fazer a menor ideia do que é "ser trabalhador" em Portugal.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 15:51

Bem metida........!!!!
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De Luís Lavoura a 07.07.2020 às 16:47

sem fazer a menor ideia do que é "ser trabalhador" em Portugal

Ela faz perfeitamente ideia. Ela tem informadores em todos os locais de trabalho, que lhe dizem o que lá se passa.

Sempre foi essa a forma de atuação dos partidos comunistas: ter uma classe de "revolucionários profissionais" (a expressão é de Lenine, que o foi ele próprio), cuja profissão a tempo inteiro é fazer a revolução, isto é, trabalhar para o Partido, mas que são continuamente informados sobre o que se passa no mundo do trabalho.

A maior parte dos partidos hoje em dia, aliás, são assim mesmo: são formados por profissionais da política, que defendem valores de que não são, necessariamente, praticantes.
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De Tiro ao Alvo a 07.07.2020 às 15:39

"São factos e números com custos reputacionais incalculáveis para a central sindical".
Para a central sindical e para o nosso país. Os custos para a central sindical não me afligem, mas os custos para o nosso país, esses vão prejudicar-nos a todos, sobretudo aos nossos filhos e neto.
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:14

Ao desafiar o decreto do estado de emergência e o mais elementar bom senso, em tempo de pandemia, com aquele comício da Alameda para vitoriar a camaradinha Camarinha, a CGTP pareceu ter encarado o Covid-19 recorrendo à doutrina Bolsonaro: "é só uma gripezinha".
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De Costa a 07.07.2020 às 15:56

Absolutamente de acordo. Excepto, talvez, e lamentando-o, com esta passagem do seu texto: "São factos e números com custos reputacionais incalculáveis para a central sindical, que ficará irremediavelmente ligada, na perspectiva do cidadão comum, à progressão da pandemia na Grande Lisboa."

Temo que o "cidadão comum", uma parte apreciável, pelo menos, viva tudo esperando e exigindo do estado, e culpando o estado pela falta do que seja. Não por ser vítima sistemática de um confisco incessante e que há muito passou a fronteira da decência (e gozando de impunidade e perdida a vergonha - e essa o estado perdeu-a há muito -, tudo é possível), e ter assim a ousadia de pretender um retorno apenas equitativo, mas por ser receptor passivo e obediente de décadas da doutrina que esta senhora personaliza. Mesmo quando o cidadão comum não confie o seu voto à organização que metodicamente comanda esta diligente serva.

E assim o recente "1º de Maio da CGTP" nunca, receio, será culpabilizado pela legião a ele afecta (que ainda é vasta, afinal) pelo que seja. Será sempre uma manifestação de força e heroísmo revolucionário. Uma manifestação de gente que, se lho disserem, acreditará prontamente e se necessário, numa biologia socialista de Lysenko; naturalmente transposta para qualquer ramo da Ciência. Para essa gente - os crentes da seita e os que não sendo ainda a olham com temor e reverência (isto é: quase toda a gente e, desde logo, o poder) - ainda afinal vivemos nesses tempos e nada a afasta deles.

E o poder não se atreve a dar um passo contra tudo isto.

Este episódio, como escreve Scruton, "also illustrates how far you can go in collaborating with crime, when the crime is committed on the left.". Continua a ser assim e não há qualquer sinal de mudança.

Costa
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De Pedro Correia a 07.07.2020 às 23:18

Pelo que vou escutando, um pouco por todo o lado, a manifestação da Alameda exercida em quadro de absoluto monopólio pela CGTP durante o estado de emergência, como se tivesse direito de pernada relativamente ao espaço público mesmo em tempo de severas restrições ditadas pela pandemia, causou irreversíveis danos reputacionais à central sindical comunista - até junto de pessoas que costumam votar à esquerda.

Vão ter que levar com isso.
O mesmo se passará com o PCP, caso promova a Festa do Avante! na região do País que hoje lidera - de longe - os casos de novas infecções diárias.

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