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La Lys - uma mortandade há cem anos

por João Pedro Pimenta, em 09.04.18
Há cem anos acontecia o desastre quase anunciado de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua, tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães,  perder-se-ia "a importância portuguesa no mundo" e Portugal até poderia ser invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era oficialmente nosso, e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, para fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

 

Paz às almas desses pobres soldados tombados às primeiras horas de 9 de Abril de 1918. Há exactamente cem anos.
 
 
 
* Texto escrito originalmente em 2008, pelos noventa anos da batalha, e devidamente actualizado.


13 comentários

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De Luís Lavoura a 09.04.2018 às 09:21

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<isete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros</i>

Este excerto é um bocado enganador. Na verdade, morreram "somente" 1800, mas 6000 foram feitos prisioneiros, ou seja, a grande maioria foi feita prisioneira e, mais tarde, acabou por regressar a Potugal. O número de mortos foi relativamente pequeno.
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De Luís Lavoura a 09.04.2018 às 09:25

[em África] a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente

Sê-lo-ia em Angola e Moçambique. Na Guiné as tropas portuguesas estavam em inferioridade e a guerra era já dada como perdida em 1973.
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De João Pedro Pimenta a 09.04.2018 às 23:16

Tem razão no caso da Guiné. em 73 boa parte do território estava perdido.
Quanto aos números de La Lys, repare que aqueles que apresenta em cima não divergem muito dos meus (sendo que houve mais prisioneiros que mortos).
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De Sarin a 09.04.2018 às 15:40

Há divergências na história contada por portugueses e por britânicos.
Factos, o de que por uma bandeira foram enviados, e por falta de liderança morreram. Morreram lá e morrendo vieram pelo caminho, amputados de pernas braços glória, os pulmões queimando tanto como a memória o resto da vida. Da breve vida de alguns, como o meu Bisavô.

Mas é por bandeiras que se fazem guerras, e não sei se é mais de lamentar o termos entrado na Primeira mal preparados ou o não termos entrado na Segunda. Na Primeira alinhámos ingenuamente pela Liberdade e pela Democracia, na Segunda contribuímos cobardemente para o esforço de guerra de uma das partes - e logo da pior!


O nosso Corpo Expedicionário não era feito de soldados nem sequer de gente politizada. Morreram sem saber por quem. Duas vezes.
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De Lucklucky a 10.04.2018 às 04:09

"na Segunda contribuímos cobardemente para o esforço de guerra de uma das partes - e logo da pior!"

Continuam as mentiras ou ignorância vindas da Esquerda.

É o que dá ler o jornalismo Marxistas dos jornais e TV's portuguesas

Sabe o que foi a Portuguese Trawler Class por exemplo?

https://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese-class_naval_trawler


Portugal dançou entre os dois lados.
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De amendes a 09.04.2018 às 19:44

Os oficiais foram os primeiros a dar à "sola"...

Como, por vezes, na guerra colonial...

Ex-combatente 1961/63
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De Lucklucky a 10.04.2018 às 04:12

"Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, perder-se-ia "a importância portuguesa no mundo" e Portugal até poderia ser invadido."

Foram os Italianos que em Versailles pediram as colónias Portuguesas, principalmente Moçambique.
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De João Pedro Pimenta a 10.04.2018 às 18:43

Não tenho ideia de ter visto isso em parte alguma, mas não me parece que tivessem força suficiente para isso. Acresce o facto de as colónias italianas serem muito a Norte e não terem ligação terrestre com Moçambique (e de Portugal ser parte vencedora, claro).
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De Lucklucky a 12.04.2018 às 00:40

Isto de ir pela memória...
Foi Angola não Moçambique

https://it.wikipedia.org/wiki/Colonialismo_italiano#Altre_mire_del_governo_italiano

Anche l'Angola portoghese fu ambita nelle trattative per il trattato di Versailles.[10]

Una richiesta alternativa del programma delle rivendicazioni coloniali italiane riguardava la colonia portoghese dell'Angola (anche per il Congo belga fu fatta richiesta analoga).[11]

Infatti il governo italiano a Parigi dichiarava che il Portogallo aveva un impero sproporzionato rispetto alle sue piccole dimensioni, al contrario dell'Italia che si trovava in una situazione opposta. Furono avanzate due proposte:

il riconoscimento all'Italia da parte del Portogallo di concessioni agricole in Angola per emigranti italiani;
nel caso che il Portogallo venisse privato di alcune sue colonie, la Gran Bretagna e la Francia avrebbero riconosciuto all'Italia il diritto sull'Angola.

Contemporaneamente il governo italiano promosse la costituzione da parte delle 11 banche italiane più importanti di una "Società Coloniale per l'Africa Occidentale" per la gestione delle concessioni agricole in Angola. Comunque questo progetto trovò una ferma opposizione da parte delle autorità portoghesi.[12]

Alla proposta italiana poi definita "assurda" risposero con fermezza Regno Unito e Francia in difesa portoghese ribadendo che le colonie portoghesi erano frutto di una conquista coloniale secolare da parte dei lusitani e che non c'era alcuna ragione concreta a che il Portogallo che pure aveva (molto limitatamente) partecipato alla I guerra mondiale cedesse la colonia all'Italia, dato che anch'esso figurava tra i vincitori del conflitto. L'Italia a giudizio franco-britannico aveva ottenuto già abbastanza con la conquista del Trentino-Alto Adige e dell'Istria nonché le rettifiche territoriali sempre a vantaggio italiano nell'Oltregiuba.
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De Lucklucky a 10.04.2018 às 04:20

E claro Portugal estava em guerra com a Alemanha em África...

http://momentosdehistoria.com/MH_05_02_Exercito.htm

Em 25 de Agosto (1914) dá-se o primeiro incidente de fronteira, com o ataque alemão ao posto fronteiriço de Maziúa, na fronteira junto ao rio Rovuma, tendo sido morto o chefe do posto e incendiado o posto e as palhotas vizinhas.
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De amendes a 10.04.2018 às 11:33

Ontem uma estaçao de TV apresentou o "trailer" do filme a Missão / sobre o tema...

Miséria: - Capacetes limpinhos, carinhas lavadas, farda impecável... : Parece que estavam na parada!

Quem manda ti tocar....
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De xico a 10.04.2018 às 20:54

Os britânicos desaconselharam a nossa entrada? Claro, connosco fora da guerra, ficavam com as colónias portuguesas. Em todo este discurso há um eurocentrismo que se esquece da guerra no norte de Moçambique. Portugal tinha de entrar na guerra ou perdia as colónias. Não haja a mínima dúvida.
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De João Pedro Pimenta a 11.04.2018 às 01:18

Leu o texto, não leu? Os britânicos desaconselharam a intervenção portuguesa NA EUROPA, não em África.

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