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Delito de Opinião

Lá do alto

Maria Dulce Fernandes, 05.07.22

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"Alto está alto mora todos o vêem ninguém o adora", dizia-me a avó para eu adivinhar que aquele gesto abaulado de mãos significava sino, naquele jogo de adivinhas com rima e senso a que tanto adorávamos brincar. Para mim esta era uma adivinha triste, porque morria de pena do sino, que todos viam e ninguém adorava, apesar de ele tocar para chamar os fiéis à celebração da Eucaristia Dominical, apesar de ele tocar quando se anunciava uma efeméride, apesar de  dobrar a finados.
E depois a Avó recitava :


O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.

E eu condoía-me do imponente sino solitário que todos viam, ouviam e seguiam os tinidos enquanto tocava, mas quase imediatamente o som que nos emocionara, que nos avisara, que nos entristecera ou jubilara, caía rapidamente no esquecimento e praticamente ninguém o apercebia lá no alto, até lhe voltar a ouvir a voz grave e metálica.
O mal de crescer é perder a inocência, a candura de acreditar, de aceitar a simplicidade duma palavra, a ternura dum gesto. O mal de crescer é entender, é cada um ter os seus pareceres e fazer os seus juízos.
Eu cresci e continuo a olhar o sino, agora à luz da experiência de vida que a minha condição de pessoa antiga me conferiu. Já não o olho com os olhos puros da minha infância, nem me condoi vê-lo só lá no alto donde nunca saiu. Provavelmente acha-se importante de mais para descer do seu pináculo.
Também aconteceu assim com Gulliver em Lilliput e ilustra na perfeição a ilusão da realidade inversa:

 
                   Vozes de burro chegam aos céus (Ou pelo menos a altas instâncias)
 
(Imagem do Google)

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