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Jornalismo de referência: o estado da arte

por Teresa Ribeiro, em 19.10.18

Expresso. Edição em papel de 13 de outubro. O título "A reforma que Rio quer fazer em Segredo", desperta-me a curiosidade. Começo a ler. O texto do artigo revela que o PSD entregou aos partidos com assento na AR uma proposta para um pacto de reforma da Justiça. No segundo parágrafo afirma-se que esta iniciativa de Rui Rio "foi considerada estranha por diversos responsáveis  dos partidos" abordados pelo Expresso, "sob condição de anonimato". O jornalista que assina a peça escreve a seguir que "ninguém quis fazer a desfeita de recusar à partida a iniciativa, mas tudo é considerado "insólito", entre outras razões por "partir do pressuposto de que os partidos devessem chegar a acordo sobre a reforma da Justiça".

 

Enquanto leio vem-me à lembrança a quantidade de vezes que ouvi figuras de vários quadrantes políticos defenderem pactos de regime que viabilizassem as reformas estruturais de que o país carece em áreas sensíveis, uma delas a da justiça. Por isso não percebi o que pode ter de insólito uma iniciativa deste tipo. Continuo a ler, já com a percepção clara de que ao texto pretensamente jornalístico subjaz a opinião de quem o assina.

Segue-se um subtítulo que é, em si mesmo, uma opinião: "ideias concretas e princípios vagos". E o jornalista prossegue exprimindo de facto a sua opinião sobre o documento que diz que consultou: "Mistura ideias concretas, algumas originais, com princípios vagos e propostas de temas a debater em que o PSD não revela a sua posição". Diz isto a primeira vez, no final do terceiro parágrafo; a segunda vez , no quinto parágrafo ("a par de ideias concretas também as há bastante vagas - enunciação de princípios ou objectivos sem explicação de como fazê-lo"). Chegada a este ponto pergunto-me: Mas numa proposta para debate de vários itens não basta enunciá-los, ou é preciso detalhar opiniões prévias?

Continuo a ler. No sétimo parágrafo o jornalista repete a crítica: "Há outras questões que o documento do PSD levanta, mas sem definir uma posição". No oitavo parágrafo, lê-se: "...Parece ser uma ideia que o PSD apadrinha, mas não fica claro no documento". Seis linhas depois, o jornalista volta a afirmar que o documento do PSD "não explica". Cinco linhas depois, insiste: "O documento não avança com qualquer análise". E vão seis!

Nessa mesma página, num segundo texto sobre o assunto, assinado pelo mesmo jornalista sublinha-se a mesma ideia: "... Que medidas em concreto? Que tipo de ponderação? O documento não esclarece" (3º parágrafo). No parágrafo seguinte escreve-se: "...o assunto é despachado em pouco mais de cinco linhas, sem qualquer proposta concreta". E no que se segue: "...mais uma vez sem mais pormenor sobre propostas concretas". 

Na secção Gente nesta mesma edição do jornal, das quatro alfinetadas que constam neste espaço, três são para Rui Rio. Finalmente uma nota no editorial faz-me saber que o líder do PSD enviou um email para militantes do partido a acusar o Expresso de publicar mentiras e bla, bla, bla. Fiquei esclarecida. Trata-se mesmo de jornalismo de trincheira. Mas eu que - juro - não sou apoiante de Rio e já agora nem dos passistas, nem dos centristas que também querem fritar o Rio, para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?


17 comentários

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De Anónimo a 19.10.2018 às 22:34

Finalmente vejo alguém a comentar o que entra pelos olhos dentro. A cruzada do Expresso contra Rui Rio. Porquê?
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De Teresa Ribeiro a 20.10.2018 às 15:55

Porque pelos vistos acima do dever de informar existem outros deveres, inconfessáveis.
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De Pedro a 19.10.2018 às 22:59

Bem visto, Teresa. Desfiliei -me há pouco do BE por considerar que um partido que faz do orçamento uma distribuição salarial pelos funcionários públicos à custa dos impostos pagos por todos, relegando para segundo plano os tais "pactos de regime -saúde, ss, governo local, etc" - é estúpido. Estúpido porque se a maioria dos contribuintes começa e sentir que contribui e nada recebe é meio caminho andado para a destruição do apregoado Estado Social

Simpatizo com Rio
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De Teresa Ribeiro a 20.10.2018 às 16:08

Começa a ser escandalosa esta clivagem no mercado de trabalho entre os funcionários públicos e os que sem quaisquer regalias ainda têm de subsidiar através de impostos as intermináveis reivindicações de quem tem emprego e todos os direitos garantidos no Estado.
Simpatizo com todos os políticos que acreditam, ingenuamente, que é possível pôr os interesses do país acima dos interesses dos partidos.
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De Luis Eme a 20.10.2018 às 00:22

O Expresso é cada vez mais um caso de estudo...

Talvez acabem a dizer, "é disto que o povo gosta" (desculpa quase tudo).
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De Teresa Ribeiro a 20.10.2018 às 16:17

Estão instalados há muito no estatuto que conquistaram, mas esquecem-se que o seu público-alvo não é propriamente estúpido. Se têm de entre os seus leitores muitos que até podem apreciar o estilo tendencioso, acredito que muitos mais o rejeitarão. Manipulação, mesmo à borla, dispensa-se, quanto mais pagando 3.80€. Depois queixem-se da quebra de vendas.
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De Anónimo a 20.10.2018 às 16:40

Não subestime o poder da estupidez - principalmente entre a classe média com cursos superiores.
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De Anónimo a 21.10.2018 às 09:56

Muito bem! A verdade é mesmo está "é disto que o povo gosta". Alguns não querem ver que eles vivem de vendas e portanto os grandes culpados são quem consome este jornalixo. Depois parece que alguns só vêm manipulação no Expresso quando ela está em todo o lado! Não será isto também manipulação?

Mais um exemplo do jornalismo atual:
https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/diretor-do-gabinete-de-ligacao-da-china-em-macau-morre-apos-queda-em-casa

O diretor do gabinete de ligação da China em Macau morreu após uma queda da sua casa, informaram hoje as autoridades de Pequim, adiantando que Zheng Xiaosong "sofria de depressão", noticiou o jornal South China Mornig Post (SCMP).

E possivelmente morrem pessoas cá noutras condições e não sabemos!

Mais, se foi apenas um acidente, acontece, é claramente uma não-notícia para nós. E parece isto veio da LUSA, era de esperar!

Desgraçados de nós que agora temos de saber tudo, mesmo que não tenha interesse algum para nós!

Está informação tem utilidade para alguém?

Talvez para alguns que acham que TUDO tem utilidade menos o mais importante.
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De WW a 20.10.2018 às 10:52

Como não leio o Expresso, não sabia dessa cruzada que alguém menciona acima, apena sei da feita pelo Observador mas aí não existe surpresa.
Rui Rio pela sua verticalidade recolhe a minha simpatia, mas está refém de quem ainda manda nas estruturas internas do partido (os Barões), além de contar com a hostilidade de todo o grupo parlamentar do PSD porque estes sabem que vão ser todos corridos caso Rui Rio ainda continue como líder até ás eleições.
O Pedro acima menciona mais um orçamento talhado pelo PS para agradar aos instalados á custa daqueles que não têm direitos mas só um dever, pagar impostos.
Na minha modesta opinião o PSD deve votar contra este orçamento e Rui Rio e os novos dirigentes devem especificar muito bem quais os motivos do seu desacordo, caso não faça isso Rio e os seus apoiantes (que são muitos) perdem a oportunidade de retomar a iniciativa, livrarem-se de vez dos "liberais" do partido construindo o projecto que Portugal necessita.
Quanto ao Jornalismo do Expresso já acabou há muito, ninguém compra jornais para ser desinformado baseado em "fontes" ou no diz que disse, as pessoas não são burras e entendem quando estão a ser manipuladas, veja-se os casos mais recentes por todo o Mundo.

WW
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De Teresa Ribeiro a 20.10.2018 às 16:20

Em traços gerais, estou consigo, WW.
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De Anónimo a 20.10.2018 às 17:12

O problema não é o Expresso, o problema é tudo, já chega de tanto jornalixo.

Penso que sabem ou deviam saber que a imprensa/comunicação social deve ter uma função social e uma função social não é circo. O que eles fazem? Divulgam notícias. E o que é uma notícia? Pois aqui é que está o problema. Eles não sabem! Para eles notícia é tudo e mais alguma coisa quanto mais estúpido e insignificante melhor e é importante que conte para as estatísticas. Há um concurso, quem publica mais "lixo"?

Mas eles publicam o que vende. E alguns em vez de criticar esse "lixo", divertem-se a comentar pois gostam de brincar e de serem manipulados. Seria bom que alguns pensassem que muitas vezes a culpa é nossa. O "lixo" acaba quando as pessoas crescerem e deixarem de gostar de "lixo".

Agora também está na moda as notícias estrangeiras serem mais importantes que as nacionais! Deviam pagar direitos ao Trump e ao Bolsonaro por tanto falarem neles!
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De Anónimo a 20.10.2018 às 17:29

O SAPO tem este artigo do SOL em destaque:
Brasil. Um dia no país das ‘fake news’
https://sol.sapo.pt/artigo/630947

Pois eu digo ao SOL:
Portugal. Um dia no país da censura.

As ‘fake news’ ainda as vemos, já a censura não e por isso é bem mais fácil praticá-la.
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De Manuel Rocha a 20.10.2018 às 21:50

Cruzada contra o Rio? Basta ver as 3 edições do Expresso de Setembro, onde anunciaram 3 nomes como "já estando apoiados pelo líder do PSD e pela líder do CDS" para serem PGR, até ao ponto de anunciar que a PGR já tinha o mandato renovado e que o Marcelo já o tinha confirmado à líder do CDS e ao Rio. (Foi para o expresso a boca do presidente da república sobre "nunca falei com ninguém sobre a renovação, ou não, do mandato".
Numa dessas, até deram muito tempo de antena aquela grande informação de 1700 milhões de euros, anualmente, para pagar amas, creches e infantários (tudo a nível privado... pois o público foi proibido de existir) para crianças desde os 6 meses aos 6 anos de idade. Nenhum dos artigos perguntou porque é que se iriam gastar 1700 milhões anualmente a pagar a privados, se o mesmo valor daria para mais do triplo das crianças num ramo público (que é fraco não há dúvidas, se é para investir que seja num sistema de pré-ensino básico público e não andar a pagar os 549 carros, acima de 130000 euros, que estavam registados em colégios de associação, especificamente na região do grande Porto e em Coimbra).
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De Anónimo a 20.10.2018 às 21:53

É ingénuo quem acredita que o JORNALISMO existe. O que existe é uma comunicação de interesses ao serviço de interesses instalados.
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De Anónimo a 21.10.2018 às 11:33

Não posso estar mais de acordo. O problema é que poucos vêem isso
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De Anónimo a 21.10.2018 às 00:13

Enão srº rui rio?Na estação da sua residência,ou seja no porto onde o senhor manda?Na estação de campanhã? o senhor para ir urinar ?tem que pagar 50centimos.,porque senão urina na sua rua do porto, que é tudo ratazanas?
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De Luís Lavoura a 22.10.2018 às 08:46

para ter acesso por 3.80€ a uma resenha das notícias da semana tenho que levar com isto?

Aconselho a Teresa a fazer o que eu faço: ler o Expresso numa biblioteca pública (para não pagar nada por ele) e colocando os dois pés bem atrás, porque boa parte das "notícias da semana" que lá vêem são falsas.

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