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O consumo e a leitura de jornais tem caído imenso, como o Pedro Correia tem referido amiúde neste espaço, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

redes.png

Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de género" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de género (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de género, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque "se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino... considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas... sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas mais uma vez apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de género", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra... que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de género". Nada de novo, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. 

Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica.

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.


25 comentários

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De jpt a 18.09.2019 às 07:26

Na "mosca". Ou, como se escreveria no Público, n@ mosc@
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De Anonimus a 18.09.2019 às 09:16

Esses ditos que atentam contra o bem-estar dos animais devem ser banidos do léxico.
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De jpt a 18.09.2019 às 14:51

Tem toda a razão, Anonimus. Penitencio-me pela minha insensibilidade, fruto desta minha toxicidade
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 22:54

Mas é de se ficar com a pulg@ atrás da orelha, não é?
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De Luis Lavoura a 18.09.2019 às 07:48

uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido

"superiormente"? Por quem? Quem e o "superior" que vai proteger?

"protegido"? Mas a lingua precisa de ser protegida? Nao basta usa-la e deixa-la usar? De que protecao precisa ela?

(Peco desculpa pela falta de acentos, estou num teclado muito estrangeiro.)
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 22:52

Por instituições como o Instituto Camões, por exemplo, ou pelas academias que o deveriam fazer. Mas não se desculpe, afinal de contas a falta de acentos é apenas "dar uso À língua".
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De Luis Lavoura a 20.09.2019 às 07:29

Nao diga asneiras: estou a escrever sem acentos por estar num teclado estrangeiro que nao tem os nossos acentos (tem muitos outros).
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De Anónimo a 18.09.2019 às 08:44

Eu via alguns conteúdos do Publico pela net mas assim que eles começaram a "fechar a torneira" deixei de ver logo estou a saber agora o alcance da "coisa". Tenho também de referir que foi criada uma plataforma chamada "nónio" que agupa ao que sei cerca de 70 títulos da imprensa portuguesa "convidando" as pessoas a inscreverem-se lá para terem "acesso" a alguns conteúdos, no fundo um esquema já replicado por centenas de empresas pelo mundo fora daí as pessoas em grande parte procurarem cada vez mais as redes sociais para estarem "informadas".
Pela parte que me toca, quando me quero entender melhor um determinado assunto tento sempre procurar os dois lados da questão.
Ainda bem que este post esclarece algumas dúvidas que tinha e alerta uma vez para uma realidade (a chegada de um purificador) que já entendi ser possível a médio prazo aqui em Portugal com o alinhar de posições aparentemente contrárias mas que pretendem o mesmo fim que é na minha opinião a subversão da vida em sociedade.

WW
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 22:53

Esse nónio também é de dar cabo da paciência. Quanto À subversão da vida em sociedade, se não é assim parece.
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De Tiro ao Alvo a 18.09.2019 às 08:45

Tem toda a razão. Essa gente abraça a causa como se fosse uma religião.
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 22:54

E não faltam pregadores nem o dízimo, como se vê.
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De Vorph Valknut a 18.09.2019 às 09:13

Percebo a vossa indignação e possivelmente a vossa ligação afectiva ao jornal. Mas a solução é simples. Deixem de o comprar e permitam às leis do mercado funcionar. No lugar dele, se tal ocorrer, surgirá outro. Tornem - se assinantes do Observador, por exemplo, um jornal de muito boa qualidade, embora discorde de alguns dos seus seus colaboradores (como o ominoso Beto Gonçalves) .

Penso, contudo, que para o Público escrevem dois dos jornalistas mais politicamente incorrectos. Vasco Pulido Valente e João Miguel Tavares.
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 22:56

O Público ainda traz coisas interessantes e artigos recomendáveis - em matéria internacional gosto muito de ler Jorge Almeida Fernandes, por exemplo. Mas precisamente, para se manterem devem ser criticados e dissecados.
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De marta a 18.09.2019 às 11:56

Golo!

Há muito tempo que o Público deixou de disfarçar o activismo, assume-o até orgulhosamente. O activismo é óbvio até nos títulos escolhidos para as supostas notícias: "Espanha condenada a eleições", "Agricultores "perplexos" com o fim da carne na Universidade de Coimbra. Líder do PAN saúda medida.".

Os artigos sobre a "crise climática" são igualmente óptimos. Pequeno problema: tenho dúvidas que os jornalistas que escrevem essas peças tão apaixonadas e alarmantes saibam responder à pergunta "o que é o clima?".

Dos últimos artigos que li sobre temas jurídicos (sou de Direito) só pude concluir que não faziam ideia dos assuntos. Claro que os jornalistas não são juristas, mas há mínimos para se escrever uma notícia estruturada. Sem esse domínio básico dos temas, só sobra mesmo o "achismo". E se na minha área detecto erros grosseiros, nas outras também deve haver.

Isto é o conceito de informação do Público. Como não é o meu, deixei de o ler. Eu e uns quantos milhares de pessoas. Só que a responsabilidade da quebra de vendas nunca vai ser imputada à qualidade do jornal, mas à nossa mentalidade estúpida, conservadora e retrógrada. Como resolver? Com subsídios estatais pagos pelos impostos dos que escolhem permanecer nas trevas.

Será vontade de agradar ao público certo, de educar as massas atávicas e conservadoras, dar visibilidade aos "excluídos", exibição de virtude, etc... mas pode também ser o resultado de uma certa "preguiça" editorial - fazer perguntas, investigar e ler dá muito trabalho, toma muito tempo e depois já não é noticia - e pode também ser já o reflexo da bolha universitária e de um sistema que não ensina os alunos a questionar, a fazer perguntas ou até a escrever bem.
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 23:12

O Público não deixa de manter alguns bons colunistas e artigos, mas aquela máxima do "O Público é um jornal demasiado bom para Portugal" é de provocar gargalhadas. A sua última frase (a da bolha universitária) mostra isso mesmo.
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De Vorph Valknut a 18.09.2019 às 13:53

Só uma adenda, que nestas coisas da política sou exógeno. Dito fel, por dito jornal, mostrado frequentemente por aí,e por aqui, estará relacionado por dito periódico prestar frequente destaque a umas polémicas envolvendo alguns "históricos pardos" do PSD ? Relembro:

https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2019/09/11/politica/noticia/tdc-declara-camara-maia-nao-pagar-divida-tecmaia-1886190/amp

Recordo também a polémica entre dr. Miguel Relvas, quando membro do governo de Passos Coelho, e o famigerado Público. Suponho que nada disto, tenha a ver com tudo isso .

https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2012/05/19/portugal/noticia/miguel-relvas-enviou-a-erc-documentacao-relativa-a-investigacao-do-publico-1546801/amp

No Jornal de Notícias nem pio. Quem manda hoje, por lá, que isto anda sempre tudo a mudar?
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 23:32

É possível, mas deve depender do momento e da oportunidade. Também me lembro quando o Público tomou a dianteira na investigação à carreira académica de José Sócrates (dizem as más línguas que teve tudo a ver com o veto governamental da OPA da Sonae sobre a PT).
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De Vorph Valknut a 20.09.2019 às 00:49

João, afinal, ao contrário da opinião do Pedro Correia, o jornais são um quarto poder. É assustador que exista nas redacções agentes políticos. Somos, os leitores, marionetas. Onde pára a verdade?
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De João Pedro Pimenta a 20.09.2019 às 02:04

Diria mais um contrapoder. Mas que há agentes políticos, disso não tenho a menor dúvida. Ainda há não muito tempo, na eleição para líder do PSD, um comentador do Observador, a que se refere em cima, andou a escrever crónicas seguidas a engrandecer Santana e a desancar Rio, até confessar, já depois da escolha, que fazia parte do staff do agora líder da Aliança.
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De Anónimo a 18.09.2019 às 14:59

O Publico é apenas uma cópia reles e atrasada do que se passa no centro do Marxismo mundial: EUA

Espere pelo dia em que Publico defenda que os filhos devem ser tirados aos Pais.


lucklucky

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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 23:33

Apesar de tudo ainda não chegou a certos exageros do outro lado do Atlântico (talvez por aqui o neo-puritanismo não colher tanta simpatia).
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De Paulo Sousa a 18.09.2019 às 16:18

Na mesma linha:
E se fossemos o nosso lombo à venda nas prateleiras do supermercado?
Apetece responder: Muuuu!! ou Oinc!!

https://www.publico.pt/2019/08/26/p3/fotogaleria/e-se-fossemos-nos-nas-prateleiras-do-supermercado-396690?fbclid=IwAR0pUR0yb6Djns_F_CX2ljMRfwcwpITEu3oVNv75uvexgofjqT96DI12EJE
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 23:35

Sim, ou a de que não devíamos comer polvo porque "é muito inteligente". Espero que não venham a ser criados uns filetes de mula com arroz da mesma.
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De marina a 19.09.2019 às 16:00

há já bastantes anos, 5 ou 6, que o Público é coutada do berloque de esquerda. mas à descarada. os jornalistas são daqueles licenciados em letras típicos do berloque, só lhes falta mesmo serem funcionários públicos aussi.
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De João Pedro Pimenta a 19.09.2019 às 23:35

Nem todos, mas há ali uns filo-Bloco

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