Joana Lopes
Nas bolhas está-se bem. Por lá as notícias reforçam as aversões ou as simpatias, as partilhas as opiniões, e as discussões, se houver, são dentro de um confortável quadro geral comum.
Pertenço a várias porque lá também se aprende alguma coisa, criam-se, reforçam-se ou destroem-se opiniões, e por vezes nascem laços de amizade.
Nosso Senhor, ou o Diabo, fizeram-me céptico e vaidoso. E o cepticismo leva-me a duvidar de tudo, e a vaidade a não respeitar autoridades. Isto sempre fez com que lesse, e ocasionalmente convivesse, com gente que, porque tem opiniões diferentes, e até opostas, das minhas, labora em profundo erro; e, quase sempre sem esperança, nunca hesitei, estivesse onde estivesse, em exprimir as pérolas que moram no bem-fundado das minhas escolhas políticas, apenas com algum cuidado para não ofender gratuitamente.
Quando comecei a frequentar a blogosfera, aí por 2009 ou 2010, tornei-me rapidamente comentador residente de vários blogues e, pelo menos em três, ganhei rapidamente o estatuto de facho residente, ao menos na opinião de outros comentadores, que me desancavam furiosamente.
Descobri que, com frequência, à gente da minha laia não tinha muito a dizer porque apenas abundaria nas opiniões com que concordava, que eram a maior parte. Mas a comunistas, bloquistas, pêesses e, ocasionalmente, laranjas, isso sim, mas que grande gosto.
Blogues hoje defuntos, a maior parte, ainda que muitos bispos da blogosfera tenham seguido carreiras na política ou no comentariado, e por isso não os tenha perdido de vista.
Quem sempre acompanhei foi a Joana Lopes, no blogue Entre as brumas da memória, que em muitos anos raramente terá deixado passar um dia sem publicar textos dela ou de outros, invariavelmente gente de esquerda, e da carregada.
E durante muitos anos comentei, sempre com a elegância que me é própria, e a Joana sempre me tolerou, a certo ponto tendo-me descrito como o seu “inimigo de estimação”.
Quando fui iluminar o Facebook com a minha presença a Joana já lá estava e, naturalmente, passei a, no mural dela, espargir considerações da maior pertinência, na minha opinião, e da maior impertinência, na da corte dela, que era numerosa.
Um dia fazia anos que Zeca Afonso tinha nascido ou morrido, já não lembro, e no mural houve sermão e missa cantada. Farto da cerimónia, e de tanta vela acesa, referi en passant que o Zeca não era grande amigo de tomar banho e pareceu-me que se tinha ali feito um silêncio gélido. Ao cabo de um tempo outro leitor disse “Ó Joana, não sei porque aturas aqui este fascista, já há muito o topei” – esta frase ou outra parecida. A Joana, coitada, retirou-me a “amizade” feicebuquiana, mas continuei a ser leitor fiel, tanto do blogue como do mural.
Referi-a, várias vezes em vários sítios, como uma minha amiga unilateral, acrescentando que isto queria dizer que gostava dela mas ela não retribuía.
No dia 18 de Janeiro estranhei que no blogue não houvesse nada, e também nada no dia seguinte, e no outro, e no outro, de modo que a 22 fui para o Face queixar-me. Uma amiga comum veio-me dizer, privadamente, que ela estava doente. Nada de grave, porém, dizia um familiar. A mesma amiga escreveu-me ontem a dizer que a Joana Lopes tinha morrido de manhã.
Admito que esteja no Céu, se para lá também puderem ir bloquistas. E acho pouco provável que lá nos encontremos porque eu vou parar, na melhor das hipóteses, ao Purgatório.
Pode ser, porém, que haja visitas entre aqueles dois departamentos. E gosto de pensar que ela apreciaria, finalmente, conhecer pessoalmente o inimigo de estimação.
Eu gostava do encontro – sempre matava saudades.

