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Jingle Bells

por Ana Vidal, em 23.12.18

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Há os fanáticos do Natal, que todos os anos são os primeiros a manifestar-se.

 

Contam os dias para começar enfeitar a casa e logo a meio de Novembro, mal aparecem nas televisões os primeiros vislumbres de publicidade a brinquedos e perfumes, ninguém os detém. Trazem das lojas de chineses toda a parafernália necessária a um Natal colorido e brilhante: pais-natais trepadores de saco às costas, panos vermelhos com uma estampa do Menino para pendurar nas janelas, árvores desmontáveis de escovilhão verde, bolas de todos os tamanhos e cores, purpurinas, sprays de neve, autocolantes para os vidros, frisos, velas, luzes intermitentes, caixas mecânicas que tocam músicas de Natal em non-stop, napperons de papel brilhante, figuras de presépio, barretes com leds e bandoletes com hastes de rena, papéis de embrulho e fitas para os presentes que rodearão a árvore de Natal. Montam o presépio e a árvore com um entusiasmo de crianças, fazem bolos e pratos tradicionais para a noite da Consoada em família. Deixam-se imbuir de uma beatitude que suspende, por umas semanas, a ira e o cansaço dos dias comuns. Deslumbram-se com as ruas enfeitadas, tiram selfies com o Pai Natal de serviço. Disparam alegremente vídeos e postais de Natal em emails e mensagens nas redes sociais. Oferecem-se para acções de voluntariado, são solidários e empáticos como nunca, distribuem sorrisos e estão dispostos a perdoar o mundo. Chegam ao Natal exaustos mas felizes.

 

Há os ansiosos do Natal. Entram em stress logo aos primeiros acordes de um jingle bell, antecipando o caos: as intermináveis filas nas lojas e nos supermercados, o dinheiro extra que vão gastar, o excesso de trânsito, o crash do cartão de crédito, a correria para comprar todos os presentes, a falta de imaginação para dar presentes que não sejam iguais aos do Natal anterior, a casa por enfeitar, a pressão das crianças com listas de desejos impossíveis, a insinuação insistente de Popotas e Leopoldinas, o olhar crítico dos voluntários de associações de solidariedade perante a recusa de uma contribuição. Arrastam-se pelos centros comerciais como quem caminha para a forca. Chegam ao Natal exaustos e em estado de internamento.

 

Há os deprimidos do Natal, que se distinguem dos anteriores por uma crescente aversão a tudo o que nesta época os lembre de quem já morreu ou se afastou, de que envelheceram, de que estão sozinhos ou mal acompanhados, de que cristalizaram numa infelicidade cultivada, alimentada a anti-depressivos. Chegam ao Natal exaustos e profundamente infelizes.

 

Há os snobes do Natal, que fazem questão de afirmar publicamente a sua total indiferença, ou mesmo repulsa, por festas religiosas ou populares. Desprezam tudo o que cheire vagamente a Natal, reviram os olhos e encolhem os ombros de enfado. São impermeáveis ao espírito da quadra, gostam de mostrar-se desalinhados. Concedem, quando muito, numa árvore de Natal monocromática, de designer, de preferência integralmente preta. Chegam ao Natal devidamente enfastiados.

 

E há o Natal.

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