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Já li o livro e vi o filme (98)

por Pedro Correia, em 04.04.16

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A PROMESSA (1957)

Autor: Bernardo Santareno

Realizador: António de Macedo (1972)

Um texto dramático que fez furor na época, como metáfora de opressões várias no Portugal salazarista, manteve o seu impacto neste filme, onde brilha uma deslumbrante Guida Maria.


17 comentários

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De AntónioF a 04.04.2016 às 17:16

Não li o livro nem vi o filme, por isso caro Pedro desculpe este comentário. Mas, sobre este autor, se me permite, do pouco que li, sublinho o que disse: é plena de metáforas, mas sobretudo um retrato da realidade portuguesa da época. Recordo os dois livros que dele li, um texto dramático «O lugre» e uma outra de contos «Nos mares do fim do mundo», ambos baseados sobre o mesmo assunto, a epopeia lusitana da pesca ao bacalhau na segunda metade dos anos '50, onde o autor prestou serviço como médico.

Se me permite:

«’Os Comunistas’
A rede está suspensa no castelo da proa. E muitas das suas malhas mostram-se cheias de certos peixes pequenos, dum encarnado fresco e verdadeiramente agradável: são os «comunistas», no dizer dos homens.
Salpicam ainda o convés, aos centos, de mistura com graciosos blocos de gelo e com as negras ágeis dos pescadores.
Que peixes mais decorativos! São como flores: camélias ou rosas.»

In: SANTARENO, Bernardo. «Nos mares do fim do mundo : (doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses por bancos da Terra Nova e da Gronelândia» .1ª ed]. Lisboa : Ed. Ática, 1959. p. 115
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De Pedro Correia a 04.04.2016 às 17:47

Agradeço-lhe a citação que aqui nos trouxe, António. Também li 'O Lugre', há muitos anos.
Estranhamente, Santareno deixou de ser lido - e sobretudo deixou de ser representado - de há uns tempos a esta parte. Já esteve muito na moda, deixou pelos vistos de estar. Lamento, porque é um dramaturgo que merece ser conhecido. E merece sobretudo ver as suas obras encenadas.
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De AntónioF a 04.04.2016 às 18:23

Eu, caro Pedro, por necessidade fiz uma leitura paralela das duas obras que referi, o que acaba por ser complementar, pois os contos acabam por completar o drama. Em ambas, retratando um meio masculino duro que era a pesca do bacalhau, da escrita deste autor conseguiu retira com extrema delicadeza a sensibilidade e dureza que estes homens encerravam em si.

Tem razão naquilo que diz é pena que assim aconteça, pois provavelmente terá sido o principal dramaturgo português do século XX.

P.S.: Se o Pedro gosta de cães, tem que, forçosamente, ler o pequeno episódio que sobre eles fala «Nos mares do fim do mundo»: real, trágico e profundamente sensível e comovente!
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De Pedro Correia a 04.04.2016 às 18:30

Agradeço-lhe a pista de leitura, António. É uma das vantagens deste intercâmbio permanente no blogue com os leitores: aprendemos sempre alguma coisa uns com os outros.
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De Dúvida a 06.04.2016 às 10:10

O esquecimento a que foi votado o Bernardo Santareno não se deverá a ter sido excomungado pelo PCP?
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De Pedro Correia a 06.04.2016 às 11:30

Foi? Se isso aconteceu, confesso que desconhecia.
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De António Agostinho a 05.04.2016 às 00:42

Li o livro, vi o filme e assisti, penso que em 1972, à rodagem de algumas cenas na minha Terra - a Gala, por essa altura ainda uma aldeia de pescadores. Nessa época, a Gala pouco mais era do que uma rua, que vai da antiga Estrada 109, agora Rua doze Julho, quase até ao Mar, já na Cova, antes das dunas, que a separam do areal da praia.
A Gala está bem situada. Fica do lado sul da foz do Mondego, para quem vem do norte, logo a seguir ao remate da Ponte dos Arcos.
A PROMESSA

Obra original: "A Promessa" de Bernardo Santareno
Adaptação: António de Macedo
Realizador: António de Macedo
Produção: Centro Portugues de Cinema
Produtores associados: António de Macedo, Tobis Portuguesa e Francisco de Castro
Director de produção: Henrique Espírito Santo
Assistentes de produção: João Franco e Monique Rutler
Fotografia: Elso Roque
Director de som: João Diogo
Operador de som: José de Carvalho
Música: popular portuguesa
Registo musical: Michel Giacometti
Sonoplastia: Hugo Ribeiro
Misturas: António de Macedo e Hugo Ribeiro
Montagem: António de Macedo
Assistente de montagem: Clara Diaz-Berrio
Exteriores: Palheiros da Tocha, Tocha, Figueira da Foz, Buarcos, Gala, Cova
Estúdios: Tobis Portuguesa
Elenco: Guida Maria (Maria do Mar), Sinde Filipe (Labareda), João Mota (João), Luís Santos (Pai), Maria (Joaquina), José Rodrigues Carvalho (Mário), Fernando Loureiro (Cigano), Francisco Machado (Padre Couto), Celeste Alves (Intriguista), Luís Barradas (Cigano), Fernanda Coimbra, Grece de Castro, Agostinho Alves, João Lourenço, António Maia
Sinopse
José e Maria, habitantes de uma aldeia de pescadores, fizeram um voto de castidade, num acto de desespero, para tentar salvar o pai de José que pescava num dia de tempestade. Mas Labareda, um cigano acolhido pelo casal após ter chegado à aldeia ferido, irá pôr à prova o seu celibato “forçado” e, consequentemente, a sua fé.
Crítica
Como diria Leitão Barros, a haver uma indústria de cinema em Portugal, António de Macedo seria dos poucos a conseguir fazer carreira, e a prová-lo está este filme A Promessa. A produção, os cenários e os (por vezes exagerados) “artifícios” técnicos colocam-no ao nível da produção média internacional da época, não sendo por isso de estranhar que este tenha sido um dos filmes mais vistos do Cinema Novo. Facto curioso, uma vez que é também o filme (ou o autor) que mais se afasta dessa nova geração, fazendo prevalecer uma visão industrial e um experimentalismo técnico em detrimento das preocupações sociais e de identidade que moviam os restantes autores.
A acção, tal como no Mudar de Vida de Paulo Rocha, desenrola-se numa típica aldeia de pescadores, mas ao contrário do primeiro não tenta fazer o retrato de uma sociedade maioritariamente pobre e sem esperança no futuro, mas explora a questão da influência quase nefasta que a religião exerce sobre um povo ignorante. Todo o filme tem, por isso, uma espécie de aura esotérica que vai de encontro aos interesses do próprio autor, que se diz anarco-místico. Para tal, contribuem o uso da cor, do nevoeiro, de planos em câmara lenta e de uma certa representação mais teatral, ou como diria António de Macedo, mais melodramática, porque o povo português é melodramático. Porém, não se deve aqui confundir teatral com artificial, pois à excepção de um certo exagero na interpretação de um dos ciganos – que torna os diálogos quase imperceptíveis de cada vez que intervém – estamos perante um bom trabalho de actores, infelizmente tão raro nos filmes portugueses deste período. Também merecedora de destaque é a fotografia de Elso Roque que, em consonância com o misticismo de António de Macedo, proporciona momentos de grande interesse, como na poderosa cena da violação ou a pictórica cena final.
A Promessa, talvez por não corresponder aos ideais traçados pelo Cinema Novo (mas não só), não está entre os melhores filmes da época. Mas, uma vez mais, António Macedo demonstra uma grande ousadia, quer ao nível do tema quer ao nível da técnica, sendo por isso um importante contributo para o cinema nacional.
Do ponto de vista da arquitectura, este filme tem quase um valor histórico e etnográfico, pela forma que nos dá a conhecer um tipo de aglomerado já extinto.
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De Pedro Correia a 05.04.2016 às 09:36

Obrigado pela achega que aqui nos trouxe, muito a propósito, caro António Agostinho. Conheço bem a Gala, onde em tempos cheguei a ir de propósito comer a raia de que tanto gosto ao 'Carrocel' (ainda existirá?). A minha mãe era natural da Figueira, terra onde me sinto como se fosse minha também.
'A Promessa' é um dos melhores filmes portugueses da década de 70. Um filme que tem resistido ao teste do tempo. E António de Macedo, felizmente ainda entre nós, é um cineasta de que gosto muito.
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De António Agostinho a 05.04.2016 às 10:48

O RESTAURANTE CARROSSEL ainda existe no mesmo local: Largo dos Pescadores, na Cova, mesmo antes de se começar a ligeira subida que nos conduz ao enorme largo engº. Aguiar de Carvalho, mesmo em frente ao areal da praia e ao imenso mar, local onde tantas estórias felizes vivi e tenho para recordar dos meus tempos de criança... Aquele horizonte, que se perdia lá longe, longínquo, no mar da minha Aldeia, é das memórias que se sempre me prenderam ao meu torrão natal...
Um abraço
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De Pedro Correia a 05.04.2016 às 16:56

Gostei de saber, meu caro. Volta e meia visito o seu blogue, que me ajuda a matar saudades...
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De AntónioF a 05.04.2016 às 18:50

Se me permitem,
apesar de ser do outro lado da ponte:

«COIMBRA C

Peregrinos à distância de um passadiço,
uma praia que se atravessa, das escadas em pedra
à areia ao fundo, pedacinhos de concha
e madeiras, depois o ínfimo promontório
onde chegam as águas, o chão
frio, seguro, edificável. Do relógio
à bandeira amarela-verde
uns poucos minutos de antecipação,
as nossas pequenas tendas listradas à marinheira,
ainda me lembro da consistência do seu tecido
e da sua sombra, uma aldeia quase sem classes.
Coimbra C, um mundo afável como nenhum outro
conheci, a sexualidade de escassas estrangeiras,
uma toalha à parte, nos toldos
as brandas famílias desaprovavam ou divertiam-se,
nada se passava ali, não sei do que falavam, nem
uma única conversa ficou. Era a continuação de um tempo
antigo, sem História, a pacatez
que nos imprepara para a vida,
comunidade de vizinhos, habitués,
famílias sazonais que de um ano para o outro.
A minha infância e primeira
adolescência cresceram ao sol temperado
desses fins de manhã, tardes a meio,
acampamento de conhecidos, gente de vista,
de visita, ninguém sozinho, todos segundo
uma tradição. E o nosso posto estendia-se por afinidade
quando alguém da nossa década ou do nosso
grupo contava uma história,
uma curiosidade, um segredo inócuo
que ainda hoje não sabemos.»

MEXIA, Pedro - Uma vez que tudo se perdeu. 1ª ed. Lisboa : Tinta-da-China, 2015. p. 53
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De Pedro Correia a 06.04.2016 às 11:31

Muito bom. E muito a propósito da Figueira, com o Mondego a uni-las.
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De Octávio dos Santos a 06.04.2016 às 18:01

Orgulho-me de ter em António de Macedo um amigo e um mestre - foi também graças a ele que editei o meu primeiro livro, inserido numa colecção que ele coordenava. Ele é actualmente a figura tutelar da «comunidade portuguesa de FC & F» (autores, divulgadores, leitores), e, mais do que felizmente ainda estar entre nós, continua extremamente activo, com vários projectos que frequentemente não se concretizam mais cedo porque do «lado institucional» (Estado e empresas) raramente vêm respostas adequadas, e isto quando vêm de todo... Tem um novo livro publicado, «A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários», que, Pedro, permito-me recomendar como uma próxima «Sugestão: um livro por dia» aqui no Delito de Opinião. Livro que, obviamente, não obedece ao AO90, que tem em António de Macedo outro dos seus mais aguerridos opositores.
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De Pedro Correia a 07.04.2016 às 00:02

Agradeço-lhe a sugestão, Octávio. E a propósito: António de Macedo bem merece uma homenagem alargada dos seus admiradores, entre os quais também me incluo.
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De Maria Dulce Fernandes a 07.04.2016 às 11:23

Estou em falta neste caso. Não conheço o livro nem vi o filme.
Mas foi fantástica a leitura dos comentários.
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De Pedro Correia a 07.04.2016 às 12:13

É de facto um prazer redobrado quando um singelo texto como este gera comentários com tanta diversidade e qualidade, Dulce.
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De fatima a 09.11.2016 às 08:26

Infelizmente, não vi o filme, quanto ao livro, quem não leu, não sabe o que perdeu!...

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