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Isto era tudo para "branquear"

por João Pedro Pimenta, em 14.05.18

Sem querer passar por áugure, a fraca votação da canção portuguesa do Eurofestival da Canção não era propriamente imprevisível. Quem achou que tinha alguma hipótese de ganhar que se acuse. Porque para isso, em primeiro lugar, seria bom saber cantar. A música nem era má de todo - não era pior do que muitas das que se apresentaram a concurso, incluindo a vencedora, a que Salvador Sobral se referiu sabiamente como sendo "horrível" - mas a interpretação, com miados e sem conseguir chegar ao fim das notas, era sofrível.

 

sobral.jpg

 

Mas escapam-me os critérios para apurar os vencedores: em primeiro lugar ficou uma canção pop cantada em inglês, de uma israelita gordinha vestida de gueixa (deve ser por isso que estavam sempre a falar de "diversidade"), que parece que versava sobre a igualdade das mulheres, e os direitos sociais, e em segundo uma cantiga fogosa (tanto que o título era Fuego), de uma cipriota com silhueta agradável e uma coreografia a tentar passar por uma Shakira do Levante, talvez por ser proveniente da "Ilha de Afrodite". Fosse eu a decidir e ficavam mais cá para o fim, ao contrário das músicas candidatas de Itália, Áustria ou Letónia, mas como sou um leigo na matéria tenho de me render às evidências. Não há como uma vitória portuguesa para nos dar algum interesse pelo evento.

 

Entretanto, e como o Luís já recordou, alguns "activistas", entre os quais o sempre pronto Bloco de Esquerda, encetaram uma campanha de boicote à música de Israel, porque esta, apesar de apelar a valores que à partida seriam caros aos bloquistas, era "uma forma de branquear a opressão do povo palestiniano  e a acção terrorista de Israel a nível internacional". Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelitas), cuja missão parece que é "manter a Faixa de Gaza sob um bloqueio cerrado, manter o porto de Gaza bem fechado, manter a economia de Gaza totalmente paralisada e a população à beira do desastre humanitário total". Pior: a cantora entretinha os marinheiros com as suas músicas (o que já de si é um indício à notória cultura patriarcal e machista), em especial de um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza, o que a torna cúmplice, por conhecimento prévio, desses crimes futuros.

 

A música, como se sabe, ganhou com os votos do público, indiferente à vileza da cantora, ao branqueamento dos crimes de Israel e aos sábios avisos dos pupilos de Catarina Martins (perdão, pupilxs, que como se sabe ali não há diferenças de género). Felizmente que se tratava do Bloco, feroz adversário de todos os preconceitos e fobias, senão poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo. Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita.

 

O problema é que a vitória de Israel no eurofestival dá-se numa altura em que o país atacou posições iranianas em plena Síria e nas vésperas de completar setenta anos. Teme-se que o entusiasmo e os festejos provoquem mais fogo de artifício que transborde de novo para lá da fronteira com a Síria. E Benjamin Netanyahu, como já se percebeu, é um grande apreciador deste tipo de fogo de artifício.

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22 comentários

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De Luís Lavoura a 14.05.2018 às 10:12

uma cipriota a tentar passar por uma Shakira do Levante

A própria Shakira é de certa forma levantina, o pai é libanês. E as influências do dançar dela são árabes.
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 18:36

Na volta, e com a curta distância entre Chipre e o Líbano, ainda são parentes.
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De Luís Lavoura a 14.05.2018 às 10:13

um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza

Um "barco" da Marinha é um "navio".
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De Luís Lavoura a 14.05.2018 às 10:15

poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo

Dizer mal da política de Israel em relação aos palestinianos não é antissemitismo. Aliás, muitos judeus dizem mal dessa política, e dificilmente poderão ser classificados de "antissemitas". (Acho que nos EUA são apodados self-hating Jews.)
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 18:38

Não é a política israelita: é o boicote a uma canção da eurovisão, as acusações absurdas à cantora e as acusações do "branqueamento" da música. Por outras palavras, para o Bloco um israelita não tem o direito de dar opiniões públicas.
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De Anónimo a 14.05.2018 às 23:14

"Vemo-nos em Jerusalém", uma cidade multicultural e multi-religiosa ocupada pelo estado fascista de Israel, é uma opinião que a vencedora da Eurovisão tem o direito a dar. Assim como o Bloco (ou qualquer pessoa que se oponha a crimes de guerra) tem o direito a achar essa opinião demasiado estúpida.
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 23:24

Fazer um festival da canção em Jerusalém é um crime de guerra? É certo que algumas músicas apresentadas deviam dar cadeia, mas daí até levar a julgamentos no Tribunal da Haia é capaz de ser um exagero.
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De Anónimo a 15.05.2018 às 14:39

O crime de guerra não está em fazer o festival da canção em Jerusalém (o qual devia ser feito em Tel Aviv, a verdadeira capital de Israel) mas sim no que Israel faz ao povo palestiniano todos os dias. Acresce ainda o facto de Jerusalém ser uma cidade ocupada pelo estado de Israel, do mesmo modo que a Crimeia foi ocupada pela Rússia.
Netta não cometeu nenhum crime (cantar mal não é crime), o estado de Israel comete crimes todos os dias.
Não há xenofobia contra os cidadãos israelitas, assim como não havia xenofobia contra os cidadãos sul-africanos no tempo do Apartheid (alvo de todo o tipo de boicotes) ou contra os músicos portugueses que, apesar de cantarem bem melhor que Netta, nunca tiveram grandes resultados na Eurovisão durante o Estado Novo por causa da política colonialista do Estado Novo.
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De João Pedro Pimenta a 16.05.2018 às 01:52

Quando apelam ao boicote da cantora israelita por causa dos actos do país de onde ela provém, acrescentando ainda delírios dela ser cúmplice porque o navio onde serviu disparou mais tarde sobre Gaza, então aí sim, há xenofobia. Se acha que a culpa não é dela, então certamente não se revê no apelo ao boicote. E casos pelo Mundo não faltam: Marrocos não trata bem os sarauis, a China dissolve cada vez mais a cultura tibetana, noutros pontos da Ásia e África há perseguições étnicas e religiosas, e por aí fora.
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De Meister Von Kälhau a 14.05.2018 às 11:11

"Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelita)"

João permitindo-me fazer a vez do sô tôr Lavoura, de onde lhe vem tamanha inferência?

Quiçá uma jocosidade, de vossa excelência, relativa ao excesso de Tara?
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 18:41

Tem toda a razão. Esqueci-me de acrescentar um link ao texto. Olhe, já lá está.
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De Meister Von Kälhau a 14.05.2018 às 12:41

"É um circo. Uma vez foi uma mulher de barba, agora uma galinha”.

Waylon, cantor que representou a Holanda na edição deste ano.
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De Anónimo a 14.05.2018 às 23:15

Pode ser que para o ano ganhe um porco misógino.
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De J. L. a 14.05.2018 às 13:02

Tem bastante razão.
Mas diga-me uma coisa: acha boa a canção da israelita ou o que diz é motivado principalmente porque não grama o Bloco de Esquerda?
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 18:44

Aquela canção não é boa em parte alguma do planeta terra, e se votasse não votaria nela, como está perceptível no texto. Mas a tentativa de boicote, ao qual o Bloco se juntou, a uma simples canção, é não só parvo como profundamente castrador. Se uma mulher nem sequer pode exprimir numa canção uma opinião social (que o próprio Bloco até subscreveria) em função da sua nacionalidade, então trata-se de xenofobia pura e simples.
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De kika a 14.05.2018 às 14:01

Quando o Salvador Sobral ganhou será que os jornais
estrangeiros se referiram à vigarice , trafulhice e corrupção
generalizada que por aqui se passa ?
Não me parece ou então estive muito distraída .
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De kika a 14.05.2018 às 14:19

O nosso país também não tem nada a dizer da forma
como tratou os judeus na segunda Guerra Mundial.
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 18:45

Alguns ficaram bem agradecidos.
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De Anónimo a 14.05.2018 às 23:15

Graças a Aristides de Sousa Mendes que acabou por ser saneado por Salazar.
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De João Pedro Pimenta a 14.05.2018 às 23:25

E outros. Ou acha que por aí se ficaram?
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De lucklucky a 14.05.2018 às 16:52

"Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita."

Sempre o foram. Para começar o próprio Karl Marx que escreveu "A Questão Judia" e vários textos anti-semitas.
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De Anónimo a 14.05.2018 às 23:16

Anti-semita parece ser você. Só falta falar em Soros.

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