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Isto é arte, pá, pornografia é outra coisa!

por Patrícia Reis, em 27.09.18

Bem vindo ao império do politicamente correcto. Uma higiene moral imposta por quem considera que o público em geral é apenas uma criança a precisar de orientação. O retrocesso civilizacional a que assistimos é tremendo. Não respeitamos a liberdade do Outro, impomos regras, moral e puritanismo. Em nome de quê? De uma teórica civilização.

Vamos censurar uma exposição de um artista cuja obra é abundantemente conhecida? Obra cujo teor polémico tem sido amiúde debatido pelo mundo? Vamos limitar a entrada, porque - Deus proíba - há quem vá ver uma exposição com crianças de seis anos a Serralves sem se informar sobre o que está exposto? Talvez existam famílias assim, claro. Num mundo de tecnologia em permanente vertigem de informação, sendo o sexo acessível com enorme facilidade (olá sites pornográficos gratuitos), como é que nos atrevemos a fiscalizar a arte? O que é a arte senão o derrubar da norma para ver o avesso das coisas? E se arte explora o sexo desde sempre - historicamente é fácil de comprovar - por que carga de água é que agora nos dá para oferecer vendas para os olhos e estipular que o visitante de um museu tem de ser “moralmente” guiado?  

A história da suposta censura em Serralves à exposição do artista norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) é uma trapalhada de todo o tamanho. Certamente que existem bastidores negros, pormenores que nunca chegarão ao grande público. O dito e o não dito: a entrevista da antiga ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, ao Expresso; as declarações do director artístico e curador demissionário, João Ribas, ao Público. Acresce: pequena manif para destituir a administração composta por Ana Pinho (Presidente), Manuel Cavaleiro Brandão (Vice- Presidente), Manuel Ferreira da Silva (Vice-Presidente); Isabel Pires de Lima (Vice-Presidente); Vera Pires Coelho; Carlos Moreira da Silva; António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A administração que começou por reagir laconicamente, a seguir corrige o tiro (ontem em conferência de imprensa, a mesma administração declara que nunca houve censura em Serralves e que as decisões foram todas da responsabilidade do curador). O curador e director artístico demissionário (então, o homem demite-se mas vai ao vernissage?!) apresenta a sua demissão por email. Porquê? Os membros do Conselho de Administração dizem que não sabem.

Também achei graça ao director do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, António Filipe Pimentel, que comentando a polémica achou por bem dizer-nos que a Fundação Serralves tem mais apoio do Estado que a maioria dos museus (“Só em Serralves [o ministério da Cultura] investe mais que em todos os museus públicos nacionais”), ou seja, 40% do financiamento da Fundação Serralves é proveniente do orçamento do Ministério da Cultura. Para quem não se recorde, o orçamento para a Cultura não chega sequer a um por cento do Orçamento de Estado. Sobre este facto – não tenho porque não acreditar nas declarações de António Pimentel – não me recordo de ler mais uma linha sequer. Mas não ficamos por aqui.

Lúcido, o director do Museu Nacional de Arte Antiga explicou que em Serralves, na exposição da Colecção Sonnabend, esteve exposta uma fotografia da artista porno Cicciolina. Não se tratava, como é bom de ver, de pornografia, era arte.

Conclusão? Uma telenovela para apimentar a nossa existência, é certo. No fim, o artista – exposto em Portugal várias vezes em anos anteriores, mesmo que não numa retrospectiva de obra – ganhou: as visitas a Serralves foram muitas, mais de seis mil pessoas em quatro dias. Vamos lá ver o que é isso de sexualmente explícito e chocante? Vamos, mas olhem que é arte, só isso, arte. O resto é politiquice e intriga.


8 comentários

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De Luís Lavoura a 27.09.2018 às 16:58

Eu até talvez fosse ver a exposição antes desta polémica toda. Mas, depois da polémica, não somente não irei ver a exposição como provavelmente não voltarei a pôr os pés em Serralves.
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De Serra Alves a 27.09.2018 às 22:33

"não voltarei a pôr os pés em Serralves."
Que desgosto!
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De singularis alentejanus a 27.09.2018 às 17:53

É bom que estas trapalhadas apareçam de vez em quando, é que através delas sabe-se de outras coisas que não são do domínio público, e estão como que escondidas. Fiquei a saber que 40 % do orçamento do Ministério da Cultura vai parar a Serralves. Pensava eu que o Norte era desfavorecido em relação ao Sul, mas pelos vistos é o contrário……...
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De António a 27.09.2018 às 18:57

Patrícia Reis parece acreditar que a arte, só por ser arte, é para todos. Certas fotos do artista em questão podem ser difíceis de explicar a uma turma de 4º ano de escolaridade em visita. Eu considero tão irresponsável mostrá-las indiscriminadamente como dar a uma criança um Van Gogh e uma caixa de canetas de acetato - há coisas que não são para certas idades.
É claro que podemos justificar (chamemos-lhe assim) com o facto de que a net está cheia de pornografia, e os miúdos acedem - mas isso também está errado, não está? Vamos justificar uma asneira com outra?
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De Anónimo a 27.09.2018 às 19:06

Exmª Senhora por algumas fotos publicadas aquilo é nojento, provocatório e nada de arte. Só de mentes doentias.É Arte um tipo enfiar no Rabo um rabanete como o do Cavalo?
Quanto à Cicciolina só vê mamas e isso vê-se a qq hora as nossas locutoras nas TVs e a escritora Inês Pedrosa.
Depois dizem que há assédio! Pudera com esta oferta!
Cumprimentos
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De lucklucky a 28.09.2018 às 14:40

Não é arte. É só choque. Há mais arte no Pornhub...
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De Maria a 11.10.2018 às 12:49

Olá Patrícia, escrevo-lhe aqui porque foi onde consegui pois não tenho conta no facebook. Tenho por hábito ler as suas crónicas no sapo que são para mim uma lufada de lucidez. Às vezes posso nem concordar, como é o caso deste artigo em que comento, mas identifico-me com os seus textos e fico com algum alento extra para encarar os meus dias. A maioria das pessoas que comenta os artigos de opinião geralmente fá-lo em tom raivoso e presumo que os jornalistas já nem se dêem ao trabalho de ler os comentários. Mas hoje ao ver mais uma horda de comentários ordinários a um artigo de um colega seu, achei que pelo menos, aqui e ali, alguém vos devia dizer que o vosso trabalho é muito importante e que faz a diferença para muita gente deste lado. Como gosto muito do que escreve achei que não era assim tão difícil vir aqui deixar-lhe um muito obrigado.
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De Patrícia Reis a 17.10.2018 às 00:26

Eu é que agradeço, Maria. Na verdade, como diz, não leio os comentários, não sou imune a tudo e quem não se sente não é filho de boa gente, lá diz o povo. É difícil ter uma coluna de opinião, com nome e fotografia; é fácil criticar e destilar fel de forma anónima ou quase anónima, infelizmente as redes sociais permitem que assim seja, pois temos de viver com as regras do jogo. Não pretendo ser consensual e tão pouco me preocupa esse factor, contudo há comentários que dispensava. O seu, pelo contrário, agradeço.

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