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Inversão de valores

por Pedro Correia, em 22.01.19

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Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores "conteúdos patrocinados" - ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo - podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes 'pet-friendly' [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas - primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais - são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o "sossego" alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são 'children-friendly', para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.


2 comentários

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De Costa a 22.01.2019 às 16:44

Há de facto uma inversão de valores. Começa logo nessa tristíssima hipocrisia dos "conteúdos patrocinados". Como se a publicidade - essa actividade legal, regulada, parte lícita da economia e que até pôs, suponho que põe, o pão na mesa a alguns tão, e tão bem, admirados artistas e pensadores (alguns ideologicamente incompatíveis com ela) - fosse um deplorável vício. Vício sem o qual se não consegue viver, mas que jamais se confessa e até num plano ideal se ab-roga. E com isso não é o vício que sofre, é o viciado que mais se afunda.

Quanto ao resto, os tempos que aí vêm - o dia e noite passados, e a manhã de hoje, são disso claro exemplo - não serão melhores do que os que deixámos. Ser reaccionário, e não conservador, é por isso, e com muita pena minha, um mero dever de civilidade. É uma lástima, mas é - vai sendo - verdade.

Direitos sem os deveres correspondentes, na verdade, já os humanos crescentemente os reclamam (os direitos) e sem o menor pudor recusam (os deveres). E de forma clara parece ser esse o politicamente correcto. Cuidemos então e quanto possível - pois é nossa responsabilidade enquanto seres superiores - do bem-estar dos animais que decidimos chamar de irracionais.

Tenha eu escolha quanto aos locais que frequento: seja eu livre de não tomar uma refeição ao lado de um adorável cãozinho que, todavia, há muito deveria ter tomado um banho. E possa eu passar um (ansiado, merecido, necessário e pago com o meu trabalho) fim de semana de paz, sem criancinhas, pequenos tiranos sobre quem qualquer esforço de disciplina é crime (e educar é tudo permitir), a correr e guinchar interminável e impunemente entre mesas ou o que seja.

Quanto ao inocente choro de bebés, são isso mesmo: bebés. Quem os gerou deveria perceber a responsabilidade de tal acto. Deveria merecer os filhos. Há idades e momentos que se deveriam passar em casa, em paz, e não onde manifestamente e para próprio bem se não deveria - salvo caso de força maior - estar.

Mas que quem aceite isso, ou até o procure, o possa fazer. Sem ponta de ironia ou cinismo, há espaço para uns e outros. Há coisas muito, muito piores, a desenhar-se no horizonte. Mas consta, dizem os correctos pensadores, que afinal são as certas.

Costa
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De Pedro Correia a 22.01.2019 às 19:50

Existe algo que muita gente persiste em ignorar: não há direitos sem deveres. São duas faces da mesma moeda.

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