Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Inversão de valores

por Pedro Correia, em 22.01.19

thumbnail_20190105_094847-1[1].jpg

thumbnail_20190105_094931[2].jpg

 

Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores "conteúdos patrocinados" - ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo - podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes 'pet-friendly' [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas - primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais - são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o "sossego" alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são 'children-friendly', para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.


44 comentários

Sem imagem de perfil

De marina a 22.01.2019 às 20:28

Bom, educam mais os cães que as crianças.. ensinam um cão a comportar-se em sociedade (sentadinho, coleira, caladinho e tal) , enquanto deixam as crianças, hoje em dia, à solta completamente selvagens, como se os outros as tivéssemos de aturar. Aqui está a primeira inversão de valores : educam os bichos, mas não as crianças, coitadinhas , podem ficar traumatizadas....
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.01.2019 às 22:00

Diz bem, Marina. É isso também. A tal inversão de valores começa logo aí.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 24.01.2019 às 00:33

Ora muito bem.

Mas se o resultado pode ser inversão de valores a pergunta que deve fazer é porquê?

E a razão é porque as pessoas precisam de encontrar algo supostamente moderno -desde que seja diferente do que existe- para mostrar virtude aos outros e assim se afirmarem social e como consequência politicamente na sua geração.

Ainda me lembro nos anos 80 quando no Ensino Secundário o 7º-9ºano deixou de ter notas de 0-20 para passar a 0-5 porque tanta diferença poderia traumatizar os adolescentes...

Sem imagem de perfil

De António a 22.01.2019 às 20:42

Há cada vez mais gente que confunde o que vem nos jornais com notícias.
Sem imagem de perfil

De Cristina M. a 22.01.2019 às 21:32

Aplausos, Pedro Correia!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.01.2019 às 22:01

Obrigado, Cristina.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 22.01.2019 às 22:23

Grande post Pedro. Na realidade anda tudo muito às avessas.
Como a grande maioria das pessoas que paga certificados esan... enfim...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.01.2019 às 22:53

Estas coisas ainda me fazem muita confusão, Dulce. Continuo mal adaptado a este admirável mundo novo, em que os deputados legislam sobre a admissão de cães e gatos em restaurantes enquanto recusam criminalizar o abandono de velhos e o Governo ignora por completo o estatuto de cuidador informal - de seres humanos, não de bichos.

https://www.sabado.pt/portugal/politica/detalhe/criminalizacao-do-abandono-de-idosos-rejeitada-no-parlamento

https://www.publico.pt/2018/12/14/sociedade/noticia/lei-bases-governo-deixa-cair-estatuto-cuidador-informal-1854704
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.01.2019 às 09:24

De acordo, ao menos nisto.
Sem imagem de perfil

De Costa a 23.01.2019 às 12:56

Afasto-me do tema, mas a referência que faz ao estatuto do cuidador informal (consagrada mas estranha denominação, pois que formal e materialmente ele, o cuidador, cuida) leva-me a invocar a caixa de Pandora que o poder abriria se o reconhecesse. É que estaria, pelo menos, a reconhecer a sua - do poder - reiterada e longeva incapacidade para com suficiência e dignidade (na verdade para de todo) apoiar de forma organizada, extensiva, o cidadão idoso ou afligido por doença ou condição incapacitante. E isso num país onde o saque fiscal é o conhecido e a administração pública tem uma dimensão longe de residual.

Seria uma confissão que se não tem a coragem - ou a honestidade - de fazer.

A desonestidade oficial tem destas coisas: reduzir a uma informalidade (e percebe-se: se não é prestado pelo estado, o que quer que seja é coisa informal, mesmo que essencial e mesmo que o estado o não preste), algo cuja ausência provocaria uma verdadeira catástrofe social. Reduzir à informalidade e, como tal, ignorar.

Um problema e uma despesa a menos.

Costa
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.02.2019 às 01:03

Abordarei em breve esse tema.
Sem imagem de perfil

De sampy a 22.01.2019 às 22:24

A cada dia que passa mais me convenço do quão profético é "The children of men" de P. D. James.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.01.2019 às 22:47

Neste caso não li o livro: só vi o filme. A acção futura decorre em 2021. Faltam agora só dois anos.
Estamos muito menos longe desse cenário do que à época se imaginou.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.01.2019 às 23:10

Cada um é como é.
Enquanto a minha filha era pequena (1, 2 anos), não frequentei restaurantes porque na minha ideia, o seu comportamento (natural) iria perturbar as outras pessoas. Por outro lado, já tive petizes a correr pelo meio das cadeira de um restaurante, a bater nas pessoas, e quando as mães foram chamadas à atenção pelo empregado, saíram indignadas do mesmo porque o cliente que protestou (eu) fora rude. Mas são pensamentos individuais.
Do mesmo modo, só frequento locais onde me sinta bem. Tal como não vou ao cinema porque não suporto música mandibular e sorver ao desafio, deixo de ir a qualquer estabelecimento que aceite animais de estimação.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.01.2019 às 09:23

Já não deve ir ao cinema há anos.
Eu vou muito ao cinema e além de não deparar com "música mandibular", quase não vejo espectadores.
Um dia destes começam a cobrar bilhete a bobis e tarecos: pode ser que atraiam mais bichos. Quero dizer, mais gente.
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 23.01.2019 às 09:02

Tenha calma Pedro. Existem muitos mais que fazem o contrário. Tem de "adoptar" um gatinho, fazia-lhe bem
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.01.2019 às 09:21

Sempre tive e tenho animais. Mas sou pré-moderno: ainda não levo nenhum deles para restaurantes.

Comentar post


Pág. 2/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D