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Delito de Opinião

Insuflado de indignação

Pedro Correia, 27.06.19

Ouvi ontem as críticas ao Governo feitas por Pacheco Pereira naquela amena tertúlia política de nome impronunciável que passa na TVI 24, enquanto aguardava pelo programa sobre putativas transferências de jogadores de futebol, no mesmo canal. Tendo sintonizado aquilo a meio da emissão, estranhei o desassombrado diagnóstico do mais ilustre habitante da Marmeleira ao dissecar estes quase quatro anos de governação marcados por duras cativações impostas aos portugueses pelo presidente do Eurogrupo e pela mais pesada carga fiscal de que há memória neste flanco ocidental da Europa.

O Governo, anotou Pacheco insuflado de indignação, «fechou diversos serviços públicos, ajudou a desertificar o interior, fechou tribunais, fechou centros de saúde, fechou acessibilidades». Pior: «Aumentou brutalmente os impostos, portanto empobreceu muito significativamente a classe média e quebrou o chamado elevador social.»

De súbito, senti-me regressado a 2015: era afinal uma anacrónica vergastada não ao Executivo em funções, mas ao que o precedeu. Tudo normal, portanto. Com Pacheco, podem António Costa e Mário Centeno dormir um sono sorridente e descansado: o ex-marxista-leninista e ex-liberal continuará na primeira linha do combate - não a este Governo, mas ao anterior. Enclausurado na cápsula do tempo, redobra de vigor nas críticas à medida que a distância cronológica aumenta. Implacável como nunca, contundente como sempre.