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Instantes em sépia com capa de muitas cores (26)

por Maria Dulce Fernandes, em 19.07.19
O Borrão
 

depositphotos_60522391-stock-illustration-black-in

 

Divago no vácuo do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.
 
Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.
 
Também quem me manda aceitar pintar ideias dentro de um prazo?
 
Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram?
 
Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...
 
Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.
 
Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.
 
Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.
 
Ping!
 
Então? Então? 
 
Ainda entorpecida pela inacção, noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.
 
Olho, procuro, vasculho... nada!
 
Atento na coluna da direita do blog, onde estão os versados nas letras e noto uma ténue sombra. Pode ser apenas ideia minha, mas o marafado do pingo fugiu por um link. Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!
 
Encontrei-o anichado entre os autores, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.
 
Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.
 
Grande ideia esta!
Até já lhe sinto as cores! 
Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original!

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4 comentários

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De Vorph Valknut a 19.07.2019 às 08:29

"O vazio ocupa um espaço enorme"
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De Maria Dulce Fernandes a 22.07.2019 às 18:20

E se não se tem atenção fica imparável.
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De Anónimo a 21.07.2019 às 21:22

Como é que um borrão pode falar tanto com um ser humano ?!...
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De Maria Dulce Fernandes a 22.07.2019 às 18:21

É tal e qual como as nódoas falam com o OMO...
Este humano também tem muito de Dolittle...

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