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Delito de Opinião

Instantes em sépia com capa de muitas cores (6)

Maria Dulce Fernandes, 25.05.19

Carrossel 

 

A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação. 

A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas.  

É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz, em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel. 

 
 A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares, a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência. 

 
 A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo, mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado. 

A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis, que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular. 

 
 A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras. 

 
 Dias há em que os auto-reis se creem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem, apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas vidas arrogantes.