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Instantes em sépia, com capa de muitas cores (4)

por Maria Dulce Fernandes, em 14.05.19

Hoje a Lídia veio tomar café comigo. É uma espécie em extinção, esta das colegas da escola primária, especialmente quando somos pessoas algo antigas, não declaradamente clássicos artefactos de museu claro está, mas peças daquelas que ainda se conseguem encontrar se se procurar bem, em alguma loja de antiguidades na Rua de S. Bento. 

Falámos de coisas que tinham tanto pó e teias de aranha, que foi uma risota conseguir restaurar-lhes algum do antigo brilho.  

Falámos como crianças, de como crianças de 8 anos se divertiam com...nada! É uma verdade paradigmaticamente prodigiosa! 

 Veio logo à ideia a natação, as peripécias, os mergulhos, o espalhafato… A natação que, como diz a letra da música, era obrigatória na instrução primária nos externatos particulares. Uma piscina na altura era o expoente máximo da riqueza e do estatuto social de alguém.  

Os afortunados de Belém/Restelo que podiam pagar, tinham acesso a um lago, tina, qualquer coisa com água e peixes, que devido à sua densidade e cor, era carinhosamente apelidado de "Caldo Verde" e fazia parte dos lagos exóticos do antigo Jardim do Ultramar. 

 Foi lá que aprendi a nadar; primeiro a bater pés agarrada a um varão, depois com uma tábua, com um cinto...  

O professor de natação era um rapagão bem constituído que fazia as delícias das sopeiras e das amas e que dava pela alcunha de "Cochicho". Tinha um ponteiro de bambu comprido com que nos batia nos braços, nas pernas e na cabeça, quando não conseguíamos sincronizar os movimentos com as respirações. 

 Pelos padrões de hoje o Cochicho seria um espectáculo de homem bem trabalhado. Pessoalmente, sempre o achei feínho, como qualquer menina até aos 10 anos, para quem os padrões de beleza masculina eram os ternurentos e bochechudos querubins de olhos azuis e cabelos louros que revestiam as pinturas religiosas espalhadas por todos os recantos de todas as igrejas modernas daquela altura. 

 Acontece que no antigamente a educação Moral e Religiosa fazia também parte do programa lectivo e todas as alunas da minha classe aos Domingos de manhã, em jejum e de cabeça coberta, frequentavam as aulas de catequese que culminavam com a confissão a um padre, que antecedia sempre a missa e a comunhão. 

 Num desses dias depois da aula de catequese, dirigi-me ao  genuflexório bafiento e gasto que tinha ficado livre, e depois do "Padre , perdoe-me porque pequei", lá comecei a contar a minha semana ao indivíduo na sombra para lá das ripas de madeira. Acabada a confissão, soa uma voz aterradora, profunda e trovejante que me diz, " E o Cochicho, menina, o que é que tem a dizer sobre o Cochicho ?" Morri. 

 O drama, o horror, a vergonha, o medo... não sei explicar. Só podia ser Deus, porque nunca vira um padre na natação !!! ... e eu que até nem achava grande piada ao Cochicho ! 

 Aterrorizada, desatei num pranto, e foi necessária a intervenção da catequista para me tirar dali, levar para casa e entregar-me aos meus pais, informando-os da penitência em Padres Nossos, Ave Marias e Salve Rainhas, e que falassem comigo sobre os pecados mortais.  

 Assim que terminei os catecismos e as comunhões obrigatórias para completar a escolaridade imposta pelo regime, excepto em ocasiões de casamentos e baptizados, não voltei à igreja. Terminei com o jugo do medo, mas as cicatrizes morais, essas acho que nunca desapareceram. 

 A colega foi embora em abraços de saudade e eu quedei-me em pensamentos, a cogitar no Cochicho de quem nunca soube o verdadeiro nome, e na voz que tanto me atemorizou e que agora quem sabe não a reconhecerei como o tal de subconsciente, que também nunca conheci pessoalmente, mas que sei que tem tido muito que se me diga. 

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10 comentários

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De Corvo a 14.05.2019 às 20:01

Crianças de oito anos que se divertem com nada.
Divertiam sim e enchiam os seus mundos com nada, Hoje tudo mudou e criança sem alta tecnologia ao dispor sente-se vazia e uma deserdada da vida.
Também tive os meus brinquedos, esses que na altura pais realizados permitiam aos filhos, mas nunca a nenhum me afeiçoei.
O meu brinquedo, esse que verdadeiramente me preencheu a existência de criança, era um arco de ferro, que se adquiria indo-o sacar dum barril de vinho que chagava ali vindo de Portugal, e um arame em forma de u que terminava numa gancheta. Tudo fabricação do interessado utilizador, e depois correr, correr em acesas corridas com outros privilegiados para quem o arco era tudo.
Doutrina e moral também fazia parte da minha escola, e de todas, obviamente.
E a confissão também. Primeiro era sincero e confessava tudo. As vezes que desobedecera à minha mãe, que fora eu sim quem metera a mosca sem asas no tinteiro da Rosinha, que roubara o lápis da Rosinha para depois ela me pedir para lhe fazer os trabalhos de casa, e por aí adiante.
Mas depois mudei e só contava o que me interessava. Perante o espanto do padre, eu não tinha pecados nenhuns.
Tornei-me pecador mas livrei-me das dúzias de pai-nossos, ave-marias, credos e tudo quanto fosse oração com que o abençoado zelador do céu visse como penitência para a conduta perniciosa de uma criança de oito, nove anos de idade.
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De Maria Dulce Fernandes a 14.05.2019 às 21:13

Um dia destes escrevo aqui sobre o Zezere.
Acredito piamente que a minha infância foi muito mais saudável e feliz do que a das crianças de hoje , limitadas por tanta liberdade.
Eu era muito temerosa da ira de Deus. Apavorava-me a ideia de ser "apanhada" a mentir. A vergonha seria terrível demais. E o castigo divino então...
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De Corvo a 14.05.2019 às 23:07

Fale, Maria Dulce. Fale sobre o rio Zêzere que eu aproveito para dar continuidade ao meu comentário no postal do Pedro Correia e falar-lhe sobre o rio Loge.
Resto de uma excelente noite.
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De Maria Dulce Fernandes a 15.05.2019 às 00:56

Sabe Corvo, o meu Zezere não é o Zêzere, é algo simples e lúdico com que eu brincava nas margens do Dinha.
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De Bea a 15.05.2019 às 00:15

Um bom texto e muito sui generis, a maioria das crianças portuguesas não tinha natação. Portanto, olhe, um Cochicho tinha-me dado muito jeito, escusava de andar agora, e mais por toda a minha vida, a fazer figuras tristes na praia. Porque isto já se sabe, burro velho não aprende natação, esbraceja. A falta que me fazia um ponteiro a marcar a diacronia. Mas parece-me que tem razão, era Deus em pessoa a confessá-la. Pode estar certa, pela voz profunda vê-se logo.
Os encontros de colegas de escola são, no seu caso, muito interessantes.
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De Maria Dulce Fernandes a 15.05.2019 às 10:55

Durante os meus 13 anos de estudante, tive o privilégio de conhecer muitas pessoas, professores, colegas, funcionários dos estabelimentos de ensino, proprietário de estabelecimentos comerciais nas redondezas... De tantas perdi o contacto. É normal. Felizmente convivo ainda com muitas outras, quanto mais não seja através de um postal nas ocasiões festivas. A minha vida foi tudo menos monótona. As memórias são os fios dourados que unem o patchwork que sou eu: o conjunto das minhas decisões e experiências. É sempre gratificante ter com quem recordar , Bea.
No externato que frequentei, a natação era obrigatória, assim como a Religião e Moral, a Confissão, a Missa de Domingo, saber ver as horas para transitar da 2a classe, etc.
O ponteiro do Cochicho magoava mesmo. Como tantas coisas naquela época, a aprendizagem era imposta mais pelo medo, do que pelo prazer de aprender.
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De Bea a 16.05.2019 às 03:01

O meu externato não incluíu a primária e era sem ponteiros ou medos; só a Religião e moral era obrigatória (julgo que não apenas nele, mas em todo o lugar de educação ou quase). Ah, e o Bom dia; mas não havia quem não gostasse do bom dia, por minha parte sentia-me sempre bem recebida, acarinhada mesmo e não tenho memória de alguém que desdenhasse da directora. E não me lembro de aprender alguma coisa por medo. Lembro-me de um único professor que me aterrorizava e não aprendi nada com ele, o medo paralisava-me as meninges:). A ver horas aprendia-se em casa e na ânsia de ganhar um relógio na quarta classe.
Aguardo outras memórias suas para contraposição. Há tanta vida que foi nossa e em que a gente não pensa...ao menos gostará de nadar?
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De Maria Dulce Fernandes a 16.05.2019 às 11:21

"Lembro-me de um único professor que me aterrorizava e não aprendi nada com ele"
Quere-me parecer que falamos de memória com alguns ( bons) anos de intervalo. Professores homens ensivam rapazes. Não havia turmas mistas. Talvez 6 a 10 anos mais tarde. O meu irmão teva turmas mistas e senhoras a ensinar. Eu só tive professores homens no liceu após o 25 de Abri.
Bom dia, boa tarde ou boa noite não era obrigatório. Era natural. Fazia e ainda faz parte da educação familiar. Como a higiene intíma. Aprendemos, incorporamos e não esquecemos. Falhou-me a referência a Lavoures. Desde a primeira classe! Às 4as feiras à tarde , quando chegava a Primavera e o tempo não era isto, lá íamos nós com as nossas prendas merendar e cantar para o Jardim Botânico da Ajuda.
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De Bea a 23.05.2019 às 23:20

Desculpe só agora reparei no seu comentário. Sim, as minhas memórias têm, digamos, uns cinquenta anos ou mais. Mas aprendendo, numa escola só feminina, tive religiosas, professores e professoras. E lavores, pois claro, onde era a maior nulidade que se possa imaginar. E canto coral, por várias razões uma disciplina favorita. Que me lembre, não saíamos da escola para coisa alguma além do desfile de ginástica ( raparigas e rapazes) e da viagem anual com toda a gente, professores, contínuos e alunos.
Boa noite:)
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De Maria Dulce Fernandes a 24.05.2019 às 14:10


As minhas professoras primárias, duas , eram formidáveis a ensinar tudo excepto ginástica. Talvez por isso mesmo nuna fui uma piquena levezinha, apesar de esguia.
A viagem , foi apenas na 4a classe, um dia inteiro em Conímbriga.
Outros temposm em que Ibiza era uma ilhota fora do mapa.

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