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Instantes em sépia, com capa de muitas cores (3)

por Maria Dulce Fernandes, em 10.05.19

Finalmente! Diazinho complicado, este! Mais duas ou três tarefas rotineiras, começar a preparar o fecho e pronto! Acaba por hoje. Amanhã é outro dia.
Outra vez a porta! Um dia destes esgano o raio das campainhas. - Sim? Diz lá. - Posso falar consigo? - Claro , entra ! Então o que se passa agora? - Não é nada de trabalho. – Tudo bem, não te preocupes.
- É o João Carlos. Ele não me respeita. Agarra-me em frente a toda a gente e diz coisas ordinárias de modo que todos oiçam, sejam conhecidos ou não. Já tentei falar com ele, mas nem me responde, vira a costas e vai embora. Assim não consigo trabalhar.
- Olha, pequena, eu posso falar com ele, tentar minimizar esses atritos no trabalho, mas não sei se vai resultar bem, ou pelo menos como gostarias que resultasse. Tu sabias que irias ter uma luta muito grande pela frente, pela aceitação, pela integração e pela igualdade, verdade? O João Carlos é teu amigo desde a primária, foi teu padrinho de casamento e é “tio" dos teus filhos. Se a tua decisão foi um choque para todos os teus amigos, imagina para o João Carlos. - Eu entendo isso tudo. O meu psicólogo já trouxe o assunto à baila diversas vezes . Eu sabia e sei que não vai ser um mar de rosas, mas principalmente vindo do João Carlos, porque temos uma grande cumplicidade desde miúdos, dói mais que tudo o resto. – Ora aí está! Tu sentes-te revoltada porque ele não te aceita nem te apoia e o João Carlos sente-se revoltado porque se sente traído. Afinal ainda há bem pouco tempo os dois eram unha com carne, nas noitadas, nos copos, com as mulheres, no futebol, nas patuscadas… - Mas isso não era eu! Era uma versão de mim que eu detestava! Agora sinto-me completa neste corpo que não percebia, que me incomodava como se de uma prótese se tratasse. – Longe de mim prensar que mereces menos do que a versão de ti que te faz feliz, mas tens que pensar que o Manuel foi a única versão da Emmanuelle que o João Carlos conheceu a vida inteira e de que não vai abrir mão com o estalar de dedos que foi a tua decisão. De qualquer modo, vou conversar com ele acerca do seu comportamento no trabalho, mas isto não quer dizer que lhe vou abrir a cabeça , trepanar e transplantar ideias. Tens que dar tempo ao tempo. E não chores, caramba ! – Vou tentar… obrigada por me ouvir. – Sempre que precisares, pequena, vai tranquila.
Parece que levei uma tareia, caramba. Gosto dela, como gostei dele. Não quero nem posso deixar transparecer a dificuldade que tive em compreender. Aceitar, aceito sempre tudo aquilo que contribua para o bem estar, a qualidade de vida e a felicidade das pessoas boas. Mas não posso fingir que a revelação brusca Manuel/Emmanuelle não foi um potente murro no estômago do qual não me recompus, eu e toda a gente que com ela priva. Talvez tenha sido melhor assim. Terapia de choque, PTSD, sei lá.

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12 comentários

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De Vento a 11.05.2019 às 09:03

Será complicado resolver a questão do acesso ao WC.
Já falaram com o(a)s co-workers para resolver o assunto? Será que o Emmanuelle poderá acompanhar as colegas ao WC, como habitualmente as mulheres fazem? E elas deixam?
Os homens serão obrigados a aceitar, mas as mulheres têm a palavra final. Em caso de se optar pela parte que corresponde às mulheres, será que o acompanhamento se fará só com as que aceitam, tipo quotas? Ou será que, em prol da igualdade, a partir de agora os WC serão únicos, entra tudo à molhada?
Será conveniente falar com um cientista.
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De Maria Dulce Fernandes a 11.05.2019 às 10:32

Foi realmente muito complicada não propriamente a questão dos WCs, mas a dos vestiários. As co-workers, como diz, senhoras respeitáveis e poços de caridade e rectidão, não aceitaram a Emmanuelle no vestário feminino enquanto o procedimento não foi efectivado. A alteração de nome e sexo que a lei permite, para elas não passava de um pedaço de papel e era tudo ou nada.
Depois de "tudo" estar cocluido, com todos os contras e reticências, não tinham como não aceitar.
Os espaços privados dos funcionários são ou femininos ou masculinos. Não há espaços de transição.
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De Vento a 11.05.2019 às 10:38

Portanto, a lei não muda nada. Existe uma lei natural que se sobrepõe a tudo o mais.
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De Maria Dulce Fernandes a 11.05.2019 às 10:44

Isto do politicamente correcto e da paridade e muito bonito equanto só toca aos outros, sabe ?
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De Vento a 11.05.2019 às 10:47

Eu sei. E o meu comentário vai nesse sentido: a lei não altera nada.
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De Maria Dulce Fernandes a 11.05.2019 às 10:58

Se há legislação em conformidade, e as senhoras são cidadãs cumpridoras, só tinham que cumprir e mais nada, mas é tabu, claro. Pode criar, extinguir ou alterar-se leis, mas no que toca a mentalidades é para esquecer.
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De Vento a 11.05.2019 às 11:09

Em situações destas não há como decidir em função de mentalidades, mas de norma natural. A lei existe (devia existir) para regular relações, mas não para mudar, como refere, "mentalidades".
Creio que o tabu reside no facto de se esquecer a lei natural. Em conclusão, a lei impõe uma regra artificial para contrariar o que é natural. Pretendo com isto dizer que a alteração de sexo no papel não determina que o conjunto aceite isso como natural.
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De Maria Dulce Fernandes a 11.05.2019 às 11:35

Tenho que concordar. No caso particular da Emmanuelle, ver avozinhas a espumar de indignação , avozinhas que ela conhecia desde sempre deixou-a sentimentalmente muito abalada, isolada , até proscrita. Mas a nossa realidade é onde se mora todos os dias e há que aceitar para ser aceite.
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De Anónimo a 12.05.2019 às 23:52

Estas Emanuelles e outras que aparecem e não sabem bem quem são deviam metê-las a todas no Conde Ferreira no Porto. Afinal aquilo lá é para doentes…., ninguém tem que andar a levar com " elles"!
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De Maria Dulce Fernandes a 13.05.2019 às 00:11

É um direito constitucional dela, a mudança.
Nem todos os malucos são diferentes. Nem todos os diferentes são malucos.
Resta-nos respeitar a sua decisão e aceitá-la como igual.

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