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Inquietações

por Diogo Noivo, em 25.09.19

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.


40 comentários

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De Diogo Noivo a 26.09.2019 às 16:44

O sentido que dou a ‘candidato-caricatura’ é o de resumir um indivíduo a características físicas/biológicas destituídas de importância para avaliar a sua competência para o exercício de cargos públicos. Talvez mais importante, é ver os próprios candidatos e os partidos que os apoiam a destacar essas características, transformando-as numa espécie de cartão de visita (que não só identifica o candidato como justifica a sua candidatura).

Costa, Rio, Cristas, Sousa e Martins não o fizeram. Nenhum se encostou a aspectos de natureza física para fazer valer candidaturas. Costa podia tê-lo feito, mas nunca admitiu ser reduzido à melanina ou a ascendências. Com mais ou menos verdade, Costa sempre puxou por méritos e talentos (experiência, capacidade de diálogo, capacidade de liderança, etc) para se afirmar. Não é que tenha ocultado a sua cor da pele nem as suas raízes goesas; simplesmente não permitiu (e bem) ser reduzido a elas.

No caso em apreço tivemos precisamente o contrário: alguém que se apresenta como “mulher, afrodescendente e gaga” no contexto de luta eleitoral, como isso dissesse alguma coisa sobre a capacidade que tem para exercer um determinado cargo. E há um ângulo mais gravoso: ao seguir este caminho, isto é, ao centrar o debate sobre a sua candidatura nestas três características, a candidata e o partido que a apoia dificultam o trabalho de escrutínio – porque tudo o que interessa saber é que a candidata é “mulher, afrodescendente e gaga”.

Como te digo, João, concordo contigo quando dizes que características como a etnia ou o sexo (as pessoas têm sexo, as palavras género) podem ser eficazes para captar votos. Concordo igualmente que o estado de degenerescência política já nos colocou numa situação de ‘flirt’ com o abismo. Mas isso não autoriza que se normalize este desvio retórico e doutrinal na apresentação e justificação de candidaturas.

Até agora, todos os candidatos puxavam por experiências profissionais, académicas, pessoais e políticas para se justificarem perante os eleitores (mesmo que com muitos artifícios à mistura). Sentiam a obrigação de mostrar serviço, capacidades e valores. Agora basta ser do sexo X, da cor Y e da ascendência Z, no pressuposto que essas características certificam capacidades. É absurdo.
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De João Campos a 26.09.2019 às 18:32

"O sentido que dou a ‘candidato-caricatura’ é o de resumir um indivíduo a características físicas/biológicas destituídas de importância para avaliar a sua competência para o exercício de cargos públicos."

Mas essas características físicas e biológicas podem ser relevantes num contexto mais alargado - se a candidatura da Joacine Katar Moreira der primazia a questões de direitos sociais, então o género e a etnia dela terão inegavelmente importância (mesmo que na prática o exercício se possa revelar redutor - recorde-se o caso do Miguel Vale de Almeida, ou até mesmo do André Silva, que não parece ter grande contributo a dar para temas que não envolvam animais domésticos). E, uma vez mais, se a características em questão não a qualificam para o que quer que seja, também não a desqualificam para o que quer que seja (dito de outra forma, não serão nem currículo nem cadastro).

No resto, estas características (que ainda não percebi se foram destacadas de facto pelo Livre ou foram hiperbolizadas pela comunicação social) acabam por servir tanto para apelo identitário como para soundbyte - e é disso que as campanhas hoje em dia são feitas, como sabes bem melhor do que eu. Destacar que a Joacine Katar Moreira estudou aqui, trabalhou ali e acolá, e fez isto ou aquilo será, convenhamos, um soundbyte fraquinho - sobretudo para uma campanha de um partido minúsculo (ainda que com simpatia mediática) que irá enfrentar máquinas eleitorais muito mais oleadas com candidatos muito mais conhecidos, mesmo que por motivos menos bons.

E este soundbyte, intencional ou não, cumpriu o seu papel. Fala-se dela na imprensa, discute-se a candidatura nos blogues, foi ao programa do Ricardo Araújo Pereira, os vídeos circulam nas redes sociais, etc. Quem quiser rejeitá-la pelo destaque mediático dado à cor da sua pele e ao seu género, poderá fazê-lo. Quem quiser votar nela apenas por essas características, poderá igualmente fazê-lo. E quem quiser ver para lá do soundbyte e descobrir o que ela diz, pensa, defende e propõe, poderá também fazê-lo - e decidir em conformidade (a mim, se ainda estivesse indeciso, bastar-me-ia o segundo parágrafo de um artigo da Visão de 22/09 para ter a certeza de que não votaria no partido dela). É a velha história de não haver má publicidade.

Tudo isto até pode ser absurdo, sim. As políticas identitárias - acaba por ser disso que se trata, não é? - tendem para o absurdo quando levadas ao extremo, e hoje em dia *tudo* é levado ao extremo. Só tenho dúvidas de que seja mais absurdo do que aquilo que já temos. E aquilo que já temos é: uma série de candidatos instalados que está onde está porque esteve onde esteve, independentemente de terem estado bem ou mal (ou não estaríamos há quatro anos a ser governados por um executivo onde figuram vários ex-governantes que conduziram o país a uma bancarrota); uma taxa de abstenção elevadíssima, já que, entre outros factores, a falta de qualidade das candidaturas "do costume" pouco entusiasma; um eleitorado largamente tribalizado, que vê a política como um jogo da bola; uma comunicação social que não ajuda; e um desinteresse colossal que se traduz numa falta de memória e de escrutínio - este já só praticamente existe em casos extremos (não fosse um caso de encarceração súbita e talvez o Sócrates - o Sócrates! - tivesse chegado a Belém, ou lá chegasse daqui a um par de anos).

Enfim, isto não me parece uma doença, mas apenas mais um sintoma de um problema muito mais profundo.

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