Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Inquietações

por Diogo Noivo, em 25.09.19

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.


4 comentários

Imagem de perfil

De João Campos a 25.09.2019 às 20:07

"São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas."

Ó Diogo, os actuais partidos com representação parlamentar têm como líderes António Costa, Rui Rio, André Silva, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins. Competência? Se os portugueses se preocupassem com a competência dos candidatos que elegem a 6 de Outubro teríamos a festa do voto em branco...

Regressando ao teu texto: pelo menos duas das três características que consideras inócuas podem não o ser para parte do eleitorado. Considerando a nossa história e a nossa população, não deixa de ser notória a ausência de afro-descendentes na nossa vida política, pelo que uma candidata afro-descendente poderá levar eleitores ao voto apenas por se identificarem e se reverem nela. E apesar de ter havido alguns progressos na visibilidade das mulheres na política, pode-se argumentar que ainda haverá um longo caminho a percorrer nesse sentido.

Será errado votar em alguém por critérios de identificação étnica, de género ou sexual? Num mundo perfeito, talvez. Mas o nosso mundo não é perfeito, e isso não me parece mais errado do que votar no mesmo partido de sempre só porque sim, como se se tratasse de um Benfica - Sporting.
Imagem de perfil

De Diogo Noivo a 26.09.2019 às 10:38

Portanto, João, uma vez que a competência não tem primazia na lógica eleitoral e na liderança dos partidos, o melhor é aplicar a máxima “perdido por cem, perdido por mil” e assumir de braços abertos a normalização dos candidatos-caricatura. É isso? Não estou de acordo e suspeito que tu também não.

As três características são, de facto, irrelevantes para avaliar a competência e a experiência da candidata para a titularidade de um cargo público. Coisa diferente é saber se são eficazes para captar votos – admito que sim, mas esse não é o meu ponto.

Ser afrodescendente (assumo o termo para facilitar o debate) não a torna mais qualificada para perceber as necessidades e para resolver os problemas dos afrodescendentes portugueses. Se assim fosse, só um agricultor poderia ajudar os agricultores, só um doente poderia ajudar os doentes, só um militar poderia ajudar os militares, e assim sucessivamente. A composição dos governos seria uma coisa engraçada (além de populista e de uma ineficiência sem rival).

Perguntas se será errado votar em alguém por critérios de identificação étnica, de género ou sexual. Respondo-te que não, como é evidente. Cada um vota de acordo com os critérios que bem entender, muitos dos quais imperscrutáveis. Mas subordinar a competência para o exercício de cargos públicos a características folclóricas é dar um passo grande e firme em direcção ao abismo.
Imagem de perfil

De João Campos a 26.09.2019 às 12:59

Depende, Diogo; julgo que somos capazes de ter opiniões diversas sobre a definição de "candidato-caricatura". Para mim, caricatura é ouvir o António Costa a tentar falar português. Ou ouvir o Rui Rio a falar sobre justiça ou jornalistas. Ou ouvir a Catarina Martins a falar de barragens.

Destacar a etnia ou o género de um candidato não me parece ser uma caricatura; é tentar apelar a perfis demográficos particulares. Não, ser mulher e afrodescendente não qualifica automaticamente alguém a resolver os problemas das mulheres e dos afrodescendentes. Mas, vamos lá ver, também não a desqualifica automaticamente. E mais: estabelece uma identificação, e essa identificação é relevante para muitas pessoas, sobretudo se essas pessoas sentirem que os candidatos "do costume" não as representam, nem nas políticas que defendem nem no percurso de vida que trazem.

Sim, a candidata do Livre - partido no qual não tenciono votar - poderá não ser especialmente qualificada para representar as mulheres ou os afro-descendentes (não faço ideia se o será). Mas para eleitores indecisos que sejam afro-descendentes ou mulheres, estas duas características podem ser decisivas num boletim cheio das caras do costume.

Na esmagadora maioria dos casos, a competência e os percursos académicos e profissionais não têm de facto qualquer relevância quer para a liderança dos partidos quer para as candidaturas a eleições - como, aliás, se tem notado há já muitos anos (é ver quem nos governou neste século, por exemplo). Diria que a maior parte dos eleitores - os cidadãos que ainda se dão ao trabalho de ir às urnas - há muito que vota por critérios puramente tribais: votam no PS ou no PSD (ou noutro qualquer) como torcem pelo Benfica ou pelo Sporting. Sim, é uma visão cínica da realidade, mas não me parece que valha a pena estarmos com grandes lirismos: as coisas são como são, e não como gostaríamos que fossem.

Ou, dito de outra forma, no abismo já nós estamos.
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 26.09.2019 às 15:51

Resumindo, vejo no seu comentário, uma lógica que promove, justifica, uma política identitária.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D