Infecções
O 25 de Abril, sem guerra colonial, não teria tido lugar em 25 de Abril, e quantos anos ainda o regime duraria é anybody’s guess. A “revolução” foi um golpe de um exército cansado de uma guerra sem fim à vista, bem-sucedido porque ninguém estava disposto a defender um regime cujo prazo de validade já fora ultrapassado há muito.
A populaça aderiu em massa e, sem anticorpos contra a doença comunista porque esta fora severamente confinada pelo Estado Novo, houve um crescimento exponencial da infecção, que afectou quase 20% da população.
O agente patológico suscitou à época grandes aflições por se alojar no cérebro, causando danos comportamentais que se traduziam numa forte agressividade em relação a indivíduos sãos, particularmente se financeiramente confortáveis, mas em 25 de Novembro alguns facultativos encontraram tratamento para um dos sintomas, a componente agressiva, que foi erradicada.
Como acontece frequentemente, o vírus, a breve trecho descrito pela literatura da especialidade como o communis74, sofreu mutações: a principal, annacletus99, tem uma taxa de infecção que tem oscilado entre R0 e R1, o que ainda significou no ano transacto quase meio milhão de indivíduos de ambos os sexos, com prevalência em citadinos jovens portadores de acne.
O annacletus99 afecta as suas vítimas nas suas capacidades cognitivas, com manifestações reiteradas de delírios lógicos e recurso a efabulações, não é letal, não existe vacina e, podendo evoluir para uma condição crónica, apresenta todavia taxas de remissão consideráveis por razões que a ciência não pôde ainda apurar, que tendem a manifestar-se em pacientes que ultrapassam a fase juvenil. O sintoma da recuperação é, invariavelmente, uma profissão de fé obsessiva em doutrinas social-democratas.
Quer dizer que, não fora a excessiva contemporização com comportamentos disruptivos de uma sã ordem social, que os poderes públicos adoptaram na tentativa de estabelecer pontes com os afectados, conquistando-lhes a simpatia, e poder-se-ia dizer que se pode conviver, sem graves disrupções, com os vírus desta família.
Elementos da comunidade científica, porém, confessam-se apreensivos com uma possível nova mutação, denunciada pela reacção de vários responsáveis políticos à possibilidade de cidadãos seniores desafiarem as leis que esses responsáveis aprovaram, comemorando o golpe militar acima mencionado em plena Assembleia da República, e desfilando numa marcha tradicional do 1º de Maio numa avenida da capital, ao som de musiquetas anacrónicas e palavras de ordem roufenhas.
Com efeito, seria de esperar que semelhantes manifestações de um ostensivo comportamento antissocial fossem objecto da mesma repressão que encontrou a celebração da Páscoa ou as cerimónias de inumação de cadáveres, às quais familiares e amigos chegados dos falecidos são impedidos de comparecer. Mas não: uma jovem ministra fez a propósito declarações que indiciam sérias perturbações, insinuando que nos funerais as pessoas costumam manifestar o seu pesar com abraços e beijos, coisa que é insusceptível de acontecer debaixo do arvoredo da Avenida da Liberdade aquando da passeata; e, mais grave ainda, o próprio Governo abre uma excepção para o Dia do Trabalho, no artigo relativo ao dever geral de recolhimento constante da legislação pertinente.
De modo que se teme que uma parte da classe dirigente política, mormente a maior parte dos deputados, o Governo e até o senhor presidente da República, se encontrem em estado de grande desequilíbrio mental de origem viral.
Ora, semelhante hipótese não se reveste, no caso do senhor presidente, de perigosidade assinalável, visto que é improvável que a sua popularidade se veja afectada por quaisquer comportamentos menos próprios, como ficou demonstrado com a reacção pública ao hábito surpreendente de mudar de calções de banho em público.
Mas no caso do Governo alguns socialistas e social-democratas Riófilos meus amigos (dou-me com toda a espécie de gente) confessam, à boca pequena, a sua aflição.
Tenho procurado, sem grande sucesso, sossegá-los, dizendo-lhes que há males que vêm por bem: com 130 velhotes no palácio de S. Bento a ouvirem inanidades, e um número indeterminado de cidadãos a agitarem bandeiras e gritarem palavras de ordem na via pública, a mensagem é clara – esqueçam lá essa coisa do confinamento.
O novo vírus, como os anteriores, bem não faz. Mas a gente habitua-se.

