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Indignações

por Diogo Noivo, em 12.02.18

Lavra um ódio incendiário no twitter em Espanha. O combustível é um artigo de Javier Marías intitulado Ojo con la barra libre (atenção ao bar aberto). O tema, claro, é a fonte de todas as indignações do momento: o #MeToo.

Deixando claro que a rebelião contra o abuso sexual só pode ser algo positivo, Marías lembra que o uso do sexo como moeda de troca nos meandros do cinema é tudo menos uma novidade – o termo couch casting datará pelo menos de 1910 –, uma prática que contou com a anuência descomplexada de muitas aspirantes a actriz. Mais importante, Marías nota que “dar crédito às vítimas pelo simples facto de se apresentarem como tal é abrir a porta a vinganças, a represálias, a calúnias, a difamações e a ajustes de contas”. É uma opinião.

No entanto, ateou-se a pira moral e atirou-se o homem lá para dentro. Pelo caminho, e porque as labaredas são de monta, atirou-se também o jornal El País, onde Javier Marías publicou o texto em apreço. Pedem-se demissões – e até castrações. Põe-se em causa a obra literária do autor e questiona-se a utilidade do jornal. Usam-se hashtags como StopPatriarcado e expressões como bílis cerebral. Alega-se que Marías defende o direito de pernada e, sem surpresa, recorre-se a palavras como misógino, machista, repugnante, casposo, idiota e a tantas outras que o pudor me impede de reproduzir.

Opiniões e #MeToo à parte, razão tem Juan Cruz quando defende que impera a gritaria e o lugar-comum à custa da liberdade de expressão. Embrutecemos.

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18 comentários

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De Anónimo a 12.02.2018 às 16:32

Infelizmente as pessoas não têm memória ou então não têm facebook ou instagram.
Quanto há falta de memória aqui vai :

https://www.youtube.com/watch?v=qeMFqkcPYcg

Para quem não tem face ou insta :

https://www.facebook.com/GAMEeskadaporto/photos/a.175808909722250.1073741837.160032877966520/175810106388797/?type=3&theater

WW

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De Sarin a 12.02.2018 às 18:24

Agradecia que explicasse o que quer transmitir com a fotografia.

Porque vejo um corpo semi-exposto, mas não vejo o que tem a ver com violação, intimidação ou falsa acusação.

Se pretende, como parece e alguns insistem, responsabilizar as vítimas de assédio por causa da roupa que usam, talvez queira lançar uma petição para aprovação de uma lei que estabeleça o que é ou não permitido vestir. Podemos também revogar a lei que torna crime público as privadas bofetadas, que tal? Sempre é uma bela forma de incutir respeitinho ao dress code...
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De Anónimo a 13.02.2018 às 15:44

A foto em questão é de um album onde se podem ver muitas mais e com roupas bem mais ousadas. O exemplo dado está em linha com o da musica citada, ou seja sempre existiu assédio ou abuso (tentativa) por parte de pessoas a pessoas.
O que actualmente acontece é o mesmo de sempre só que agora o barulho está amplificado e os torquemadas das redes sociais (e não só) estão vigilantes não para "resolver" os problemas mas para criarem soluções...
Numa outra "onda" teórica o que posso dizer-lhe é que enquanto sociedade estamos a passar novamente por uma nova fase de mais lascívia tanto delas como deles, talvez (não sei) dos ultimos 40 anos e que como de costume (relembrando as anteriores) se traduzirá em mudanças que julgo não serão boas...
Espero ter feito entender-me.

WW
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De Sarin a 13.02.2018 às 19:16

Apesar da explicação, que agradeço, não percebi muito bem o que tem o vestuário ousado a ver com o assédio - o bolo estar na mesa não me dá o direito de lhe deitar o dente. É uma questão de educação, não de educação bem-comportada mas de educação para a cidadania: respeito pelo outro, pela propriedade do outro, pelo direito do outro ser e se expressar.


Não confundamos vestuário com encosto, com esfreganço - o toque é invasivo do espaço do outro, a roupa ou a falta dela exibe-se no próprio.


Tem razão, o que acontece hoje é o que aconteceu sempre: assédio e silêncio, violação e culpabilização da vítima - de braço dado com oportunismo ou contrapartida, numa salgalhada hipócrita de eh, garanhões! e eternas putas.

Infelizmente, numa altura em que as vítimas começaram a ganhar coragem para enfrentar a sociedade, surgem os histerismos que não sendo de género são de classe - e que fazem vítimas de novos e diferentes crimes sem ajudar as vítimas dos crimes de sempre. O ruído só ajuda quem precisa de distracção.

A lascívia é eterna. Simplesmente a sociedade está habituada aos Cleland e no fundo no fundo ainda não aceita as Anaïs Nin, por muito que as 50 Sombras da não-sei-quem vendam e encham cinemas.
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De Sarin a 12.02.2018 às 16:40

A chuva das palavas ponderadas nunca apagou ânimos incendiados. Estes acalmam por hipoxia - o que não significa deixarmos de chover.

Mas este caso é apenas mais um. Este, o de Marías, ou este, o do metoo.
Não é apenas a forma de "fazer jornalismo" nalguns-quase-todos sectores, não são os facebooks e tweeters e instagrams, não é o consumismo nem é o imediatismo: somos nós. Facilitamos todos os dias seja por omissão ou por demissão. Não podemos deixar de estar de pé na defesa do que consideramos justo - sentarmo-nos significa perder o alcance da vista e a projecção da voz. Mas temos que ter coluna suficiente para não vergar perante a incoerência e flexibilidade qb para oscilarmos em busca de outras respostas.

A vida são dois dias. As hashtags são bem mais. Mas a dignidade, apenas uma.
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De Anónimo a 12.02.2018 às 17:20

O problema é que os fanáticos/fundamentalistas nunca se reconhecem como tal.
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De Vlad, o Emborcador a 12.02.2018 às 19:12

Bom, então não existem fundamentalistas! Para começar como sabe o caríssimo anónimo não ser um deles?
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De Lucklucky a 12.02.2018 às 17:57

Foi assim que o jornalismo fez sempre com Reagan, Bush, Trump. etc...
Agora fingem-se escandalizados.

MeToo é uma construção da narrativa para neutralizar um sexo na futura luta pelo poder, o abuso sexual é só o veículo. É aliás fantástico ver atrizes abraçadas ao suposto canalha vários anos e várias vezes depois das supostas ofensas.

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De Anónimo a 13.02.2018 às 11:05

Isto é tudo marchismo.
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De Anónimo a 12.02.2018 às 18:13

"Marías nota que “dar crédito às vítimas pelo simples facto de se apresentarem como tal é abrir a porta a vinganças, a represálias, a calúnias, a difamações e a ajustes de contas”. Isso é por demais evidente.
Em todas as épocas aparecem loucuras que mais tarde desaparecem (às vezes, como a teoria da superioridade ariana, só depois de causarem grandes estragos). Penso que o que Marias diz não se pode descartar como mera opinião. Basta notar que é suficiente uma mulher acusar para se ter como certo e se perseguir o homem. Penso que as mulheres são iguais aos homens na capacidade para a vigarice e para o crime e a aldrabice. Penso que as mulheres são iguais aos homens em tudo (ou quase, não são na força física). Mas muitas feministas pressupõem que as mulheres são uma espécie de crianças de tal modo frágeis e inábeis que precisam de uma protecção especial. Claro que muitas mulheres usam o sexo para obterem os seus fins. As ideias dominantes e até as leis favorecem-nas, e muito, na vigarice. Na minha fraca maneira de ver as mulheres devem ser tratadas como os homens, sem protecção especial excepto nas suas especificidades (exemplo, na gravidez).
Devemos apoiar Marias e fomentar a livre discussão. Entre todos sem nenhuma consideração especial pelas mulheres.
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De Anónimo a 12.02.2018 às 18:48

Aguardemos os comentários do Duque de Corso y Real Maestro de Esgrima , em relação a este assunto e à defesa (acérrima) do Rei de Redonda.
Aposta-se que os termos "feminazi", "gilipollas", imbéciles" farão parte do exórdio do frequentador do Bar da Lola - e também do Gijón, que diabo, por uma questão de (alguma) respeitabilidade...


JSP
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De Só Lange a 12.02.2018 às 19:02

As mulheres são puras e imaculadas, anjinhos de asas brancas incapazes de pecar. Os homens é que são uns garanhões sempre de pila em riste (malditas erecções) só a pensarem na reprodução da espécie. Enquanto houver homens, a espécie não se extingue. Mesmo que não haja mulheres, eles hão-de arranjar maneira...
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De Paulo a 12.02.2018 às 19:48

Finalmente. Finalmente posso falar do meu caso de assédio de que fui vítima. Ao fim de 39 anos estou grato aos metoos e outros que não fazem a ponta dum corno a arranjam cada uma para surjir nas revistas e outros pasquins. Ah se não fosse esta hipocrisia o que seria de ambas.
Tinha 11 anos. Na minha turma havia um colega que se tornou amigo. Morava na Rua dos Caldeireiros no Porto. Quando ia à casa desse amigo umas senhoras da Toca da Raposa asediavam-me para eu entrar e sentir os prazeres da carne. O assédio era grande. Mas não podia. Que fazer ao tesão com que ficava só de sentir aquele assédio. Mas ficava envergonhado. Que diabo tinha 11 anos! Como era possível assediarem-me daquela forma. Como suspeitavam da virgindade propuseram a perda da mesma de forma gratuita. Que assédio tão simpático e compreensivo. Mas ninguém dá nada a ninguém. Já naquele tempo era assim. E depois como seria? Iria ficar dependente? Onde é que ia buscar o graveto para manter aquele assédio. Não aguentei. Passei a utilizar a Rua Nicolau Nazoni para aceder à Rua dos Caldeireiros em detrimento da Cordoaria.
Mais uma vez estou grato aos tempos que vivemos acerca do tema do assédio pois consegui partilhar o meu episódio. E não estou disponível para entrevistas pois este assédio pode transmitir trauma e não quero ser o responsável pelo próximo tema que vai surjir nas redes sociais e revistas nas pessoas, particularmente, das artes, de quem devemos ter muita compreensao. Pois eles são uma fonte inesgotável de surpresas [na generalidade].
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De Maria Dulce Fernandes a 12.02.2018 às 19:58

“dar crédito às vítimas pelo simples facto de se apresentarem como tal é abrir a porta a vinganças, a represálias, a calúnias, a difamações e a ajustes de contas”. É uma opinião."
É a minha opinião também.
A gota da razão perde-se, diluída num oceano de incongruidades, barbarismos, desconexões, contrassensos e muita insensatez.
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De António a 12.02.2018 às 21:12

Tarana Burke criou o movimento Me Too em 2006, duma forma relativamente anónima (que é como quem diz, no MySpace) para angariar fundos. Esses fundos serviriam para custear as despesas de tribunal de vítimas de assédio sem posses para litigar. Em tribunal, que é o local para resolver essas questões.
Não sei quem criou o #MeToo. Já li por aí que Tarana Burke não estará particularmente entusiasmada com as consequências que esta palhaçada pode trazer à sua plataforma de ajuda. Porque o #MeToo, ao contrário do Me Too, não ajuda ninguém. E se o Me Too ajudava pessoas anónimas com problemas reais, o #MeToo só se interessa por gente famosa com problemas surreais.
Até agora, o maior beneficiado foi o Twitter, que apresentou lucros pela primeira vez. As calamidades geram audiências e as audiências geram publicidade e a publicidade gera lucros. Quanto desses lucros irão parar a Tarana Burke? Palpita-me que nenhuns. Palpita-me mesmo que os indignados do #MeToo nem sabem quem é Tarana Burke. Que não sabem o que é assédio já se viu.

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