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Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.


11 comentários

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De Pedro Correia a 31.01.2017 às 12:55

Muito boa, esta reflexão sobre jornalismo, Tiago. Que é também uma reflexão sobre cidadania.
Subscrevo no geral, embora discorde do "registo de interesses" no jornalismo em geral: é irrelevante para o leitor se o jornalista milita no partido X, frequenta a igreja W ou torce pelo clube K. São esferas da sua vida privada que não têm de ser tornadas públicas salvo se esse profissional assim o entender.
Defendo que esse registo deve ocorrer, isso sim, no jornalismo económico - particularmente quando envolve movimentações bolsistas. Porque as notícias nesta área podem influenciar no limite transacções milionárias.
Há de resto exemplos recentes nesta matéria. Exemplos lamentáveis.
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De Einstürzende Neubauten a 31.01.2017 às 15:27

Pedro, hoje ao jornalismo politico subjaz sempre a economia. E no limite esse mesmo jornalismo pode influenciar decisivamente os resultados eleitorais (a governação actual resume-se a metas económicas) - as pessoas escolhem os seus interlocutores, muitas vezes com interesses pessoais, e seguem o discurso que na aparência é perfeitamente coerente (quem tem tempo hoje de conferir?- aliás hoje vivemos no mundo da Pós Verdade - existem estudos que justificam tudo, até que as batatas fritas fazem bem à saúde - li hoje um)

A ideia de imparcialidade no jornalismo, ou noutra actividade qualquer. não existe, nem na nossa forma de pensar e ser. Somos fruto de experiências de vida várias que nos moldam a nós e às nossa opiniões.

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De Pedro Correia a 31.01.2017 às 23:49

Desculpe, mas não aceito essa ideia que não existe imparcialidade no jornalismo.
O jornalista deve respeitar em todas as circunstâncias as normas deontológicas no exercício da profissão. E, ao fazê-lo, está a ser imparcial. Nomeadamente ao ouvir todas as partes com interesses atendíveis no caso e ao fazer o cruzamento de fontes que lhe permita o esclarecimento rigoroso dos factos.
Dizer que não há imparcialidade, e que a verdade é um mito, e que equivale à mentira, é cair no relativismo ético que só vem ao encontro do jornalismo preguiçoso, incompetente e com total falta de escrúpulos. A chamada "pós-verdade", palavra tão em voga enquanto sinónimo eufemístico de mentira.
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De Tiago Mota Saraiva a 01.02.2017 às 08:38

Pedro, a mim parece-me que há um conjunto de ferramentas/procedimentos que medeiam um texto de opinião de um texto jornalístico. Contudo, a total independência/imparcialidade é um objectivo desumano. Nesse sentido, não me parece mal a ideia de um registo de interesses voluntário.
Se um jornalista escreve sobre política, devia sentir-se confortável a afirmar as suas militâncias. O mesmo para o futebol ou religião.
Na verdade, o jornalismo é um serviço público e quanto mais transparente for, mais sério se torna.

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