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Incontornável

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.07.18

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Tony Judt deixou saudades, é certo, pela clareza da sua escrita e a profundidade da sua análise. Seria bom tê-lo hoje entre nós para analisar o que se está a passar um pouco por todo o mundo. Na sua ausência, depois do magnífico "Fascism", de Madeleine Albright, dei agora de caras com este "The Road to Unfreedom", em 1ª edição, da Tim Duggan Books (New York), de Timothy Snyder. 

Talvez não fosse mau que antes de se olhar para a Cimeira de Helsínquia entre Trump e Putin, e para se perceber como se chegou até aqui, percorrer o que Snyder escreve sobre a forma como o líder russo se apropriou do pensamento do filósofo fascista Ivan Ilyin, transformando-o no seu guia, ou de como a sua acção o aproximou de Alexander Dugin, o homem que recorreu a termos como "Eurasia" e "Eurasianism", conceito este radicando em Lev Gumilev – filho do poeta que foi executado pela Cheka e para quem os judeus seriam uma ameaça —, e de onde partiu para desenvolver elementos básicos do anti-semitismo moderno, tudo para para que as ideias dos nazis soassem mais russas, enquanto escrevia sob o pseudónimo de "Sievers", numa clara referência ao nazi alemão Wolfram Sievers executado em 1947 por crimes de guerra e que ficou conhecido por coleccionar ossos de judeus assassinados. Dugin, um dos fundadores do Partido Nacional Bolchevique, que muito antes de Putin falar numa Eurásia, que devia incluir a Ucrânia como parte da grande civilização russa, formou um movimento destinado a apoiar a desintegração e a russificação daquele país.

Snyder vai escrevendo no estilo a que Judt nos habituou, revela fontes e dá a conhecer as suas investigações. E o que vai fazendo não esquece o papel de um tipo como Richard Spencer, o supremacista branco estadounidense, casado com Nina Kouprianova, tradutora de Dugin, nem as relações de Trump com o regime russo, colocadas a nu  a propósito do concurso Miss Universo, mas em especial com Aras Agalarov, sócio de Trump na organização do concurso e cujo sogro foi o chefe do KGB no Azerbaijão, oligarca especializado na relação com outros oligarcas e que fez o favor, entre outras coisas, de construir dois do estádios que serviram para Putin receber o Mundial de Futebol.

Da política da inevitabilidade à da eternidade, que elimina o futuro porque o presente, na óptica putiniana, tem de ser eterno, o livro de Snyder constitui o desvendar de um mundo ignorado, omitido e quase sempre deturpado pelas máquinas de propaganda estatais, mas que convém conhecer para evitar que outros ajuízem por nós o que eles próprios desconhecem sobre este caminho que aqui e ali vai sendo trilhado, que nos limita horizontes e conhecimento, aos poucos agrilhoando o que nos resta de liberdade.


10 comentários

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De Justiniano a 19.07.2018 às 17:50

Precisamente o que dizia, ali, ao caro Sérgio, o livro tem " sido larga e entusiasticamente promovidos, como premonições fundadas na observação da história."
A fixação de Snyder com Putin e, mais recentemente, com Trump há muito que atravessou o patológico, transparece ridículo!!
Note que em relação ao conflito na Ucrânia, que reduz ao simplismo mais básico e que identifica meia Ucrânia como falha de vontade autónoma e reduz meros servidores do kremlin. Se não fosse ridículo seria trágico!! Ao invés de ajudar a estudar a história, reescreve-a e subverte-a!! É pena!!
Aponta nazis e fascistas a eito, raramente acerta!! No fundo ajuda a normalizar os genuínos, quando aparecerem!!
Quanto a Trump, a obsessão é evidente, não comento histerias!
Faça o caro Radiante um pequeno estudo sobre a figura de De Gaulle, um dos grandes Estadistas do sec XX. Que se diria hoje de De Gaulle!!?? Um perigoso fascista!! Esta insana equivalência, que vislumbra nazis e fascistas em cada esquina é, para além de estupidamente esquizofrénica, muitíssimo perigosa!!
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De Gay Radiante a 20.07.2018 às 08:38

De Gaulle combateu os fascistas de Petain. Não vislumbro como poderia ser apelidado de fascista. Foi ,isso sim, um político datado e medíocre que sem a maldita guerra teria como destino o esquecimento. Há homens que da guerra recebem os favores da imortalidade

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De Justiniano a 20.07.2018 às 15:27

Nem sei o que lhe diga, caro Radiante!

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