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In Memoriam

por Fernando Sousa, em 11.11.18

Ergueu-se Abraão, rachou a lenha e partiu

E consigo levou a chama e um cutelo.

E quando juntos se quedaram ambos,

Isaac, filho primeiro, assim falou: `Meu Pai

Tudo está preparado, o ferro e o fogo

Mas qual é o cordeiro a imolar nas chamas?`

E Abraão prendeu o jovem com cinturões, correias,

Em redor construiu trincheiras, parapeitos

E empunhou o cutelo para matar seu filho.

Dos céus um Anjo lhe bradou então

E disse: `Não levantes a mão contra esse jovem

Nada tentes contra ele que é teu filho.

Vê! Um cordeiro preso está ali naquela sarça.

De orgulho oferece um sacrifício em vez do jovem.`

Mas por não querer assim, matou o velho o filho

E um por um também metade dos filhos da Europa. 

 

Parábola do Jovem e do Ancião, de Wilfred Owen, poeta inglês morto nas trincheiras uma semana antes da assinatura, há cem anos, do Armistício da Guerra de 1914-18, in Elegias.

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22 comentários

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De Bea a 11.11.2018 às 09:14

Não esperava este final, até pela fuga ao acto originário de Abraão. Mas creio que todos compreendemos o poeta. A vida não é justa e a justiça dos homens, que devia corrigir a da vida, não o faz. Porque nela o absurdo é casual, não lhe preside qualquer desígnio. Mas os homens pensam e agem de acordo com o que pensam.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 10:03

Eu também não esperava, Bea. Mas entendi o poeta, a certa altura porta-voz de uma geração dizimada.
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De Bea a 11.11.2018 às 09:15

"o cordeiro a imolar nas chamas"
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 10:04

Owen ele próprio imolado.
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De Tiro ao Alvo a 11.11.2018 às 13:04

Repare, Fernando, no texto não está escrito "imolar" mas "molar". Convém corrigir.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 13:26

Tiro certeiro, obrigado. Emendado.
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De Vorph Valknut a 11.11.2018 às 10:28

O Deus da Carnificina
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 10:30

Parece ser o que Owen diz.
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De Rão Arques a 11.11.2018 às 10:38

GUERRAS
Há sempre alguém a pagar as favas, ontem como hoje e sempre.
Em ditadura como em democracia postiça a guerra continua, tanto com espingardas como com golpadas palacianas para todos os gostos e feitios, que sempre desaguam na inocente carne para canhão.
Em golpes de morte nas trincheiras ou estragando vidas na saúde e nas carteiras.
Os carrascos de colarinho branco mesmo encharcados em lama nunca andam desarmados.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 10:46

É verdade, Rão. E é tremendo ver como a sangria continua apesar de mil avisos - foi a primeira, a seguir a segunda, a da Coreia, a do Vietname, as iraquianas, para não falar das tantas, tantas outras pelo meio que ajudaram a levar gerações para a morte. É tremendo. E concordará que pior do que as guerras é elas por fim não terem servido para nada.
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De Rão Arques a 11.11.2018 às 10:59

Obrigado pela referência, mas pode concluir-se que não resolvendo nada como diz, vão servindo apenas como pretexto para nunca parar.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 11:17

Quase não vejo como lhe dar razão. E digo quase por olhar para trás e não me lembrar de guerras entre democracias consolidadas. Por fim talvez haja uma relação directa entre a democracia e a paz.
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De Luís Lavoura a 11.11.2018 às 11:05

Tem o título toda a razão: "Parábola do Jovem e do Ancião". Porque a guerra é uma coisa feita por homens velhos para matar homens novos. Os homens velhos que organizam e determinam a guerra sabem bem que não serão eles a morrer nela, por isso o fazem com tanto despreendimento.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 11:21

Um pouco como disse o futuro rei da Arábia Saudita ao jovem Lawrence antes de o pôr na rua para que as grandes potências europeias de então pudessem partilhar, recatadas, o Médio Oriente: "A guerra cabe a vocês, jovens, mas é a nós, velho, que cabe fazer a paz".
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De Luís Lavoura a 11.11.2018 às 11:35

Pois eu diria (então como agora) exatamente o oposto do rei da Arábia Saudita: que aos velhos cabe fazer a guerra mas aos jovens cabe desobedecer-lhes e fazer a paz.
(Assim fizeram muitos heroicos jovens portugueses nas décadas de 60 e 70, que saíram do país para recusarem fazer a guerra. Honra lhes seja feita.)
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 11:52

Certo, certo: querem a paz depois de organizar a guerra e rechear os canhões com carne tenra. Deixe-me só fazer um pequeno apontamento: muitos dos militares que fizeram a guerra colonial foram os mesmos que souberam depois acabar com ela e permitir por exemplo que hoje estejamos aqui a conversar amenamente.
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De Costa a 11.11.2018 às 17:00

Uns parecem acusar toda uma geração de portugueses (uma, pelo menos) de cobardia, porque os heróis - parece - foram os que fugiram. Eu respeito essa geração e dela, mais ainda, os que tombaram. Nada tem a ver com ideologia. É simples respeito.

They shall grow not old, as we that are left grow old:
Age shall not weary them, nor the years condemn.
At the going down of the sun and in the morning,
We will remember them.

Já cá não estão. Ao contrário dos da rádio Argel, que envelhecem (muito) confortavelmente, entre prebendas e sinecuras. São os verdadeiros heróis, ao que parece.

Não para mim.

Costa
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 20:25

Pela parte que me cabe não acuso ninguém. Todos tiveram certamente as suas circunstâncias. O resto caberá à História.
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De Anónimo a 11.11.2018 às 18:04

"muitos dos militares que fizeram a guerra colonial foram os mesmos que souberam depois acabar com ela..." Sim, mas para se convencerem foi preciso levarem muito tiro.
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De Fernando Sousa a 11.11.2018 às 20:28

Uns já estavam convencidos, outros estavam em processo, uns levaram tiros, outros não, mas todos perceberam a certa altura o que estava realmente em causa. E estiveram à altura do momento.
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De Anónimo a 12.11.2018 às 14:00

Já aconteceu nesse tempo e ainda hoje é assim. São sempre os mais fracos os que mais sofrem. Abraão não se ofereceu a ele próprio para ser sacrificado:mas sim matou o filho mais velho.

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De Fernando Sousa a 12.11.2018 às 14:56

Percebo-o, Anónimo, mas na verdade a história não acabou mal, por um anjo ter impedido a tempo o pior, ao contrário do que aconteceu entre 1914-18, quando o anjo não chegou a tempo, ou não foi ouvido, como ainda acontece. (Nota: Isac era filho único)

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