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Imbecilidade com respaldo institucional

por Diogo Noivo, em 07.03.17

Uma pessoa ia dar uma conferência numa universidade. Essa pessoa tem curriculum académico e profissional relevante. Nada indicava, sugeria, ou indiciava que da conferência resultaria um ataque aos direitos, liberdades e garantias previstos na Constituição. Porém, um grupelho, porque não gosta da pessoa que ia ministrar a conferência nem das pessoas que a organizavam, decidiu lavrar protesto, suscitar desordem e exigir à faculdade o cancelamento da conferência. O Caramelo que está à frente da faculdade, certamente por não entender as funções que desempenha e a missão da instituição que dirige, acedeu ao pedido.
Podia sair do campo da abstracção e dizer que raras vezes concordo com Jaime Nogueira Pinto, muito embora tenha por ele admiração intelectual. Podia defender a pertinência do tema que ia ser debatido. Podia ainda afirmar que, pessoalmente, os promotores da conferência me parecem um pouco anacrónicos. Mas, para o caso, o detalhe e as apreciações pessoais são extemporâneas. Houve um gravíssimo atentado a liberdade de expressão, mais grave por ter sucedido numa instituição que, por definição, deve ser um espaço de debate, de liberdade e de conhecimento. Em vez de pastar por locais como o esquerda.net, o grupelho teria muito a ganhar em ler um notabilíssimo escritor de esquerda chamado Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Entre outras coisas relevantes para o assunto em apreço, escreveu Orwell que "...to be corrupted by totalitarianism one does not have to live in a totalitarian country. The mere prevalence of certain ideas can spread a kind of poison that makes one subject after another impossible for literary purposes. [...] But what is sinister, [...], is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most." Só por estes pequenos excertos, e se não forem completamente destituídos, já aprendiam qualquer coisinha. Eles e o Caramelo.

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18 comentários

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De Luís Lavoura a 07.03.2017 às 18:20

Houve um gravíssimo atentado a liberdade de expressão

Eu não diria isso, na medida em que uma pessoa não tem a liberdade de se exprimir onde bem quer que lhe apeteça. Pode exprimir-se livremente num espaço público (num jardim público, digamos), mas não num espaço privado (na minha casa, por exemplo). Num espaço privado só fala quem o dono deixar.

No caso vertente, a direção da Faculdade decidiu que Nogueira Pinto não era autorizado a falar nela. Decidiu mal, em minha opinião, mas não violou a liberdade de expressão de Nogueira Pinto.
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De vdr a 08.03.2017 às 05:09

Uma universiade pública não é um espaço privado.
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De Luís Lavoura a 08.03.2017 às 10:45

É sim. É um espaço privado pertencente ao Estado, mas nem por isso deixa de ser privado. (O palácio de Belém também pertence ao Estado, porém é um espaço privado. Um quartel do exército também pertence ao Estado, porém é um espaço privado.) Uma universidade pública até tem seguranças e tudo, precisamente para garantir que só lá está quem tem direito a estar.
Espaço privado é aquele que tem um dono, que o dirige e que estipula certas regras de acesso. Por oposição a uma rua, na qual qualquer pessoa pode estar.
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De Anónimo a 07.03.2017 às 18:30

Entretanto há outro cavalheiro que aceitou ser Ministro da Educação de um governo socialista, comunista e outras coisas folclóricas afins.
O cavalheiro, que é Ministro da Educação, não terá uma palavrinha a dizer sobre o factos em apreço?.
Concorda ?. Discorda ?. Vai tomar alguma posição oficial?. Vai assobiar para o lado?.
A ver vamos, porque muito se pode deduzir da posição do cavalheiro, neste caso, como de outros ainda recentes.
Afinal qual foi o formato de educação que os eleitores votaram para os seus filhos ?.
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De jose costa a 07.03.2017 às 22:30

O que é que o Ministro da Educação tem a ver com o Ensino Superior? Tem de certeza a ver consigo se por acaso quiser terminar o ensino básico.
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De Luís Lavoura a 08.03.2017 às 10:48

Foi o governo da direita quem juntou o Ensino Superior à Educação num só ministério. Agora a gente da direita continua confusa, ainda a pensar que são uma e a mesma coisa.
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De Luís Lavoura a 08.03.2017 às 09:34

As universidades gozam de autonomia académica e científica. Não podem ser obrigadas pelo poder político a que nelas falem certas pessoas e outras não.
Mal estaremos no dia em que o poder político puder obrigar uma universidade a permitir que nela fale um indivíduo qualquer.
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De Diogo Noivo a 09.03.2017 às 21:24

Nada é tão difícil de explicar como o óbvio. E daí a minha dificuldade em responder-lhe, Luís Lavoura. Após ter pacientemente lido os seus vários comentários, aqui vai uma tentativa de lhe explicar que a água em estado líquido molha.
Comecemos pela universidade. Por definição, uma universidade é um local onde impera a razão, a reflecção e o debate. O anátema, os estados de alma e a militância ideológica subordinam-se sempre ao conhecimento e à discussão. Se não é capaz de entender isto, confesso a minha limitação: não sou capaz de lho explicar.
Em segundo lugar, os argumentos apresentados para cancelar a conferência. Disse o Caramelo, o director da faculdade, que perante o risco de desacatos e violência o melhor era não permitir a conferência. Ao fazê-lo reconheceu que a ameaça de violência é, na Universidade Nova, razão suficiente para amordaçar o debate. O que é gravíssimo porque a faculdade, pelo seu mais alto responsável, cede à coacção. Se não entende isto, mais uma vez, não sei como lhe explicar a gravidade do assunto.
Terceiro, ninguém obrigou a universidade a coisa nenhuma. Foi pedida uma sala para realizar uma conferência, o pedido foi aceite, e depois cancelada a conferência pelas razões erradas. Se não percebe a sequência dos factos, novamente e correndo o risco de me tornar repetitivo, não sei como explica-la de outra forma.
Quanto ao resto, é ler o post – coisa que não sei se fez, apesar dos seus numerosos comentários.
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De Luís Lavoura a 10.03.2017 às 09:20

uma universidade é um local onde impera a razão, a reflecção e o debate

Certo. Mas não é, necessariamente, um local para manifestações de índole marcadamente e deliberadamente política.

A título de comparação, suponha que pedido idêntico, por parte de um grupo político, de realização de uma conferência, tinha sido feito a uma univesidade privada (por exemplo, a Católica). Julga que a universidade acederia? Eu creio bem que não.

perante o risco de desacatos e violência o melhor era não permitir a conferência

Considero este argumento totalmente razoável. A universidade vai ter custos acrescidos em segurança (contratação de polícias e/ou seguranças privados), e expôr estudantes e professores que nada têm a ver com o assunto, a riscos apenas e por causa de um evento que nada tem a ver com os objetivos da universidade? Será que é função da universidade andar a subsidiar (em contratação de segurança) a realização de eventos que nada têm a ver com os seus objetivos?

Foi pedida uma sala para realizar uma conferência, o pedido foi aceite

Pois, esse é que terá provavelmente sido o erro. Qualquer universidade privada teria rejeitado liminarmente o pedido, e a FCSH deveria ter feito o mesmo. Quem quer realizar atividades políticas, que alugue uma sala num hotel para o efeito.
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De Costa a 08.03.2017 às 14:35

Suponho que a questão da educação (vista na perspectiva da "instrução"; e que fosse na outra...) será por cá uma coisa com bem pouco peso na decisão de voto. O povo é largamente bruto, preocupado com a bola, as novelas, os "reality shows" e fundamentalmente em se desenrascar, pisando quem e o que houver que pisar para tanto.

Por isso está muito bem que a esmagadora maioria das vezes que se fala em "educação", "ensino" e seus ministérios - tenham estes o nome que tiverem - seja para invocar os interesses dos professores. Ou, por estes dias em que os problemas dos professores, que eram tão graves, ofensivos e duradouros, de repente parecem todos magistralmente resolvidos, para garantir o maior sucesso estatístico e o repouso e alegria das frágeis mentes em formação das criancinhas, reduzindo a exigência do ensino e da sua avaliação.

Óptimo para sacar votos e para contentar progenitores sem instrução ou hábitos de cultura.

Costa
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De Diogo Noivo a 09.03.2017 às 21:25

O mistério da educação, caro Costa. Seja no ensino básico, secundário ou superior, em Portugal temos o mistério da educação.
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De V. a 07.03.2017 às 19:44

Acresce o facto de 1. A faculdade não é deles 2. Somos nós que pagamos os seus cursos inúteis. Poder-se-ia até dizer "vão mas é brincar com a pilinha uns dos outros e deixem-se de bolchevismos" — mas isso, helás, já eles andam provavelmente a fazer.
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De Luís Lavoura a 08.03.2017 às 09:37

A faculdade não é deles

É sim. As universidades gozam de autonomia científica e pedagógica. E, naturalmente, têm os seus órgãos próprios que gerem esses aspetos científicos e pedagógicos. Esses órgãos têm toda a legitimidade para decidir que certas pessoas não são autorizadas a falar na universidade - possivelmente porque não se lhes reconhece valor científico ou pedagógico, mas eventualmente por outro motivo qualquer.
O poder político financia as universidades públicas, mas não está autorizado a intervir em aspetos da sua competência científica e pedagógica.
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De V. a 08.03.2017 às 11:50

"Não é deles", dos alunos. Não estou a ver que capacidade científica ou pedagógica tem uma associação de estudantes (e um procedimento absurdo como as RGA — note que uma RGA não é um orgão) para fazer qualquer tipo de julgamento sobre o valor, qualidade e até a oportunidade pedagógica de um determinada palestra enquadrado num departamento que tem um professor coordenador que é quem decide o programa e a relevância pedagógica dessas coisas. Neste caso ainda foi pior porque não se trata de um ataque à "liberdade de expressão" (o que raio é isso afinal?) mas sim de uma posição política contra uma pessoa a quem é atribuído um rótulo de inimigo ou de indesejável. Pela mesma lógica um professor poderia decidir agora que não quer que este ou aquele aluno frequentem as suas aulas porque são perigosos.
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De Luís Lavoura a 09.03.2017 às 11:34

"Não é deles", dos alunos.

Certo. Ora acontece que, ao que parece (só ontem me apercebi deste facto ao ouvir a história contada no telejornal), quem organizou a conferência de JNP foi, precisamente - um grupo de alunos. Mais especificamente, um grupo político nacionalista de alunos (e possivelmente também não-alunos). Como é evidente, a faculdade não é desse grupo. Esse grupo não tem nenhum direito intrínseco a organizar conferências na faculdade.
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De Anónimo a 08.03.2017 às 15:05

Completamente gratuita. Uma tentativa de análise, via grafologia, do grupo mentor da tentativa (esperemos que sim) de selecionar conteúdos culturais na dita Universidade.
.
#1- Um pseudo-lider. A pseudo liderança que quer apresentar não é pessoal, genuína, intrínssica do próprio. É de origem completamente exterior a ele.
#2- Um pouquichinho. Seguirá qualquer lider, ou causa, acriticamente, por necessidade, por incapacidade.
#3 - Um truculento. Tropeça mental e fisicamente em tudo. Tropeçou e caiu neste grupo. Agora.
#4- Um maroto, à escala de tal grupo. Quiçá o mais maroto do grupo.
#5- Um neófito destas coisas. Não fica muito tempo por este grupo.
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De Diogo Noivo a 09.03.2017 às 21:28

Não percebi. Se calhar também não é para eu perceber. Mas tenho a certeza que o anónimo não percebeu o que aqui escrevi.
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De Luís Lavoura a 09.03.2017 às 10:28

um grupelho, porque não gosta da pessoa que ia ministrar a conferência nem das pessoas que a organizavam

Esta história foi um bocado mal contada noutros sítios. Aqui está um pouco mais clara, mas mesmo assim obscura.

O ponto é que, a conferência em questão não foi (aparentemente) organizada pela universidade nem faz parte de qualquer plano de estudos dela.

A organização da conferência foi (aparentemente) de um grupelho político. Esse grupelho obteve a cedência de uma sala na universidade.

Ora bem, tanta legitimidade tem um grupelho para pedir que a universidade lhe ceda uma sala, como tem legitimidade outro grupelho para contestar tal cedência.

A universidade cede ou aluga as suas salas a quem quer. Não tem qualquer obrigação de as ceder ou alugar a grupelhos políticos de qualquer tendência.

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