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Igreja, Mulheres e Ecologia

por Cristina Torrão, em 18.04.19

No meu post sobre a Igreja Católica em crise, houve comentários para todos os gostos (aliás, nunca imaginei que a minha estreia aqui corresse tão bem, obrigada a todos). Como sempre, as opiniões divergiram, numa grande variedade de temas tratados, mas há dois que me merecem mais atenção.

Fiquei muito surpreendida por o comentador JAB duvidar da ordenação de mulheres na Igreja Evangélica Luterana: Mulheres ordenadas na Igreja Luterana? Não sabia... E penso que não é bem verdade (...) O facto de haver mulheres que pregam a Palavra (...) não significa que sejam ordenadas (...) encontro a designação de "esposa" colaboradora do Pastor luterano, mas não o de "pastora" nem muito menos sacerdotiza... e muito menos bispa.

Estava à espera que se discordasse, mas não de que se duvidasse. Como é óbvio, ouço as palavras "pastora" e "bispa" muitas vezes (em alemão), mas, como a minha palavra não chega, fui pesquisar. Primeiro, no Duden, o mais conceituado dicionário da língua alemã. Na Alemanha, quando se tem dúvida se alguma palavra existe, vai-se ao Duden:

Bischöfin
Substantiv, feminin - oberste geistliche Würdenträgerin einer evangelischen Landeskirche

Tradução: "Bispa" - substantivo feminino - o mais alto grau clerical numa secção da Igreja evangélica.

A palavra "pastora" é um pouco mais complicada, porque, na definição, aparece "Pfarrerin", que é o masculino de "Pfarrer", que por sua vez é o "padre" português:

Pastorin
Substantiv, feminin - a. Pfarrerin; b. Ehefrau eines Pastors

Tradução: "Pastora" - substantivo feminino - a. "Pfarrerin" (o tal padre feminino); b. Esposa do Pastor (como o nosso comentador referiu; JAB, porém, não sabia que a palavra pode ter dois significados).

O acaso acabou por me ajudar, aliás, ligado a uma notícia triste. O acidente do autocarro com turistas alemães, na Madeira, fez-me saber que uma mulher, Ilse Everlien Berardo, pastora luterana, lidera há mais de 30 anos a Igreja Evangélica Alemã na Madeira.

Não satisfeita, fui procurar as bispas alemãs. A Igreja Luterana não está dividida em bispados, mas em secções, ou regiões. As autoridades clericais que as regem nem sempre são apelidadas de "Bispos", também há as designações "Presidente" e "Intendente". Duas dessas regiões são regidas por mulheres: a Igreja Evangélica do Centro (com sede em Magdeburgo) é regida pela Bispa Ilse Junkermann e a Igreja Evangélica da cidade de Bremen pela Presidente Brigitte Boehme.

Passo agora ao segundo tema que causou polémica: a Ecologia tornar-se uma causa da Igreja Católica. Por acaso, a jovem sueca Greta Thunberg encontrou-se recentemente com o Papa Francisco. E hoje deparei com uma notícia alemã, informando que muitos bispos católicos alemães apoiam Greta Thunberg e os protestos "Fridays For Future". E também fiquei muito satisfeita ao ler que o Bispo Heiner Wilmer, que preside ao bispado de Hildesheim, a que pertenço (e do qual eu falei no meu post anterior) declarou, à agência dpa: «Sou de opinião de que a Igreja deve funcionar como advogada do movimento "Fridays For Future"».

Aqui vai o original em alemão, com o link: „Ich bin der Ansicht, die Kirche muß Anwalt der ‘Fridays for Future’-Bewegung sein“, sagte der Hildesheimer Bischof Heiner Wilmer der Nachrichtenagentur dpa.

Ainda há esperança para a Igreja Católica!

 

Nota: Quem não souber alemão, terá de confiar na minha tradução, o que poderá não ser fácil para alguns dos leitores deste blogue...

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15 comentários

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De Cristina Torrão a 02.05.2019 às 12:02

Olá, João Pedro, obrigada.

A sua pergunta é um pouco difícil de responder, pois, a par de um maior empenho em causas ecológicas, há outras coisas a considerar.

A primeira, é que os Verdes, na Alemanha, não têm a mesma imagem dos Verdes, em Portugal, ou seja, aqui, a ninguém passaria pela cabeça ligá-los a um Partido Comunista (mesmo estando mais conotados com a esquerda). Daí, estarem pessoas de cariz conservador mais à vontade para votarem neles.

A segunda, é o crescimento da extrema-direita, que muitos querem naturalmente impedir, mas que se sentem desiludidos com os partidos do "sistema". Esta será uma outra razão para pessoas que, tradicionalmente não são de esquerda, votarem nos Verdes, desiludidas que estão com a CDU de Merkel.

A nível político, são estas as razões que me ocorrem agora. Haverá outras, mas eu não sou propriamente uma analista política.

A terceira, tem a ver com a própria Igreja Católica alemã, disposta a proceder a várias reformas (incluindo a ordenação de mulheres), a fim de travar a fuga de crentes e as igrejas vazias. Em vez de insistir nos dogmas milenares, consciente de que não é com vinagre que se apanham moscas (passe a expressão), arranja causas que cativem mais, hoje em dia, sem, no entanto, abdicar dos seus princípios. Assim, a par das missões caritativas, do apoio a gente necessitada (que não passa apenas pelos pobres, mas também por refugiados, pessoas solitárias ou com outro tipo de problemas, incluindo do foro psicológico), decidiu apoiar também a causa ecológica, na medida em que a protecção do planeta e de todos os que nele vivem é proteger a obra divina. Na prática: se foi Deus que criou este planeta para nós vivermos, não será por Ele bem-visto que o destruamos, ou que não cuidemos dele convenientemente. Eu concordo. As próprias paróquias dão o exemplo, procurando formas de poupar gás, electricidade, contribuindo para a reciclagem do lixo e defendendo a agricultura biológica sustentada e a criação de animais de maneira digna. Por vezes, até vejo, no jornal católico que assino, sugestões de receitas vegetarianas, com o fito de diminuir o consumo de carne, uma das condições para tornar o planeta mais sustentável (atenção: o jornal não é contra o consumo de carne, mas pela sua diminuição).

Enfim, a Igreja Católica alemã procura sair da sua torre de marfim, a fim de estar mais próxima das pessoas e das suas vidas, tendo como exemplo o próprio Jesus Cristo.

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