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Ídolos tecnológicos com pés de barro?

por João André, em 12.01.16

Em 2015, os órfãos da figura tutelar que era Steve Jobs receberam um estímulo na forma de uma Steve Jobs no feminino e orientada para as Ciências da Saúde. Elizabeth Holmes, uma jovem empresária que deixou o seu curso em engenharia química em Stanford (que foste tu fazer Liz?...) para fundar a Theranos, uma empresa dedicada a produzir testes sanguíneos rápidos e baratos e assim revolucionar o mercado das análises clínicas.

Aquilo que levou às comparações com Steve Jobs foram a ambição e, aparentemente, um gosto por roupas pretas e com camisolas de gola alta para não perder tempo a escolher o que vestir. Todo o bom geek gosta destas coisas, especialmente quando resultou numa potencial fortuna pessoal de 4.500 milhões de dólares (cerca de 50% da Theranos, avaliada em 9 mil milhões).

Quando li pela primeira vez as notícias sobre a empresa e Holmes, confesso que fiquei céptico (é o meu estado normal) em relação ao assunto. A maior parte das notícias sobre soluções ou produtos revolucionários costumam ser puro hype criado por jornalistas analfabetos científicos e/ou por economistas do mesmo tipo que investem em tudo o que se mexe com esperança de acertar em cheio (estes costumam ter mais sorte - um sucesso pode muito bem mais que compensar vinte falhanços). Além disso pareceu-me que havia também demasiado entusiasmo em torno da figura de Holmes. Havia ali um odor a 1980's que me caía mal.

Vou-me explicar. A imagem do college dropout (os que abandonam a universidade) para criar a sua empresa solidificou-se com a vaga de empresas de software (e de hardware, embora menos) a surgir em Silicon Valley nos anos 80. A figura mais famosa era naturalmente Bill Gates, embora Steve Jobs tenha vindo a ocupar um pouco a imaginação, embora o tenha feito mais pelo estilo que pela substância. Nessa altura as Tecnologias de Informação estavam ainda na sua infância no que dizia respeito ao seu uso por não especialistas, pelo que a educação formal nesse campo era menos importante que noutros. Sendo assim, alguns autodidactas nessa área podiam tornar-se especialistas reconhecidos sem necessidade de completar os seus estudos. Esta imagem tornou-se quase o ideal romântico do tech entrepreneur.

O problema com isto é que essa imagem ignora os (prováveis) milhares que terão ficado no caminho. Que deixaram os estudos, tentaram a sorte com as suas empresas e, não tendo sucesso nem estudos, terão acabado a virar haburgueres no McDonald's (imagem excessiva, talvez). Noutras áreas que não as IT, esta necessidade de educação formal tornava-se ainda mais importante, dado que haveria pouco a criar e muito a descobrir. Infelizmente, a cultura entrepreneur presta pouca atenção a este aspecto, esquecendo que se a IT é uma criação humana, áreas como a electrónica, biotecnologia, mecânica, etc, resultam de estudar fenómenos naturais e estes precisam de ser compreendidos.

Claro que qualquer pessoa que tenha tido paciência de me ler até aqui entende onde quero chegar: ao sair da universidade, Holmes não se teria preparado convenientemente para a área onde queria actuar. Não quero inferir de imediato tal coisa, mas foi algo em que pensei: dificilmente alguma pessoa aos 19 anos entenderá o suficiente as áreas das Ciências da Saúde e Biotecnologia para criar uma tecnologia tão boa que se torne revolucionária (isto para não falar nas questões regulamentares.

Obviamente que Holmes poderia ser um prodígio técnico capaz de chegar longe com a sua ideia e, após convencer investidores, poderia também contratar o talento (formalmente educado) necessário aos seus objectivos. Isto é lógico. Pela história da Theranos terá conseguido pelo menos entusiasmar várias pessoas importantes (incluindo Kissinger, embora isto nada diga sobre a tecnologia) e terá avançado o suficiente para poder ter impacto quando a sua história se tornou pública. O facto mais famoso foi o contrato que acordou com a rede de farmácias Walgreens para criar centros de análises baseados na sua tecnologia Edison.

Esta era a história até há pouco tempo, quando se começou a noticiar que a Theranos andaria a fazer as análises usando equipamento da concorrência e que dos cerca de 200 testes da empresa, apenas um foi aceite pela Food and Drug Administration (agência dos EUA que regulamenta o uso de equipamento médico, entre outros). Além disso, apesar das mais de 100 patentes da empresa, poucos ou nenhuns métodos de análise teriam sido publicados em jornais científicos com peer review.

Claro que isto em si não significa muito. A Theranos poderá ter apenas ter querido dar passos mais longos que a perna e pode simplesmente precisar de uns tempos para ajustar os seus métodos. Afinal de contas, não estará a tentar começar apenas mais um restaurante, mas quer antes introduzir toda uma tecnologia (e metodologias) que poderão modificar a sua indústria. A forma como surgiu publicamente em 2015 poderá também ter sido uma estratégia para se valorizar e aumentar as potenciais verbas a angariar na sua próxima ronda de financiamento. Tudo isto é possível e será não só possível mas desejável que a Theranos de facto mude a indústria das análises.

Aquilo que parece evidente (a não ser que se seja de facto muito optimista) é que a Theranos - e Holmes por arrasto - serão para já um ídolo com pés de barro. Mesmo que acabem por se levantar e chegar aos píncaros a que a imprensa sensacionalista os colocou, para já poderiam servir de aviso: por muito que estas figuras sejam atraentes, a aposta mais segura para a esmagadora maioria continua a ser uma educação formal.

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7 comentários

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De Luís Lavoura a 12.01.2016 às 15:24

Bom post.

Já agora, conem também que se saiba que todos estes empreendedores maravilhosos estão de facto a fazer muito pouco: o crescimento da produtividade está estagnado, a revolução da internet parece já ter dado grande parte dos seus frutos e todos estes empreendedores com os seus produtos maravilhosos de facto pouco contribuem para aumentar substancialmente o bem-estar da humanidade.

Como já um economista fez notar, a máquina de lavar roupa foi uma invenção bem melhor, em termos de melhoria da qualidade de vida da espécie humana, do que a internet.
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De João André a 13.01.2016 às 08:45

Gosto dessa da máquina de lavar roupa. Tenho que procurar essa citação.

O problema da internet é que ainda não se conseguiu utilizá-la como a ferramenta que é. Tem sido apenas um objecto de curiosidade e aumentado o PIB apenas por via de actividades supérfluas (jogos, aplicações, marketing, comunicação) que podem ajudar mas não são fundamentais. Há no entanto aspectos em que começa a mudar o mundo, especialmente na forma como permite às máquinas comunicar entre si sem interferência humana, de forma a aumentar a produtividade (a internet of things).

Seja como for, neste caso a Theranos propõe-se a fazer algo de verdadeiramente benéfico: reduzir substancialmente os custos de análises clínicas, o que permitiria detectar doenças mais depressa (haveria menos reservas em fazer o teste) e de forma mais universal (em países mais pobres). Pode não ser o unicórnio de que se fala, mas espero que o venha a ser. Teríamos todos a ganhar com isso.
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De Peregrino a Meca a 12.01.2016 às 16:05

Também tenho seguido (de longe), por razões profissionais, a aventura de Theranos e da Elizabeth Holmes. Uma história ate aqui interessante e que o será mais no futuro, seja ou não bem-sucedida (talvez mais se não for bem sucedida). Ao aspecto interessante da educação formal, junto outro igualmente importante. A área da saúde é infinitamente mais delicada que aquela a que os tech starters dos anos 80 ou 90 se dedicaram. Basta ver os success story das start-ups biotech que foram bem-sucedidas para ver o perfil dos seus líderes.Algumas coisas são importantes aqui:
- Não há direito ao erro. Nenhum. Zero. O preço dos erros é brutal. Envolve o descrédito total ou ainda mais grave se se passar a linha
- O nível de inovação necessário é realmente enorme. Os grandes mastodontes da saúde não dormem nem são os pastelões que as pessoas as vezes pensam que são. Se houvesse assim tantos "low hanging fruits" há muito que teriam caído
- A complexidade da introdução de uma nova tecnologia e o tempo necessário para tal fazem um autêntico via crucis para o qual é necessário paciência, experiencia e muito talento. Não acessível a qualquer um. Numa grande ou mediana empresa do sector há centenas de pessoas envolvidas nesse processo

Assim, é de desconfiar de génios que prometem revoluções na saúde. Mas claro, podem sempre aparecer...
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De João André a 13.01.2016 às 08:48

Em relação aos low hanging fruits, a verdade é que são difíceis de identificar. Por vezes são ovos de colombo: toda a gente percebe a solução depois mas é preciso que alguém a aponte.

Na saúde a margem de erro é de facto mínima (não direi que é sempre zero), especialmente devido ao dano que pode causar a uma empresa. Na área da Theranos o risco é menor (não se está a introduzir nada de especial no corpo humano) maas o risco de se darem passos em falso e se prometer demais é grande.
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De Anónimo a 13.01.2016 às 09:24

O fundo é que em saúde há muito poucos ovos de colombo. Sinceramente. É de longe a área que mais progresso teve nos últimos 50 ou 100 anos. Mas mesmo de longe. Assim, os ovos de colombo são um pouco complicados.
É um facto que a área do diagnóstico pode parecer mais "simples" ou menos "delicada" visto que não se introduz nada. Mas se pensarmos no custo humano e económico de falsos positivos ou falsos negativos, já pode imaginar que não seja assim tão simples. O facto é que, mesmo nesta área, as regulamentações são draconianas (como a Theranos começa a descobrir) os castigos sem condescendência. Como assim pedimos às nossas autoridades e assim deveria ser. Mas uma vez mais, desejo imensa sorte para a Theranos para que possa aportar o que promete. O impacto nas sociedades mais ricas poderia ser importante, mas o que poderia aportar a países menos desenvolvidos séria enorme! (leitura "The Great Escape" oblige)
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De lucklucky a 13.01.2016 às 01:27

A importância de uma educação formal completa - reforço o completa pois é o que se discute aqui- depende da profissão/lugar e da capacidade da pessoa ser autodidacta.

Peter Thiel é um dos críticos da educação formal actual mas não tenho acompanhado o seu projecto de financiar ideias/negócios de estudantes.
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De João André a 13.01.2016 às 09:28

Antes de mais agradeço por não ter entrado pelo lado de "educação formal - educação estatal - pensamento autoritário".

Claro que uma educação formal nunca oferece todas as ferramentas. Aliás, não creio ser possível ter uma formação completa, apenas o mais completa possível. Neste caso a formação não necessita de ser completa (por exemplo, Holmes não necessitaria de saber de marketing: necessita saber de liderança para poder liderar pessoas que sabem de marketing), mas é necessária que seja abrangente.

Seja como for, não tenho a certeza que Holmes tenha tido uma formação formal suficientemente completa para os seus objectivos. Ser-se auto-didacta é importante, mas a vantagem de uma educação formal é que todos os objectivos da mesma estão à partida identificados e não haverá etapas que serão esquecidas. Além disso, a educação formal não impede que depois se obtenham outros conhecimentos de forma mais auto-didacta e até ajudarão a que isso seja feito (ensinando a aprender, por exemplo).

Eu sei que o lucky é a favor da liberdade individual a ponto de, possivelmente, ver com bons olhos o fim da educação formal. Eu não vejo as coisas assim e, mesmo estando completamente aberto a formas diferentes de educar, considero que - pelo menos em determinadas áreas - a educação formal e controlada (seja pelo estado ou por associações independentes de profissionais) é essencial. Claro que ainda há muito a descobrir e a aprender neste campo, mas isso é uma outra discussão.

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