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I&D e Inovação

por João André, em 26.04.17

Todos os anos a empresa onde trabalho tem um dia dedicado a criar novas ideias tecnológicas que possam ser usadas. Várias empresas são convidadas para apresentar ideias que sejam interessantes e, se existir potencial, poderão ser convidadas a participar de um projecto. Isto, claro, à parte quaisquer ideias ou projectos de I&D que sejam desenvolvidos internamente ou em colaboração com parceiros. O objectivo é apenas ter um dia dedicado a descobrir o melhor que existe em oferta no mercado.

 

No início do dia há sempre um convidado que faz um "discurso motivacional". Desta vez tivemos um convidado que falou sobre inovação em grandes empresas e como as grandes empresas frequentemente ficam tão presas no seu ciclo de sucessos passados e modelos de negócio que (até ver) funcionam perfeitamente, e deixam de investir em inovação. Para ilustrar o seu ponto de vista, pegou no relatório da PwC sobre inovação e apresentou alguns números.

 

Fê-lo também usando comparações entre empresas de indústrias semelhantes. Volkswagen vs Tesla, IBM vs Apple, Microsoft vs Google (Alphabet...), etc; e ia pedindo para indicar qual seria a empresa com mais orçamento de I&D e a mais inovadora. O top-10 em ambas as categorias na lista da PwC está abaixo.

 

i&d vs inovacao.JPG

Valores em milhares de milhões de dólares.

 

Nesta comparação, sublinhou como a VW tem o orçamento de I&D mais elevado do mundo, mas não consegue surgir nas empresas mais inovadoras. Foi aqui que me comecei a irritar com a apresentação. É já comum este tipo de "gurus" apresentarem conclusões baseadas em conceitos que formaram antes de elaborarem hipóteses, mas este caso aborreceu-me mais que o habitual. A razão para isso é simples: quis fazê-lo para demonstrar que investimento em I&D, mesmo como proporção das receitas, não correspondem a mais e/ou melhor inovação.

 

Nas palavras imortais do Dr. Homer Simpson: Duh!... Penso que qualquer pessoa o poderia dizer. Gastar dinheiro, só por si, não significa nada. Num caso absurdo, se a VW gastar mil milhões de dólares em bancos de células, poderia dizer que o gastava em I&D, mas provavelmente não melhoraria em nada a sua inovação.

 

O que falta na análise são duas coisas: a) como se define inovação e, b) como se qualifica o investimento de I&D?

 

Inovação

O livro do apresentador dá uma definição e muitas outras poderão ser usadas. No entanto, o ranking da PwC foi criado após consultas com especialistas em inovação. Ou seja, é um ranking completamente qualitativo e subjectivo e provavelmente ignorará os muitos milhares de empresas que são essencialmente desconhecidas e muito mais inovadoras que uma Apple ou uma Tesla.

 

Pense-se na Tesla. Qual a sua inovação? Não criou o conceito de carro eléctrico. Não produziu sequer o primeiro para venda. É um carro tecnologicamente avançado, mas não tem nada de excepcionalmente novo. Muitos "especialistas" em gestão de inovação apontam para o seu software, mas mesmo este nada tem de especialmente inovador. A principal inovação da Tesla foi no seu modelo de negócio - vender directamente ao consumidor - e mesmo este está a ser parcialmente abandonado. Há muitas outras inovações, é certo, mas não serão, no seu alcance e conceito, diferentes das de uma Ford que produz um novo motor a gasolina de 1.000 cc com 100 hp ou de uma Mercedes que cria um novo sistema de estacionamento automático.

 

O mesmo se pode apontar em parte para a Apple. O iPod não foi inovador pelo que trouxe - já existiam leitores de MP3 - mas pela sua qualidade e design e, essencialmente, pela sua ligação ao iTunes. O iPad não foi novo - a Microsoft tinha apresentado o seu Tablet PC em 2001 - mas foi apresentado não como um novo tipo de PC mas antes como um novo produto. Quando a Apple trouxe o iPhone para o mercado foi a primeira verdadeira e completa inovação tecnológica revolucionária que apresentou na sua i-Family. Não foi pequena e não pretendo menorizar o que foi feito, mas a percepção da inovação na Apple é influenciada pela forma como alterou a cultura popular. No entanto, a maior inovação que a Apple trouxe foi diferente e económica: o seu modelo de negócio. Conta, obviamente, como inovação, mas outras empresas que terão feito o mesmo e de forma mais influente (Google, Amazon, Facebook) aparecem abaixo da Apple.

 

Ou seja: na impossibilidade de colocar números no ranking de inovação, as empresas foras classificadas em função do élan que possuem. Dificilmente a melhor forma d emedir inovação.

 

O investimento em I&D

Este é um aspecto mais difícil de avaliar. Comparando com a VW com a Tesla, chegamos à conclusão que o orçamento da Tesla é cerca de 5% do da VW. Em parte isto deve-se ao tamanho das empresas. A Tesla tem cerca de 5% dos empregados da VW e um alcance das operações mais pequeno. Além disso, a VW está distribuída também no negócio das partes, tem divisões de serviços, logística, etc.

 

Além disso, a VW provavelmente terá uma forma diferente de qualificar os orçamentos, mais em linha com o de outras empresas alemãs (das que conheci). As empresas alemãs têm o hábito de considerar uma despesa de I&D tudo o que esteja tangencialmente relacionado com tal. Um novo equipamento, mesmo que já em tamanho industrial, será pago desse orçamento. O mesmo para todos os custos com ele relacionado (instalação, teste, início de funções, avaliação, manutenção, etc). O mesmo se pode dizer para actividades de debottleneckingtroubleshooting, (lamento mas não conheço termos portugueses) ou simples melhorias incrementais nos seus processos ou sistemas.

 

Outras empresas poderão não o fazer. Conheci empresas (especialmente americanas) que preferiam colocar qualquer investimento acima de um determinado valor (por exemplo, 200 mil dólares) na categoria de "investimentos", mesmo quando destinado a I&D. Isso automaticamente baixa o valor investido em I&D. Se a Tesla usar esta prática (e creio que a usa, olhando para o seu orçamento de I&D - baixíssimo), isto ajuda a explicar a sua diferença para a VW. Algumas outras empresas fazem outsourcing da investigação, decidindo quais as áreas interessantes e escolhendo parceiros. Isso transfere o investimento em I&D, que é indirecto, para categorias como "parcerias" ou "serviços".

 

Por outro lado, o investimento da VW em I&D é de 11,6% das suas receitas (12.3 mil milhões a dividir por 105,651 mil milhões), enquanto que o da Tesla é de 17,7%. O da Apple, no entanto, é de apenas 3,5%, o que pode ser resultado de receitas elevadíssimas ou de outras práticas de contabilidade financeira.

 

Eu não concluo nada de diferente de todos os gurus que decidem que não existe relação entre orçamento de I&D e inovação (por outro lado não sou nenhum guru nem aspiro a sê-lo). Só que olho para os valores de forma crítica. A VW ou a Microsoft são empresas líderes nas suas indústrias e que têm sabido reinventar-se constantemente, mesmo quando enfrentam revezes graves. Uma Tesla já poderá ser muito inovadora, mas não sei se existirá daqui por 10 anos (prevê ter quase todos os seus lucros para lá de 2020).

 

Quando se tenta avaliar inovação, convém, antes de tudo, olhar para tendências históricas e descobrir aquilo que foi feito de forma correcta no passado e tentar adaptar tais lições ao presente. A gestão eficaz não muda só porque a tecnologia muda. No entanto, para quem quer vender um livro, o mais importante são os próximos 50 minutos mais 10 minutos para perguntas.


6 comentários

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De Luís Lavoura a 26.04.2017 às 15:32

Já ouvi dizer que o Deutsche Bank é uma das empresas europeias com maior orçamento de I&D. E porquê? Porque eles contabilizam a produção de cada produto financeiro complexo que lançam para o mercado como I&D. E, de facto, é-o: um produto financeiro complexo (que, basicamente, é uma aposta sobre algum índice financeiro, por exemplo, uma aposta de que daqui a 30 meses a cotação de uma determinada ação vai estar acima de um determinado valor) requer bastante investigação de índices financeiros e bastante desenvolvimento de um produto adequado. Só que, trata-se de I&D totalmente improdutiva...
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De João André a 04.05.2017 às 12:22

Caro Luís, apesar do atraso prefiro não entrar na questão daquilo que constitui um produto "produtivo".

Mas sim: dependendo de como o orçamento de I&D é definido, teremos resultados distintos.
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De Anónimo a 26.04.2017 às 16:02

Há 24 anos consecutivamente.
Mas feitas as contas bolsa e dividendos são a pedra de toque.

"Today, IBM announced that, yet again, it stands supreme in the U.S. patent world, earning the most grants from the U.S. Patent and Trademark Office during 2016 and claiming the top spot among private entities for the 24th year in a row."

http://www.ipwatchdog.com/2017/01/09/ibm-record-number-u-s-patents-2016/id=76709/
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De João André a 04.05.2017 às 12:24

Nesse aspecto também já se chegou à conclusão que patentes são mau indicador. A empresa onde trabalhava anteriormente (alemã), media a contribuição das patentes para inovação calculando a percentagem de receitas oriundas de patentes (ainda válidas ou já expiradas).
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De Vento a 26.04.2017 às 21:07

Mas eu creio que o orador pretendia dizer isso mesmo que o João diz, isto é, não se pode confundir investimento em I&D com I&D. Esem investimento em I&D não há I&D.
Por outro lado o João pretende medir o sucesso da I&D com eventualidades futuras, e retira o carácter da Inovação que se patenteia no presente.

Estou convencido que o único problema nessa apresentação que nos dá conta reside no facto de você pretender que a base de discussão, bem como a projecção, fosse mais alargada ou estendida para outras temáticas, como por exemplo a do sucesso e consistência ou solidez das empresas nos mercados.

Bem no fundo a discussão gira em torno do seguinte exemplo: se eu tiver uma empresa com uma facturação pequena e dessa facturação resultar 30% de lucro, e se existir uma outra com uma facturação 15 vezes superior e retirar 3% de lucro conclui-se que a primeira é mais lucrativa, mas a segunda possui uma escala superior.
Significa isto que a amostragem que nos são dadas referem-se àquelas que são visíveis.
Todavia, em matéria de I&D, sabemos que todos os dias surgem muitas inovações sem que estas sejam conhecidas devido à escala. Por exemplo: a criação de uma nova receita de pastelaria que acaba por colher uma atenção especial do consumidor. Leva tempo e investimento até se acertar no ponto de agrado, e é inovação.
Portanto, e concluindo, a I&D é tão vasta que só se peca na abordagem por ser tão limitativa ou circunscrita. E foi isto que o deixou de certa forma frustrado sem se ter apercebido que era isto que o irritava.
Não se pode medir a I&D sob um prisma de sua utilidade e longevidade, mas também de sua aceitação e conforto, a todos os níveis. Tenha também mais ou menos calorias.

Um exemplo final:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Motor_Wankel
https://www.youtube.com/watch?v=6BCgl2uumlI
https://www.youtube.com/watch?v=g5FNjyaLfC8
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De João André a 04.05.2017 às 12:28

Para dizer a verdade, aquilo que me irritou foi algo que se vê hoje muito nas redes sociais: utilizar exemplos maus, errados ou falsos para avançar uma ideia. A ideia pode ser excelente, mas o simples facto de ser avançada com base em pressupostos falsos, deixa-me de imediato furioso.

Neste caso o orador perdeu a minha atenção porque quis usar um exemplo mal pensado (e potencialmente inválido, não sabemos) para concluir que de facto não existe relação directa entre I&D e inovação. Quando me apercebi disso, o orador ficou sem credibilidade aos meus olhos.

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