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Homens e mulheres para queimar

por Pedro Correia, em 17.03.16

Expendable29[1].JPG

 Cena do filme They Were Expendable, de John Ford (1945)

 

Fala-se muito na crise do jornalismo contemporâneo. Mas, entre os factores desta crise, é quase sempre omitido um dos principais: a gritante incompetência de muitos proprietários de órgãos de informação, que não têm cultura mediática e por vezes são totalmente destituídos de dinâmica empresarial. Usam títulos prestigiados dos media como mero veículo de promoção pessoal ou plataforma intermédia para negócios de outro tipo, ao ritmo voraz das ervas daninhas.

Por vezes são pessoas que não lêem um jornal e desprezam profundamente o universo jornalístico. Não têm sequer formação académica ou humanística que lhes forneça a convicção de que a existência de meios prestigiados de comunicação social é um requisito fundamental das democracias. E seriam incapazes de parafrasear Thomas Jefferson, que preferia a existência de jornais sem haver governo a um governo com ausência de jornais.

 

É imensa a lista dos periódicos desaparecidos no último quarto de século em Portugal. Boa parte deles foi confiada na pior altura às piores pessoas, que lhes ditaram ou apressaram o fim. O primado dos ignorantes e dos trampolineiros, rodeados de pequenas cortes de gente medíocre e totalmente divorciada da missão de serviço público que deve ser desempenhada pelos títulos jornalísticos, condenou muitos deles a uma acelerada extinção enquanto outros, já mortalmente feridos, vegetam em penosa e prolongada agonia.

Largas centenas de genuínas vocações jornalísticas foram amputadas ao longo destes anos em que assistimos ao maior êxodo de profissionais de que há memória neste ofício em contínua degradação salarial e social – aqui tão depreciado enquanto noutros quadrantes, como no Brasil, é cada vez mais valorizado.

 

O que vemos por cá? Jornalistas dispensados, afastados, saneados, emprateleirados, escorraçados. Só por terem experiência, cabelos brancos, pesarem mais na folha salarial – numa visão míope do custo/benefício. Enquanto é recrutada mão-de-obra quase escrava para as redacções – sem contratos, sem direitos, sem salários dignos. Nenhum jornalismo digno desse nome pode ser exercido, de forma continuada, em empresas onde existem editores a trabalhar 14 horas por dia, seis dias por semana, com todo o desgaste e o peso da responsabilidade que isso implica, e a levarem para casa 700 euros. Enquanto alguns dos proprietários ou administradores dessas empresas exibem obscenos sinais exteriores de opulência, indiferentes às situações de desespero humano que vão gerando em seu redor.

Conheço diversos jornalistas que comem apenas uma vez por dia para poderem pagar a renda ao fim do mês.

 

diario_nova.destaque[1].jpg

 

Por estes dias, mais um título prestigiado da imprensa portuguesa – o Diário Económico – atravessa um momento gravíssimo.

Foi mal gerido, mal administrado, mal dimensionado por quem quis dar o passo maior que a perna. Sobreviveu a múltiplas crises internas que se somavam às naturais dificuldades provocadas pela reconversão tecnológica do sector e à endémica crise financeira da última década. Mas, como outros antes dele, foi duramente atingido pela incompetência de um dos William Randolph Hearst de pacotilha que pululam por aí – desses que abrem e fecham jornais como se fossem mercearias ou lojas de penhores sem nunca deixarem de pavonear-se nas festas da moda.

Há meses que no Económico os salários deixaram de ser pagos com regularidade. Muitos profissionais abandonaram entretanto o jornal. Mas vários outros permanecem lá, com a angústia que adivinho. Sentem-se como aqueles soldados do filme de Ford, They Were Expendable (Homens Para Queimar, na versão portuguesa). As dificuldades são tantas e o desrespeito da entidade patronal por eles é tão notório que cumpriram um dia de greve no passado dia 10. Sem meios, sem motivação, sem perspectivas de futuro, cada edição que vai saindo tornou-se um pequeno milagre quotidiano.

Leitor regular do jornal que sou, e amigo de alguns, é para todos que envio um forte abraço solidário. Eles, os que sofrem, são a parte boa do empreendimento. Enquanto quem os colocou nesta situação, a erva daninha, se comporta como se fosse digno de apreço público. Sem sobressaltos de consciência, sem um pingo de vergonha.

 

ADENDA: o Diário Económico publica amanhã a última edição em papel.


24 comentários

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De jj.amarante a 17.03.2016 às 14:24

Certamente que a culpa é do funcionalismo público, dos pensionistas ou do próprio Sócrates, os mercados têm continuado a funcionar muito bem.
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 22:55

Presumo que haverá uma intenção irónica nas suas palavras. Infelizmente sou incapaz de a descortinar.
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De jj.amarante a 18.03.2016 às 00:56

O que eu estava a querer dizer é que, ao contrário do que durante anos os media nos tentaram fazer acreditar, os problemas principais do nosso país não eram nem os funcionários públicos, nem os reformados nem o Sócrates nem sequer a intervenção do Estado na actividade economica visto que este jornais privados geridos por administradores escolhidos pelos proprietários foram mal geridos e acabaram por falir. Os media não conseguem passar a mensagem que temos maus gestores que não merecem o que ganham e que é imperioso e urgente alterar esta situação. Na Alemanha até andaram a discutir a definição dum salário máximo embora tenham por ora abandonado essa ideia.
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De Pedro Correia a 18.03.2016 às 22:34

Isso vem ao encontro do que escrevi.
Peço desculpa pelas autocitações:
«Fala-se muito na crise do jornalismo contemporâneo. Mas, entre os factores desta crise, é quase sempre omitido um dos principais: a gritante incompetência de muitos proprietários de órgãos de informação, que não têm cultura mediática e por vezes são totalmente destituídos de dinâmica empresarial.»
«Enquanto alguns dos proprietários ou administradores dessas empresas exibem obscenos sinais exteriores de opulência, indiferentes às situações de desespero humano que vão gerando em seu redor.»
«Foi duramente atingido pela incompetência de um dos William Randolph Hearst de pacotilha que pululam por aí – desses que abrem e fecham jornais como se fossem mercearias ou lojas de penhores sem nunca deixarem de pavonear-se nas festas da moda.»
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De sampy a 17.03.2016 às 14:41

Não deixa de ser irónico.
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 22:56

Amargamente irónico. Um projecto jornalístico centrado na economia acabar sem oxigénio financeiro. Pela estrita incompetência de quem o administrou e geriu.
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De Teresa Ribeiro a 17.03.2016 às 16:27

Tocas em vários pontos sensíveis que são raramente abordados com esta clareza. Sei do que falas, bem demais.
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 22:58

Infelizmente a incompetência dolosa de tantos proprietários de títulos jornalísticos - vários deles logo recompensados com benesses e mordomias várias - tem sido um dos principais factores do fim de tantos títulos da nossa imprensa, Teresa.
Ninguém fala sobre isto. Ninguém escreve uma linha sobre isto. Tema tabu.
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De Luis Eme a 17.03.2016 às 17:08

Tanto que havia a dizer sobre isto, Pedro.

Quando alguns senhores com dinheiro e até políticos acham que a compra de jornais resolve alguns dos seus problemas, até com a justiça, tudo o resto de torna secundário...

Acabou-se praticamente com o jornalismo de investigação. O sensacionalismo e as "gargantas fundas" da justiça (muitas vezes com meias-verdades...) têm destruído a credibilidade daquele que deveria ser um dos principais "edifícios" de um estado democrático.
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 22:59

E no entanto sem jornalismo não existe democracia, Luís. É tão essencial como os partidos políticos.
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De jo a 17.03.2016 às 18:27

A preocupação com o custo/benefício à custa dos salários não é exclusiva do jornalismo.

Não se pode dizer durante anos que andámos a gastar acima das nossas possibilidades e depois gritar: os jornalistas não, esses não!

De que se queixam? Não há dinheiro, não recebem.

Veja isto pelo lado bom: pelo menos já há alguns jornalistas económicos que aprenderam que a lei da oferta e da procura não pode ser a única coisa que conta.

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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 23:00

Neste caso, como em vários outros, não há "mão invisível". A mão que destroçou este projecto jornalístico - durante anos líder incontestado do seu segmento - é bem visível. Mesmo que possa ter alguns dedos escondidos.
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De lucklucky a 17.03.2016 às 18:50

Tudo errado. Nos jornais e no texto.

O Jornalismo não é mais que um maneira de nos fazer acreditar que a Política é a nova religião que salva o mundo. Nada mais.

Por isso é que um jornal não tem especialista em propulsão para informar os leitores da evolução tecnológica nessa área, por isso é que não tem um especialista em materiais/engenharia, por isso é que não tem um especialista em energia, em saúde, segurança, etc etc.
Não tem porque informar não é o objectivo do jornalista e do jornal.

O Jornalismo é o maior problema do Ocidente. E a prazo do Mundo.
O Jornalismo promove a politização da sociedade em todos os seus detalhes.
Politização que leva a excessivo poder do Estado, vencedores e vencidos e levará inevitavelmente à Guerra Civil ou outra.

A realização, criação e invenção das pessoas deveria estar em primeiro plano a política deveria estar em plano secundário.
E que ninguém se orgulhe de ser político, alguém orgulhar-se de usar a violência para obrigar alguém a pagar a taxa da RTP?
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 23:02

"O Jornalismo é o maior problema do Ocidente." Você, a escrever, por estes dias parece o ex-presidente Lula no Brasil a falar. Acossado por um jornalismo que precede as autoridades judiciais na denúncia permanente de casos endémicos de corrupção no Brasil.
O sonho de vários políticos seria que o jornalismo terminasse. Parece ser também o seu.
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De lucklucky a 19.03.2016 às 15:18

O jornalismo não é o que diz ser que é.

Não passa de um acelerador de política em vez de o que diz ser: informação.

O jornalismo tem de censurar inúmeras actividades humanas inconvenientes para a promoção da política.
Este é o seu principal objectivo. Promover a política como única solução para os males.

O Jornalismo vai destruir a Democracia ao forçá-la a ser Totalitária.

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De Pedro Correia a 20.03.2016 às 08:56

Totalitária, ao contrário do que sustenta, é a ausência de jornalismo. Você inverte os mais elementares dados factuais sem fazer um esforço mínimo para tornar verosimilhantes as suas teses. O achismo em estado terminal.
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De WW a 18.03.2016 às 02:08

É a vida Pedro Correia ou é só defender para os outros aquilo que não se deseja para nós...pensamento esse que tem destruido a sociedade por dentro.

Aquela metáfora da criação que mata o seu criador também é muito apropriada.

Não tenho a menor pena por quem durante anos e anos vendeu um filosofia de vida baseada nos mais básicos e vis instintos e agora é apanhado por eles e digo isto porque não me apetece ser minimamente correcto e apelar aqui para o chavão economia de mercado em que os melhores sobrevivem quando o mesmo já não pode ser aplicado desde 2008 em que obstinadamente se permite que empresas falidas se mantenham a tona a custa do sofrimento de milhões.

P.S. - Ao escrever isto " Enquanto é recrutada mão-de-obra quase escrava para as redacções – sem contratos, sem direitos, sem salários dignos " você parece um comuna dos sete costados mas habitue-se é o Ajustamento...
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De Pedro Correia a 18.03.2016 às 22:41

Falo da incompetência de administradores e de ocasionais proprietários de jornais. Nomeadamente deste proprietário em concreto. Que afundou um título líder no seu segmento de mercado, geriu-o pessimamente e preferiu que encerrasse em vez de permitir que outros o viabilizassem.
Faz algum sentido, a partir disto, partirmos em espadeirada contra a economia de mercado? Ou você acha que se tudo fosse propriedade do Estado, como em Cuba ou na Coreia do Norte, assistiríamos ao milagre da multiplicação da competência? Passa-lhe pela cabeça que nos países onde predomina o Estado-patrão subsiste algo a que possamos chamar imprensa livre?
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De WW a 18.03.2016 às 23:37

Apontar o dedo a este dono em particular revela mesmo falta de argumentação, dizer que este é que foi mau e tudo a ele se deve é o mesmo que faz um sindicalista quando a fábrica fecha e imputa toda a culpa ao ultimo administrador esquecendo a realidade geral que tudo rodeia. Quem não lhe garante que este ultimo dono não vai abrir outro jornal como tantas vezes foi feito por empresários que fecharam as suas empresas e abriram noutros sitios até com ajudas estatais.
O Pedro Correia por muito que queira não pode pedir sequer pena para gente que sabe (devia saber pela instrução que tem de base - humanidades) que o que fez / faz em muitos jornais é ERRADO e nalguns casos criminoso ao passar informações erradas / deturpadas para o comunidade geral contribuindo assim para falsas ilusões ou estados depressivos generalizados. Nestes dias que estive fora sujeitei-me a comprar o "Expresso" e é de lamentar a informação que é dada e como é dada, eles na redacção devem pensar que estão a escrever para quem compra o CM todos os dias...
O DE (tal como o negócios) deveriam ter sido os 1º a alertar-nos para a iminência do estoiro dos bancos / grandes empresas nacionais, isso não aconteceu logo não são independentes / ISENTOS e por isso não têm a confiança do mercado devem falir, simples.

P.S. - Os trabalhadores do NB que irão para o desemprego só tem de lamentar-se por terem seguido as instruções criminosas dos seus chefes, agora não têm onde agarrar-se nem sequer a uma suposta idoneidade que teriam se tivessem sido chutados antes...

P.S. - Eu gosto de economia de mercado mas como a mesma já não existe desde 2008 só me resta apontar os podres da actual situação.
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De Pedro Correia a 20.03.2016 às 09:05

1. Falar em casos concretos - ao contrário do que sucede consigo - é "falta de argumentação"?
2. Estoirar bancos é mau mas estoirar jornais é bom?
3. Não devem ser atribuídas responsabilidades a quem administra e detém um título jornalístico por gestão danosa e até dolosa?
4. Um jornal vai à "falência" em 2016 por ter "perdido a confiança do mercado" - supostamente não existente desde 2008, ano em que a "economia de mercado" terminou?
4. NB? Quem é NB? Nicolau Breyner?

Enfim...
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De Anónimo a 18.03.2016 às 10:57

Você não está felicíssimo?? O Mercado a funcionar, e tal...
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De Pedro Correia a 18.03.2016 às 16:24

Estou felicíssimo. O mercado dos anónimos está cada vez mais pujante.
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De Anónimo a 18.03.2016 às 16:32


A mão invisível sou eu!
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De Pedro Correia a 18.03.2016 às 16:40

A mão não sei. Mas, quanto ao nome, confirmo: é mesmo invisível.

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