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Homenagem ao Albano (1955-2015)

por Pedro Correia, em 19.02.15

Em cima da hora, com bons reflexos jornalísticos, o Fernando falou ontem dele aqui. O DN traça-lhe hoje um extenso perfil que lhe presta homenagem.

Albano de Melo Matos (1955-2015) foi um dos mais competentes jornalistas da sua geração ao longo de um percurso profissional que tive ocasião de acompanhar desde o início. Um percurso que se estendeu durante três décadas e meia -- incluindo 26 anos no Diário de Notícias, onde só não exerceu funções na direcção: foi editor executivo adjunto, grande repórter, editor da cultura e editor do internacional, além de membro do Conselho de Redacção.

Era uma das melhores penas da imprensa portuguesa, como reconhecem colegas dos mais diversos quadrantes. E desapareceu demasiado cedo do convívio dos leitores -- razão primeira e última da profissão de jornalista quando é exercida com manifesta vocação, como era o caso.

Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa "reestruturação" (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.

 

Jornalista Albano Matos morreu aos 59 anos

Foto Leonardo Negrão/DN

 

Pagou por ter vestido a camisola do centenário matutino num tempo em que isso não é encarado como qualidade mas como defeito: quem acaba de chegar passa sempre à frente.

Pagou também por não ter visto reconhecido internamente o talento que todos no exterior lhe reconheciam nesta era em que a experiência e a memória são varridas sem remorso das redacções dos jornais, que se tornam cada vez mais amnésicas e monolíticas.

Pagou também por ter padecido de excessiva modéstia -- ele, que era tão orgulhoso -- num tempo em que qualquer mediocridade avulsa se pavoneia sem pudor em bicos dos pés.

 

Durante anos, alimentou o sonho de escrever um romance. Até já tinha título: Uma Italiana em Nova Iorque. Mas não concretizou o sonho devido a outra virtude que acabava por virar-se contra ele: não se levava excessivamente a sério. E respeitava demasiado os escritores (José Cardoso Pires, Nuno de Bragança, Mário-Henrique Leiria, por exemplo, brindando sempre ao catalão Manuel Vásquez Montalbán, outro dos seus eleitos) para se imaginar um deles. Embora não lhe faltasse a verve literária, patente em qualquer dos seus textos. Por vezes até em legendas ou títulos. Lembro-me sempre de um deles, quando escreveu o perfil do Professor Horus, um "vidente" que nos anos 80 esteve muito na moda e fora praticante de pugilismo na juventude: «O astrólogo que veio do boxe».

Bastava ler o título para se perceber que era "do Albano", como todos lhe chamávamos -- sem adornos nem adjectivos escusados, à semelhança da sua escrita. Como bastava ler as linhas iniciais de qualquer artigo, mesmo sem assinatura, para se detectar que vinha dele.

 

Parte demasiado cedo, com apenas 59 anos -- separado abruptamente da profissão que amou e serviu com espírito de missão. Merecia -- e merece -- ver uma colectânea de textos seus editada em livro. São tantos, e tão bons, sepultados nos arquivos de diversos jornais - desde a Reconquista, da sua terra natal (Castelo Branco), até ao DN. Passando pelo Tempo, onde o conheci em 5 de Dezembro de 1980 -- horas após a trágica morte de Francisco Sá Carneiro, data que prenunciava um destino jornalístico para qualquer dos dois.

 

Espero que esse livro venha a ser editado. E tomo a liberdade de transcrever já aqui um desses textos, com a devida vénia à sua memória.

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AS BESTAS CÉLERES

«Leio, semana a semana (até por dever de ofício), as listas dos livros mais vendidos em Portugal. Apesar das naturais diferenças de uma cadeia de livrarias para outra, essa lista tem uma lógica coerente ao longo de quase todo o ano. Uma lógica que obedece a critérios de promoção, notoriedade do autor, tema mais ou menos na moda, ainda que por razões extraliterárias, etc. Por muito que isso custe a muito boa gente, é até inevitável que assim seja tratando-se de uma lista de livros mais vendidos, é natural que prevaleçam os critérios que presidem à lógica do consumo e do mercado e que seja quase invisível a influência de uma crítica hoje dispersa, errática, amiguista, pouco profissional.

Quando chega o Verão, porém, qualquer aparência de lógica desaparece. Ou as montras das livrarias se põem a dançar com volumes colocados de forma arbitrária ou os compradores rompem subitamente com os seus interesses habituais, a verdade é que as listas de best-sellers se enchem com títulos estranhos, obscuros, inesperados. Mais do que o costume, é nesta altura que faz todo o sentido a célebre expressão de Alexandre O'Neill a "besta célere".

De facto, quando a "besta célere" parte em desfilada não há tendências literárias que se aguentem. Só poderemos lamentar o desperdício de tanta floresta. Como se não fosse já suficientemente trágica a perda de tanto hectare nos incêndios.

Do mal o menos a "besta célere" é, por definição, o livro que todos compram mas ninguém lê. No regresso a casa, já voou e outros candidatos se acotovelam nas livrarias, lançando das capas, cada vez mais berrantes, convite ao potencial freguês.

A "besta célere", escrevia O'Neill, "é feita a pensar num leitor 'espremido' por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha."

Apesar de tudo, passada a onda, um resquício de racionalidade regressa ao mercado e mesmo as "bestas céleres" adquirem uma certa patine.»

 

Diário de Notícias, 14 de Agosto de 2005


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