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Hoje, na Visão

por Patrícia Reis, em 20.03.14

DOM JOSÉ POLICARPO

(1936-2014)

O cardeal que não queria ser Papa

 

O patriarca emérito de Lisboa morreu no dia 12, durante uma cirurgia, devido a um aneurisma da aorta. Foi sepultado em São Vicente de Fora, no panteão dos patriarcas

 

 

A minha vocação sacerdotal vem desde miúdo e o modelo era o prior da minha aldeia [Alvorninha, Caldas da Rainha, onde nasceu]. Era um homem que nos marcou a todos. Nunca pensei chegar a cardeal. Preparei-me para ser o melhor possível no que faço, sempre com um sentido de serviço.

 

A memória mais antiga que tenho é a morte da minha avó paterna. Lembro-me da imagem dela na cama onde morreu. Eu tinha três anos. Com a mesma idade, lembro-me do meu pai ter chegado a casa anunciando o início da Segunda Guerra Mundial. Vivemos um século XX carregado de atrocidades, porém com coisas igualmente maravilhosas e apaixonantes. Recordo que vivemos com profundo entusiasmo o Concílio Vaticano II, processos de paz e aproximação de nações, o desenvolvimento da ciência, da medicina, das tecnologias.

 

O mundo é complexo. Eu sou do tempo da segunda guerra, da guerra fria, da bomba atómica... Houve passos importantes, como a autonomia dos povos e o fim do colonialismo. Apesar dos percalços houve períodos de otimismo. Nos últimos anos, o horizonte ficou mais negro. A minha primeira reação é tentar salvar a esperança. A Humanidade tem a possibilidade de vencer, mas também a possibilidade de se autodestruir. A dimensão da esperança é essencial.

 

A Igreja Católica é, no mundo de hoje, o último baluarte na defesa de uma ética e de valores transcendentes. Às vezes fica acantonada, dá ideia de ser retrógrada, mas é, realmente, este baluarte de defesa. Nunca assumi, no meu percurso de Fé e intelectual, um conflito entre a Fé e a Ciência. São dois universos diferenciados que têm de convergir naquilo que é fundamental: o sentido e a verdade do Homem. Não há dúvida que a Ciência é um bem precioso para a Humanidade.

 

No caso da sexualidade, julgo que devemos ensinar duas coisas: que as soluções facilitantes não levam a nada e que é preciso aprender a amar. É importante descobrir a generosidade do amor. Aquilo que se complica na comunicação da doutrina da Igreja é quando surge reduzida à casuística, traduzida em casos. A doutrina é mais ampla. É o desafio da liberdade, do amor e da dignidade do Homem.

 

O pecado supõe uma opção de consciência, quando sabemos que estamos a fazer o pior. Há circunstâncias em que as pessoas fazem o mal sem pecar, porque já não têm a clarividência de consciência, nem a liberdade interior para optar. O pecado, no sentido teológico do termo, é uma opção.

 

Ser católico é muito exigente. Sempre foi e continua a ser. É um caminho de audácia. Digo que é difícil, contudo também afirmo que é um caminho libertador, porque quando o experimentamos e o percorremos traz-nos tanta alegria, abre de tal forma o horizonte e o sentido da vida, que vale a pena.

 

Há muito tempo que espero um movimento dentro da Igreja que há de ajudar a purificar o Conselho Vaticano II. É um movimento inevitável de verdade e visão da Igreja no mundo.

 

Houve um momento em que se especulou sobre a possibilidade de ser escolhido para suceder a João Paulo II. Rezei muito a Nosso Senhor para que me protegesse... Um conclave é um momento único. Foi uma experiência extraordinária. No meu caso concreto, senti muito o efeito da pressão da comunicação social. Foi de tal forma que eu, que por norma resisto bem a este tipo de situações, comecei a ficar nervoso. Depois entrámos em conclave e a coisa pacificou. Não posso contar o que ali se passou... Mas fiquei muito contente por voltar para casa.

 

Penso que valeu a pena seguir o caminho do sacerdócio. Poderia ter sido melhor, mais perfeito na maneira como servi a Deus e aos irmãos, mas julgo que valeu a pena.

 

Quando me perguntam o que vou fazer a seguir, digo sempre: só sei o que não vou fazer. 

 

Acredito em Deus. Acredito que o mundo depende mais de Deus do que dos homens.

 

 

Excertos de uma entrevista de Patrícia Reis, publicada na revista Portefolio, da Fundação Eugénio de Almeida


5 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 20.03.2014 às 21:24

Que oportuna síntese, Patrícia!
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De Patrícia Reis a 20.03.2014 às 22:11

Obrigada, Helena! Beijo
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De Miguel a 23.03.2014 às 01:14

"Acredito que o mundo depende mais de Deus do que dos homens." O problema fundamental do Cristianismo em doze palavras. Há mais de 2000 anos a espalhar ódio pela humanidade em nome de uma abstracção.
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De Patrícia Reis a 23.03.2014 às 01:21

Miguel, teremos de concordar que discordamos. Ódio? A mensagem de Cristo é de amor e é assim que a entendo. Mas, dito isto, a ser católico não é fácil, ser cristão é mais fácil. O concordar que discordamos, não tem mal algum, é a vida, podemos sempre fazê-lo com elegância e civismo. Um bom fim-de-semana
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De Miguel a 23.03.2014 às 12:33

Podemos discordar, certamente. Como sem duvida também discordaremos sobre o vasto e historicamente documentado fosso entre a mensagem original e o comportamento daqueles que arrogaram para si o papel de serem os seus vedores. O Cristianismo, nas suas variadas reiterações, concebe o mundo como uma lixeira da qual devemos fugir para um paraíso através da abnegação dos sentidos humanos. Graças a essa mentalidade, que desdenhou o terrenal em nome do espiritual por séculos, viveram por séculos embotadas as ciências que aumentaram o nosso conhecimento do mundo; graças a esse ódio ao corpo, recusou a Madre Teresa de Calcutá apoios para modernizar os seus hospitais de trazer por casa, que pareciam ter parado no século XIX, onde às pessoas eram dados catres para morrerem sem qualquer ajuda médica, pois era mais importante apressar a fuga do espírito que vivia cá na leixeira do que salvar o corpo onde ele estava preso. Mas sem dúvida também discordaremos da tese de Christopher Hitchens sobre a ilustre albanesa.

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