Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Hoje é tudo mais clean

Teresa Ribeiro, 11.12.16

 

29.jpg

 

Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

9 comentários

Comentar post