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Nunca me tinha acontecido. É meio-dia e meia, como de costume ando na rua em manhã de domingo, e preparo-me para rumar a casa quando só então me lembro que estamos em dia eleitoral. Isto diz muito sobre a falta de motivação para participar nesta consulta destinada a escolher os nossos próximos 21 representantes no Parlamento Europeu.

Lá me encaminho para o bairro de São Miguel, um dos mais acolhedores de Lisboa, que visito sempre com gosto em dias de chamada às urnas, temperado por uma saudável dose de inveja: bem gostaria de viver aqui.

Na escola básica, secção n.º 3, exerço o direito de voto. Tudo quase vazio, em ambiente de modorra dominical: ninguém diria que hoje é jornada de mobilização cívica. Encontro duas ou três pessoas conhecidas, muito menos do que é costume: fala-se da conquista da Taça pelo Sporting, dos petiscos que apetece ir provando, do calor que já aperta.

Exerci um direito, cumprindo um dever: revejo-me nesta dicotomia e sinto-me incapaz de justificar o discurso pró-abstenção que por aí campeia. Como se fosse indiferente à cidadania sermos ou não representados por dirigentes que resultam do sufrágio universal.

Neste dia, pensemos nas regiões do planeta povoadas por centenas de milhões de pessoas a quem é negado o direito ao voto. Pensemos nas ditaduras que ainda dominam vastas extensões do mundo. Em países como China, Síria, Irão, Bielorrússia, Guiné Equatorial, Coreia do Norte, Azerbaijão, República "democrática" do Congo, Arábia Saudita, Vietname, Argélia, Cuba ou Usbequistão.

É quanto basta, creio eu, para nos motivar a exercer o voto. Seja qual for a nossa escolha.

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