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Histórias de bloqueios e fracassos

por Luís Naves, em 03.09.16

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Uma frase

“Este é um momento difícil para a UE e nós, que somos a favor da União Europeia e não desistimos, não passamos uma certidão de óbito à UE, nós temos a responsabilidade de trabalhar no sentido de apontar caminhos, encontrar respostas e intervir para que a UE siga em frente”.

Jaime Gama, dirigente do PS, antigo presidente da Assembleia da República

Observador

30 de Agosto de 2016

 

Um post

Leio as crónicas de Pedro Rolo Duarte sempre com imenso prazer. O autor tem um blogue fantástico com o seu nome, mudou agora o grafismo e o resultado ficou ainda mais agradável. Este post explica tudo e inclui uma ‘carta de princípios’ que resume o espírito do bom jornalismo.

 

A Semana

Domingo, 28 de Agosto de 2016

O Partido Popular de Mariano Rajoy e o Ciudadanos de Albert Rivera chegaram a um acordo que visa acabar com o impasse na escolha do novo governo espanhol, mas as expectativas são baixas. Rajoy ficou a seis votos de garantir a maioria e dependerá (nas duas votações que se realizam esta semana) do apoio ou abstenção de outros partidos. Rivera arrisca-se a ser visto como a muleta do PP e pode ser penalizado por um futuro voto útil. As contas da investidura são complexas e apontam para o fracasso da solução de centro-direita, o que implicará dois meses de negociações e alta probabilidade de novas eleições. Contra o conselho de antigos líderes e a vontade do seu eleitorado, o PSOE manteve a oposição a um governo liderado por Rajoy, mas a estratégia do líder socialista, Pedro Sánchez, é de alto risco. Sendo remota a hipótese daquilo a que alguns chamam o Governo Frankenstein (geringonça idêntica à portuguesa, mais independentistas bascos e catalães), a Espanha pode ter uma terceira edição de legislativas em cerca de um ano, o que coloca graves problemas, nomeadamente atraso no orçamento e nas políticas económicas, falta de dinheiro em autonomias dominadas pelos próprios partidos da oposição. O jornal El País sintetizava o dilema dos dois maiores partidos espanhóis: um não tem votos suficientes, o outro não consegue criar uma alternativa. Veremos nos próximos dias, mas a Espanha pode ter entrado num pântano.

 

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

É uma verdade de La Palisse, que parecia evidente desde que a geringonça foi criada: a Europa é o factor que limita a acção da aliança dos partidos à esquerda, como constatou agora José Manuel Pureza, nesta entrevista. Para o dirigente do Bloco, o cumprimento das regras de Bruxelas obrigará em breve a escolher entre desobediência externa ou ruptura interna. Ninguém com lucidez acredita na hipótese de cumprimento das regras europeias e obediência simultânea ao acordo tripartido. Esta contradição explica que os partidos à esquerda estejam a radicalizar o discurso de contestação à UE, algo que já entrou inclusivamente nas conversas de rua, com muitos cidadãos a acreditarem ingenuamente que a origem dos nossos problemas está numa Europa que se fragmenta. O governo minoritário do PS é pressionado pelos parceiros para desafiar as instituições europeias e seguir uma via distinta da que vigorou em Portugal desde a adesão às comunidade e que não passa, em grande medida, de uma criação do próprio PS. O novo eurocepticismo socialista é instrumental, retórico, pouco convicto, é um ‘não fazemos’ que procura manter o generoso acesso aos fundos comunitários, à livre circulação e mercado único. O caso dos partidos à esquerda do PS tem aspecto diferente: comunistas e bloquistas acreditam que só  fora da UE podem construir uma sociedade socialista.

 

 

Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Para um pequeno país, a ideia de hostilizar a União Europeia é uma fanfarronice, mas começa a ser aceite em Portugal, não apenas pelas elites mediáticas que ocupam jornais e redes sociais. Bastará pensar um pouco para perceber que a UE não obtém qualquer vantagem da pobreza nacional, no entanto a esquerda continua a repetir que as políticas impostas por Bruxelas visam o nosso empobrecimento propositado. Em resumo: está em vigor desde 2011 uma espécie de plano sem função aparente que pretende proletarizar os portugueses.

O que querem de facto os europeus? Querem um Portugal mais próspero e estável que não precise da sua ajuda financeira, que possa comprar os seus produtos e produzir algo em troca. Isso será possível quando o país fizer as reformas estruturais que lhe permitam ser mais competitivo e ter contas equilibradas a médio prazo. Sem um mínimo de reformas, teremos constante falta de dinheiro, desequilíbrio externo crónico e dívida galopante. Financiar o Estado social será impossível e, mais tarde ou mais cedo, o país ficará sem acesso aos mercados capitalistas e precisará de novo resgate.

Nas narrativas distorcidas que entraram na discussão pública, nada disto se verifica. Pelo contrário, os neo-liberais ascenderam ao poder na Europa e seguem uma cartilha de castigo cruel a todos os países e povos que se recusem a aceitar o empobrecimento. Estas ideias são marteladas continuamente, ignorando factos contraditórios, por exemplo: os socialistas estão no poder em França e Itália, partilham o poder em coligações na Alemanha, Áustria. Holanda, Finlândia, Suécia e Luxemburgo, entre outros. Reúnem os votos suficientes para travar qualquer política na zona euro que lhes desagrade, pelo que a ideia de que a Europa é dominada por neo-liberais é simplesmente falsa. No Parlamento Europeu, na Comissão e no Conselho Europeu (o órgão decisivo) domina o consenso centrista entre democratas-cristãos e social-democratas, um pouco à imagem do governo alemão, que é efectivamente um Bloco Central.

 

Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

O PS é um partido do consenso europeu, como sugere a intervenção de Jaime Gama, de dia 30, referida mais acima. Os recados do antigo presidente da Assembleia da República ao PCP e BE podem ser o sintoma da divisão da esquerda nacional entre dois grupos cada vez mais distanciados, a linha reformista e a linha revolucionária. Para os reformistas, é absurdo renunciar à UE e condenar o país ao isolamento, como no fundo pretendem os revolucionários, que um dia não vão aceitar mais cedências às políticas europeias. Nessa altura, acusarão o PS de traição ao acordo da esquerda, capitalizando o crescente cepticismo da população em relação à integração europeia.

Em cada dia, há um dirigente da esquerda a fazer um ataque à UE, mas a discussão sobre Europa não é um exclusivo português. Na campanha do Brexit, a esquerda britânica foi cilindrada, mantendo posições ambíguas que tentavam ocultar as suas profundas divisões sobre o tema. Os partidos europeus têm um dilema para resolver: mantêm-se no consenso da UE, como pretendem os sociais-democratas do norte da Europa, ou tentam criar uma alternativa anti-capitalista e anti-globalização? Este será provavelmente o debate nas primárias da esquerda francesa (a distância ideológica que vai de Emmanuel Macron a Arnoud de Montebourg); em Espanha, temos o PSOE cada vez mais colado a Podemos; o Labour britânico começa a dividir-se em dois grupos ferozmente antagónicos, o que pode resultar numa cisão entre social-democracia e radicalismo.

 

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

O processo de destituição de Dilma Rousseff chegou finalmente ao fim, com um voto inequívoco do Senado brasileiro, que decidiu condenar e afastar a presidente, mas sem lhe retirar os direitos políticos. O processo seguiu todos os trâmites constitucionais e o chefe de Estado interino, Michel Temer, assume o resto do mandato, até 2018. A impopularidade de Temer rivaliza com a de Dilma, que hostilizou os aliados de quem dependia, cometendo erros crassos que comprometeram a sua base de apoio. O partido a que pertence, o PT, esteve no poder durante 13 anos, mas muitos dirigentes, incluindo o ex-presidente Lula da Silva, estão envolvidos em gigantescos escândalos de corrupção. A crise económica em que o Brasil mergulhou, a sensação de impunidade dos poderosos e a hipocrisia dos políticos geraram uma onda de descontentamento popular que não poupa nenhum partido, cargo ou instituição.

Temer pode nem chegar ao fim do mandato e o seu governo (sem estado de graça) terá de aplicar impopulares medidas de emergência. Neste contexto, o regresso de Dilma era impossível e teria causado uma paralisia institucional, ou pior. Assim, a destituição foi um virar de página e o Brasil entra num novo ciclo, na esperança de se obter o mínimo de estabilidade que permita chegar às próximas presidenciais. Dilma promete combater a destituição e acusa os adversários de terem concluído um golpe, mas será difícil justificar tantos anos de poder incompetente, incluindo promessas não cumpridas, ladroagem escandalosa e arrogância vazia. O PT poderá ter novo desastre nas próximas eleições municipais, como se vê nesta notícia da Folha de São Paulo, mas a teoria do golpe é uma boa desculpa e evita explicar a indignação do povo.

 

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

Mariano Rajoy falhou a sua patética tentativa de formar governo, perdendo duas votações por 170 votos contra 180, humilhação que provocou a denúncia, por parte do Ciudadanos, do acordo celebrado dias antes com o PP. O partido centrista recusa-se a participar num novo teatro político de candidaturas sem hipóteses e pede aos populares que mudem de liderança, o que estes recusam. A bola passa agora para Pedro Sánchez, do PSOE, que tentará criar um governo “impossível” (a expressão é do editorial do El Mundo). O PSOE terá de criar uma aliança com o Podemos e, conseguido isso, precisa de garantir uma de duas soluções adicionais: um acordo com Ciudadanos, que não faz alianças a incluir o Podemos; ou um apoio negociado com os independentistas catalães e bascos, algo que a própria liderança do PSOE proibiu. A alternativa ao fracasso dos partidos é o pesadelo de novas eleições, as terceiras em pouco mais de um ano, onde a abstenção pode atingir níveis perigosos. A intransigência política parecia ser de natureza oratória, mas revela-se um bloqueio sistémico, como se os líderes acreditassem mesmo nas coisas que dizem sobre os adversários. Sem cedências ou eleições, não haverá governo em Espanha.

 

Sábado, 3 de Setembro de 2016

A Imprensa portuguesa foi céptica em relação ao processo de destituição de Dilma (a ideia de golpe dominou muitos textos), mas tem sido branda quando se refere à ditadura Venezuelana. Isso vai provavelmente mudar. Em Caracas, há gigantescas manifestações de contestação ao presidente Nicolás Maduro, protesto que visa a convocação de um referendo para remover o chefe de Estado. O regime tenta prender opositores e diz que está em curso um golpe, mas na realidade a crise económica causou escassez de alimentos e de produtos básicos, pelo que a situação pode facilmente degenerar em cenas de violência. Maduro está a ser contestado também nos círculos do próprio movimento chávista e parece cada vez mais isolado, disposto a uma fuga para a frente que inclui, entre outros delírios, a hostilização do antigo aliado brasileiro. Maduro já perdeu os bairros pobres onde o chávismo tem a sua tradicional base de apoio. A Venezuela possui por estes dias semelhanças com a Turquia: os respectivos regimes tomam conta de todas as instituições que ainda não controlavam, mas o deslize turco em direcção à autocracia é amplamente criticado nos nossos meios de comunicação (e muito justamente), enquanto a revolução bolivariana, pelo seu carácter anti-imperialista, merece certo desconto.

 

Leirura: Alguns Ensaios de George Orwell

Um bom amigo recomendou-me a leitura de um texto de George Orwell, The Prevention of Literature, que, infelizmente, só conheço em inglês (disponível aqui). O texto, escrito em 1946, desenvolve ideias que encontramos também em 1984, a obra-prima do autor britânico, que estaria a ser pensada ou escrita na altura. O ensaio inclui elementos do tema do romance, por exemplo, pode ler-se em certa passagem que “o totalitarismo exige a constante alteração do passado” e, a longo prazo, implica “a descrença numa verdade objectiva”.

Neste texto de 15 páginas, Orwell escreveu sobre o “nevoeiro de mentiras e desinformação” que encontrou no jornalismo político do seu tempo, capaz de ocultar os horrores do comunismo soviético. Na opinião de Orwell, a linguagem da omissão e a cobardia dos intelectuais conspirava para transformar os escritores em pequenos quadros de uma burocracia oficial, incapazes de sair da ortodoxia e sujeitos a uma espécie de censura dos seus pares. Há uma ideia que julgo crucial no texto: era dos próprios intelectuais que partia “o enfraquecimento do desejo pela liberdade”.

Ainda hoje é interessante discutir os limites impostos à livre expressão, por exemplo, pelos arrastões politicamente correctos ou pelas cenas de taberna nas redes sociais, mas há um problema mais sério a montante, quando os intelectuais hesitam em dizer o que pensam ou quando certos livros não são publicados por causa das polémicas que podem provocar. E há ainda os livros que, quando são publicados, têm grandoladas à espera, o arraso da crítica ou a indiferença dos outros intelectuais, que é a forma mais eficaz do silêncio: se ninguém falar sobre as obras, elas não existem.

Orwell teve choques com os inquisidores do seu tempo e ainda hoje é vítima de interpretações injustas dos novos talibãs das ortodoxias da esquerda (que, por ironia, era a área política do escritor). A obra de ensaios e textos de jornalismo contém pérolas inestimáveis e uma curiosa actualidade: não exactamente nos pormenores, mas as ideias mantêm-se vivas. Em Portugal, julgo que só está publicado um livro de textos curtos, (Por Que Escrevo e Outros Ensaios, tradução de Desidério Murcho, da Antígona), com uma selecção infelizmente pequena destes ensaios jornalísticos, mas que inclui o famoso A Política e a Língua Inglesa, notável reflexão sobre o lugar-comum na linguagem política. Entre os não traduzidos, há textos fantásticos, por exemplo o ensaio irónico sobre o declínio do homicídio inglês ou a duríssima memória sobre a morte dos pobres.

Orwell escreveu muito sobre literatura e o compromisso do autor com a verdade, sabendo à partida que não há livros neutros ou inocentes. Os seus textos jornalísticos mostram que o escritor interpretava os conflitos da sua época de forma invulgarmente lúcida. Termino com uma pequena jóia que encontrei por acidente. Em crónica publicada no jornal Tribune, na coluna As I Please, no final de 1944, Orwell contava uma história deliciosa que ouviu de uma testemunha credível: dois soldados do exército alemão, capturados por forças britânicas, não falavam nenhuma língua que se entendesse e alguém presumiu que podiam ser soviéticos; foi chamado um especialista em línguas eslavas, que não solucionou o enigma; então, um sargento que tinha estado na Índia percebeu que os dois soldados falavam uma qualquer língua tibetana. Chamou-se um tradutor e os prisioneiros lá explicaram a sua aventura. Tinham-se perdido numa viagem, no extremo da China, capturados por tropas soviéticas e levados para um batalhão de trabalho que caiu nas mãos dos nazis. Após muitas peripécias, os pobres tibetanos acabaram numa unidade de combate do exército alemão e foram finalmente capturados por forças aliadas. Tinham percorrido o Norte de África e a França. Sabiam poucas palavras ocidentais e contavam a sua história pela primeira vez. Puderam também fazer perguntas aos captores. Até aí, não tinham percebido nada do conflito em que participavam: perguntaram, sem demora, quem era quem e por que razão tanta gente combatia.

 


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