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Helénicos mas balcânicos

por João Pedro Pimenta, em 14.03.18

Se acham que o futebol português seja uma acumulação de indignidades, falta de desportivismo e fanatismo, o melhor será compará-lo com o futebol grego para nos animarmos um pouco. 

O campeonato grego é fértil em incidentes que de tão repetidos já são rotina. É o caso das invasões de campo. Ou das recepções violentas a equipas adversárias. Este ano, com a possibilidade do crónico campeão Olympiacos do Pireu ser derrubado, a disputa é entre estes, os seus vizinhos do AEK de Atenas e o PAOK de Salónica, na longínqua Macedónia grega. No encontro recente entre o PAOK e o Olympiacos o jogo teve de ser interrompido pelo arremesso de objectos (um deles acertou no treinador dos do Pireu) e implicou a derrota administrativa dos de Salónica. Agora, no mesmo estádio, no encontro entre PAOK e AEK que muita influência teria no título, a decisão do árbitro, com razão, em anular mesmo no fim um golo dos da casa levou a nova fúria, com a entrada em campo não só do público como do próprio presidente do clube, um grego-russo dono de meia cidade e que não achou nada melhor que interpelar o árbitro de pistola no coldre, fazendo menção de a utilizar. 

 

 

Depois disso as autoridades competentes já suspenderam o campeonato. Entrar em campo de pistola à cinta é demais até na liga grega. Mas esta imagem caracteriza ainda mais um país que, por romantismo ou atavismo, muitos ainda acham que conserva a pureza civilizacional da Antiguidade, como se os gregos fossem de pura raça helénica, nada tendo em comum com os povos vizinhos, esses autênticos bárbaros.

A ideia vem de longe, já que ingleses e franceses ajudaram a moderna Grécia a tornar-se independente dos turcos muito por causa do romantismo vigente. Mas a verdade é que o farol civilizacional dos gregos actuais é mais Constantinopla do que Atenas, o cristianismo ortodoxo do que o Olimpo dos deuses, ou o Basileus do que a ágora (belo nome, já agora).

Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então. Tirando a língua, os nomes e a situação geográfica (e também o facto de não terem ficado sob influência comunista na Guerra Fria), os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros. E dos macedónios da chamada FYROM, já agora, com quem mantêm um litígio por causa do nome que consideram ser exclusivamente seu.

O irónico da coisa é que os gregos da Antiguidade consideravam a Macedónia uma terra de bárbaros por causa do seu sistema social, político e económico. Agora reivindicam o seu legado e do conquistador Alexandre Magno. No fundo, é terra de balcânicos que não se entendem.

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16 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 14.03.2018 às 08:20

João, a Grécia Clássica caracterizava-se por um conjunto de Cidades Estado em guerra, ou ameaça de guerra, constante - Atenas, Argos, Tebas, Esparta, mais as Ilhas jónicas...à semelhança do que sucedeu com as cidades estado formadas após a queda de Roma - Mântua, Milão, Florença, Veneza...

Assim os helénicos continuam fieis ao seu passado histórico.

Em contrapartida a Grécia é dos países europeus que mais refugiados tem recebido.

E não nos podemos esquecer dos avanços civilizacionais que a guerra traz, segundo alguns estudiosos :

Ian Morris regressa a um tema pouco dado a unanimidades: a guerra tem aspetos positivos e é uma das causas para o avanço da humanidade, seja no aumento da esperança média de vida ou na forma como influencia a ocupação de território de forma organizada. Para isso, faz equivaler o desenvolvimento das técnicas e dos meios de batalha ao crescimento económico e social de diferentes partes do mundo.

http://observador.pt/especiais/guerra-serve-pre-publicacao-do-livro-ian-morris/
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De Vlad, o Emborcador a 14.03.2018 às 08:34

Os gregos consideravam bárbaros todos os que não falassem grego. Todos! ( daí a etimologia da palavra bárbaro )....os romanos eram bárbaros. Os egípcios também. Os turcos.....

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De V. a 14.03.2018 às 09:02

De certa forma, helénico já quer dizer turco . Quer dizer que é meio manhoso e que no fim há pancadaria.
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De Luís Lavoura a 14.03.2018 às 09:05

os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros

Eu diria que pouco se distinguem dos turcos. Exceto na religião, claro. Aliás, aquando da independência da Grécia e após a Primeira Grange Guerra, a forma de destrinçar um grego dum turco foi a religião.
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De João Pedro Pimenta a 14.03.2018 às 17:08

Sim, os longos séculos sob domínio turco deixaram algumas marcas, também notórios nos povos vizinhos.
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De Vlad a 14.03.2018 às 10:30

"Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então."

Em virtude de não me ter publicado o comentário serei, agora, mais agreste na resposta.

O que revela no seu artigo de opinião é um desconhecimento da História Clássica Grega. A Grécia, da democracia, era também terra de tirania. Não havia "Estado" Grego Central, como na Pérsia/Egipto. O que havia eram cidades estado rivais - Atenas, Corinto, Argos, Tebas, ilhas jónicas, Esparta.... - que quando não em guerra, viviam sob constante ameaça bélica.

O termo bárbaro, cunhado pelos gregos, nada tem a ver com costumes, mas sim com o idioma falado. Era bárbaro todo aquele que não falava grego (mais tarde, no tempo do império romano, eram bárbaros todos os que não falavam latim).

A História da Grécia Clássica é muito semelhante à da Península Itálica, após o colapso de Roma. O Renascimento e as suas ideias surgiram também, não num clima da paz social e tolerância, mas sim entre Cidades Estados (Florença, Bolonha, Milão, Mântua, Milão, Brescia, Pisa, Roma....) em constante peleja (A Itália Renascentista era uma manta de retalhos, tal como a Grécia Clássica).

Quanto a futebóis:

https://www.youtube.com/watch?v=6v7ftj2tWGo


Ainda quanto à Grécia é dos países europeus que, embora em dificuldades, mais recebe refugiados, ao contrário da França e da Inglaterra responsáveis pelo financiamento da Guerra Síria e pela destruição do Estado Líbio, que geraram uma "recente" massa de refugiados.

Quanto às virtudes da Guerra:

Ian Morris regressa a um tema pouco dado a unanimidades: a guerra tem aspetos positivos e é uma das causas para o avanço da humanidade, seja no aumento da esperança média de vida ou na forma como influencia a ocupação de território de forma organizada.

http://observador.pt/especiais/guerra-serve-pre-publicacao-do-livro-ian-morris/


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De João Pedro Pimenta a 14.03.2018 às 17:06

publicação dos comentários não é automática, Vlad, como julgo que se apercebeu, a avaliar pelo seu comentário mais abaixo.

Eu sei que a Grécia não era o paraíso civilizacional que muitos crêem, e esse é um dos propósitos do post. Além de que falo explicitamente da divisão territorial ("o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios"), de novo como alusão à ideia da Grécia como uma unidade, como se a da Antiguidade fosse o estado grego moderno. Aliás também coloca essa frase no início do comentário, por isso ainda percebo menos essa crítica.

O termo "bárbaros" tinha também a ver com a organização política e social, neste caso o facto de terem uma monarquia hereditária. E há registo de que os macedónios tivessem participado nos jogos olímpicos ainda antes de Alexandre e de Filipe II.

Não acho que se possa fazer grandes comparações entre a Itália e a Grécia a partir da Idade Média. Uma sofreu invasões bárbaras, dividiu-se em muitos pequenos estados e era o centro da cristandade. A outra era parte essencial do Império do Oriente, tornou-se depois território otomano e surgiu como estado moderno apenas no séc. XIX (e a partir daí sim, há semelhanças nos dois percursos). E também no acolhimento a refugiados há grandes semelhanças, até pela posição geográfica (mas a Itália também tem as suas responsabilidades na Líbia).
Quanto à guerra...é sempre discutível, mas é a tal conversa de que por vezes longos períodos de paz levam a uma certa aburguesamento e à ideia que certos valores nunca são definitivos.
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De Vlad a 14.03.2018 às 17:14

João, peço desculpa:

Olhe, interprete como um café (domínio público):

REFLEXIONES SOBRE LA HISTORIA UNIVERSAL
JACOB BURCKHARDT

https://ia801604.us.archive.org/22/items/BurckhardtJacobReflexionesSobreLaHistoriaUniversal/Burckhardt%2C%20Jacob%20-%20Reflexiones%20sobre%20la%20historia%20universal.pdf

The evolution of morality, de Richard Joyce

https://zodml.org/sites/default/files/%5BRichard_Joyce%5D_The_Evolution_of_Morality.pdf
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De João Pedro Pimenta a 15.03.2018 às 00:02

Claro Vlad. De resto, os blogues e as caixas de comentários (embora aí com raras excepções) fazem um bocado o papel dos antigos cafés nos dias de hoje.
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De Vlad, o Emborcador a 14.03.2018 às 14:00

Peço desculpa! Fui estúpido
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De Anónimo a 14.03.2018 às 21:13

Alguns esclarecimentos (se me permitem):

a) Os dois clubes em causa têm a mesma letra no final do nome;
b) A letra tem, exactamente, o mesmo significado;
c) Ambos os clubes têm as mesmas origens;
d) O emblema dos clubes têm o mesmo símbolo.

a) e b) K - Constantinopla - que em grego se escreve Konstantinoupoleos.
c) Refugiado/regressado(s) gregos do Império Otomano, após a derrota da guerra turco/helénica. São dois clubes que estão ligados à população de origem grega que vivia no império otomano.
d) A águia bicéfala.
O rival do PAOK é o Aris (de Salónica). Do AEK são o Panathinaikos e o Olympiakos.

João Moreira
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De João Pedro Pimenta a 15.03.2018 às 00:05

Já conhecia a origem dos dois clubes (Constantinopla e não só, de toda aquela margem asiática do Egeu), mas obrigado por relembrar. Ainda há clubes na Grécia que conservam no seu nome o de cidades que hoje são turcas, como Esmirna.
A rivalidade com o Aris, dizem-me, está um pouco esbatida, talvez um pouco como o Porto-Boavista. Agora é mesmo uma questão (Tes)Salónica-Atenas.
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De Anónimo a 15.03.2018 às 16:11

Tanto o PAOK como o AEK têm as raízes mesmo em Atenas. O clube de Atenas dos refugiados de Esmirna e de toda a Ásia Menor é o Panionios.

João Moreira
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De Anónimo a 15.03.2018 às 20:41

Correcção - Tanto o PAOK como o AEK têm as raízes em Constantinopla. (...)

João Moreira
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De V. a 14.03.2018 às 23:28

O verdadeiro Berço da Democracia é a América.
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De João Pedro Pimenta a 15.03.2018 às 00:05

E porque não a Inglaterra? Ou a Islândia? Ou até Leão, ainda em tempos do nosso bom D. Sancho I?

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