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Handke

por jpt, em 10.10.19

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.


3 comentários

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De Anónimo a 10.10.2019 às 19:56

O massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo são difíceis de esquecer, se bem que no auge do conflito, Sérvios, Croatas e Bósnios Muçulmanos, competiram em matéria de carnificina.
Estive na Bósnia-Herzegovina em 2016 e as marcas da guerra ainda estão bem presentes, tanto na paisagem, como nas pessoas, afinal passaram apenas pouco mais de 20 anos.
Uma coisa é certa, não é do Nobel da paz que se trata, mas sim do da literatura.
Passados 21 anos, acontece com Handke o mesmo que aconteceu com Saramago, a avaliação do escritor não pela sua obra, mas pelo seu enquadramento ideológico.
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De Bea a 10.10.2019 às 23:29

Pois saiba que concordo consigo. Não faço ideia da qualidade do escritor, nunca li nada dele. Mas, se acaso tem qualidade literária, se a vida lha demonstra, qual é o problema? Afinal o que se analisa não é a a obra literária?!
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De João Pedro Pimenta a 15.10.2019 às 01:41

Dar o Nobel da Literatura a um autor sem atender às suas posições políticas é algo que a Academia sueca nem sempre cumpriu, com grandes injustiças à mistura. Ainda bem que se lembrou disso agora.
Isso apesar da apologia inaceitável de Handke aos carniceiros sérvios, coisa que aliás, e inquietantemente, volta a estar na moda, não só pelos comunistas mas também pelo extremo oposto. Anda mesmo para aí um textinho nas redes sociais a "recordar" a "invasão islâmica" de albaneses ao Kosovo, fazendo a comparação com os actuais refugiados.
De qualquer maneira, um homem que escreveu o argumento de As Asas do Desejo terá qualquer coisa de luminoso entre essas trevas mal explicadas.

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