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Há muitas coisas belas na terra

por Pedro Correia, em 14.05.19

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Às vezes é quanto basta. Abrimos um livro, lemos a frase inicial e logo ela nos agarra, despertando-nos a atenção para ler as frases seguintes, sem desgrudar da obra até ao fim.

Alegro-me cada vez que me acontece. Sucedeu há dias, ao abrir um exemplar do romance As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís, em boa hora regressado aos escaparates no âmbito do lançamento da obra completa da grande escritora que tem vindo a ser conduzido por Francisco Vale na editora Relógio d' Água.

«Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.» Começa assim, da melhor maneira, este romance de Agustina, muito menos (re)conhecido do que merece. 

Superado o primeiro teste, logo avanço na leitura. Um grande escritor avalia-se, desde logo, pela sua capacidade de nos seduzir pela palavra, sua ferramenta de eleição. É o caso de Agustina. Tal como sucede com Jorge de Sena, na magnífica frase de arranque do seu Sinais de Fogo: «Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus.»

Ou Cardoso Pires, n' O Anjo Ancorado: «Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» Ou Vergílio Ferreira, nesse fabuloso romance intitulado Alegria Breve: «Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?»

Saber escrever, saber captar a atenção de quem nos lê - eis o desafio supremo, ao alcance de poucos. Aprendamos com os mestres da palavra a trabalhá-la. Como se fosse terra fértil lavrada por um camponês, como se fosse pedra esculpida por um escultor, como se fosse filigrana nas mãos de um ourives.

Escrever é muito mais do que alinhavar palavras. Como durante anos ensinei aos meus estagiários em jornalismo, para escrever bem nada melhor do que ler muito. Enquanto leitores, aprendamos com quem sabe. Com Camus, que nos introduz no reino mágico da ficção - «a mentira através da qual se diz a verdade». Com Simenon, que em apenas três palavras nos transmite uma das melhores lições: «Escrever é cortar.»

Para escrever bem, há que apelar à sensibilidade e ao intelecto em simultâneo, o que não está ao alcance de qualquer um. Como Agustina demonstra na obra que nos foi legando. «Há qualquer coisa de premonitório neste romance. Pelos costumes das pessoas, pelos sentimentos, pelas relações entre parentes e familiares, percebe-se que já muita coisa mudou ou está em mudança antes mesmo de a revolução acontecer», observa António Barreto no prefácio à novíssima reedição d' As Pessoas Felizes.

Há muitas coisas belas na terra. E algumas experiências sem substituição possível, como o prazer único que só a leitura nos proporciona. Ao rasgar-nos horizontes e ao elevar-nos vários palmos acima do chão.

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De Corvo a 14.05.2019 às 19:10

Eu nem terra nem bosta e ia mais pela mandioca.
Perto de fazer os onze anos, voltei a acompanhar o meu pai ao Ambriz quando ele lá foi acertar pormenores com o tal fazendeiro para a tal obra que com esse contratara.
Aquilo deu brado pois teve o condão de despertar recordações na minha mãe aquando do meu primeiro acompanhamento paterno, no mês anterior, que não correra nada bem. Acusou o meu pai de não saber tomar conta de mim, ele vacilou e desculpou-se que eu queria ir, ela reforçou a acusação de incompetência de um pai que nem era capaz de tomar conta de um filho de onze anos, eu vi que assim não tirávamos dali a piroga e meti-me no assunto acusando-a da pouca sorte que tivera com a mãe que arranjara ao calhar-me logo a mim a fava de mãe.
Deixei-os com ela a resmungar e o meu pai a ouvir e calar, e fui tratar da minha vida. Dei ordens terminantes para ninguém naquela casa utilizar a minha bicicleta, e no outro dia metemo-nos à picada.
Na caixa da carrinha viajava um negro grandalhão que o meu pai se encarregara de subtrair às obras. Não via grande utilidade nisso, tão-pouco inconveniente até a precaução paterna me mostrar porquê.
Perto do meio dia parámos para fazer a refeição que a minha mãe preparara para nós: sandes de presunto, outras de queijo, e ainda outras de ovos estrelados. Uma garrafa de laranjada para mim e outra de vinho para ele.
O grandalhão saltou da carrinha, num ápice fez uma fogueira e deu em assar uma raiz de mandioca. Desliguei da refeição materna e da companhia paterna e fui ter com ele aperfeiçoar a sublime arte de assar mandioca. Negociei com ele a minha refeição pela raiz de mandioca, mas ele para manter incólume a honra africana regateou a preceito. As minhas sandes e a garrafa de vinho do patrão e o negócio tinha pernas para andar.
Fiquei contentíssimo, fui ter com o meu pai e pedi-lhe a garrafa de vinho. Olhou para mim com um ar muito estranho mas eu dei-lhe as justificações para os fins a que se destinava, reforçou o olhar para mim ainda mais espantado, não disse nada, vazou uma boa porção de vinho pela goela abaixo e deu-me a garrafa por mais da metade, que mais contente do que um pássaro após ter cativado a passarinha para o ninho, a correr fui entregá-la ao seu novo proprietário.
Mirou-a deveras comovido, meteu-a à boca e divorciou-se dela depois de bem vazia e escorrida.
Voltou a olhar para mim emocionado e decretou que eu era o mono-chindele, (filho do branco) mais porreiro deste mundo, e que o patrão também era bom branco mesmo
Encetámos a viagem com o meu pai conduzindo e eu e o grandalhão viajando na caixa da carrinha, com um comendo sandes de presunto, de ovos e queijo, e outro mandioca assada, com ambos notoriamente mais felizes e de bem com o mundo do que quando a viagem se iniciara.
E travando elevados diálogos em perfeito quimbundo sobremaneira esclarecedores sobre as vicissitudes da existência. Ele falando das mulheres dele, duas, umas inúteis que nem davam conta das lavras, e eu da minha mãe que já não sabia mais o que fazer com ela, Deus me desse paciência para a aturar.
O que o levou a concluir, olhando-me deveras pesaroso, que mulher, branca ou preta era toda igual.

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