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Delito de Opinião

Grito do Ipiranga

Francisca Prieto, 07.07.16

Sou um guichet. Olham para mim e fazem-me pedidos, perguntas, requisições, exigências. E queixam-se. Que não cumpri os meus deveres a horas, ou com a competência necessária.

Estou sempre em falta. Agora, por exemplo, devia estar a cortar as unhas dos pés a um rapaz de catorze anos, como se isso fosse razoável.

Repito dia após dia tarefas invisíveis.

Uma vez li uma história de um senhor de idade a quem perguntaram o que tinha feito na vida e ele, por mais que puxasse pela memória, só se lembrava de passar os dias a pagar contas da electricidade. Sinto-me como este senhor. Atafulhada pela burocracia, afogada na logística, enterrada num buraco de obrigações que não valem nada, mas que alguém tem de cumprir.

Esta semana, ao final do dia, esqueci-me de ir buscar uma filha. Para piorar a situação, era a que tem cromossomas a mais. Quando lhe perguntaram se sabia o telefone do pai e da mãe, apressou-se a verbalizar as devidas sequências numéricas. Só por causa disto merecia que me tivessem levado para a prisão.

O problema das tarefas invisíveis é este. Se não as cumprimos, ficamos nus em praça pública. Somos uns incompetentes, pessoas pouco dignas de confiança.

Amanhã vou experimentar fechar o guichet por umas horas. Só para ver o que acontece.

Talvez o mundo não venha abaixo.  

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