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Greta D'Arc

por jpt, em 24.05.19

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Nas últimas semanas fui vendo em blogs e no Facebook vários pequenos textos de gente que leio com atenção e até de amigos bem próximos, que surgiram azedos sobre Greta Thunberg, a jovem sueca tornada ícone ambientalista. Alguns até partilhando um texto viperino, gozando com a propalada condição da jovem, dita com o síndrome de Asperger. Trata-se de um meio intelectual definível, ainda que algo heterogéneo ideologicamente: é gente que se revê num "centro", "direita" ou até "extrema-direita", que anuncia filiação a um conservadorismo ou a um liberalismo, ou mesclando-os, às vezes de forma um pouco atrapalhada. O argumento é sempre similar: o aquecimento global é um mito, ouvir uma jovem é um populismo e/ou uma infantilização da vida política. Alguns complementam sobre a impossibilidade desta adolescente ter a solução para o problema, ainda que este inexistente, segundo as suas perspectivas, um oxímoro argumentativo que parece escapar a estes locutores.

Foi comentando um desses textos, oriundo de um intelectual português que bem aprecio, que me surgiu a ideia - a qual, de tão óbvia me pareceu, porventura outrem já terá avançado mas se assim aconteceu desconheço-o - que esta adolescente é uma Jeanne D'Arc actual. Pois, lendo a história da donzela de Orleans, tornada símbolo da cristandade e do seu país, de facto do polissémico "morrer pela Pátria", como não intuir que aquele comportamento obsessivo da adolescente camponesa poderá ter sido originado numa peculiar condição? E com toda a certeza, como aliás comprova o seu final, também ela incomodou os sábios "bloguistas" e "facebuquistas" de então. Apesar de ter sido útil ao reino.

Daí esta minha Greta D'Arc, obsessiva na sua dedicação à causa ambientalista. E que tanto incomoda tantos locutores. Esta dedicação extrema teve impacto. Ela apareceu induzindo um movimento ecologista geracional. Se em Outubro os iniciais pequenos grupos ecologistas deste movimento tinham ainda alguma dificuldade em chegar à fala com o secretário-geral da ONU (ainda que acolhidos pelo seu gabinete), agora Thunberg, a sua inspiradora, é recebida, sinal da crescente consciência de alguns líderes políticos da gravidade da situação. Uma esmagadora maioria dos cientistas está convencida que o problema é enorme e urgente. Uma minoria nega-o. Como se sabe, na história nem sempre a maioria dos cientistas (a "ciência normal") tem a razão face às minorias. Mas este argumento tem uma fragilidade nesta questão: as minorias que estavam certas normalmente (ainda que nem sempre) fundamentavam-se em hipóteses e métodos inovadores, afrontando as perspectivas vigentes. Neste caso as minorias renitentes não apresentam essas características inovadoras. Mas mesmo assim é possível que os que negam a hipótese do aquecimento global poderão estar certos - e que bom que será se assim for. Mas ainda que assim seja, que não estejamos na alvorada de uma dramática mudança climática causada pela humanidade, algo é inegável: a degradação ecológica é gigantesca.  E universal. E justifica toda a atenção.

Os que negam a hipótese de aquecimento - e a pertinência de atentar nesta jovem ícone e no actual movimento ecologista juvenil - são também um fenómeno intelectual interessante: os que se dizem conservadores alheiam-se de um tradicional item das agendas políticas conservadoras, a protecção ecológica; e os que se dizem liberais, estão totalmente alheados de uma visão capitalista, se se quiser da "destruição criativa" (eu sei que Schumpeter não é o arquétipo do liberal mas não pode ser dito como um radical anti-liberal), das imensas possibilidades lucrativas de novas políticas ecológicas (nas várias áreas da actividade). Ou seja, nestes locutores não é um conservadorismo e muito menos um verdadeiro liberalismo que vigoram. É um mero atavismo. Não de agora. O sufragar das posições americanas sobre o assunto mostram-no bem: há quase duas décadas, no seu primeiro discurso de tomada de posse presidencial, George W. Bush anunciou o seu distanciamento ao protocolo de Quioto por este ser adverso ao "american way of live". Dizer (resmungar) na altura - e depois - que tal afirmação era vácua, pois o tal "modo de vida" assentou na vigorosa abertura a transformações, devida à capacidade inovadora, organizativa e tecnológica, de uma sociedade cheia de recursos e livre de imensas barreiras institucionais que vigoravam nas suas concorrentes industrializadas de então, surgiria como uma resposta "comunista" ou parecida. Mas é uma coisa tão óbvia ...

Este atavismo impensante dos irritados com o impacto de Greta Thunberg, e do movimento que ela simboliza (e induziu), nota-se num aspecto e prova-se noutro. É comum (porventura como o foi nas gerações precedentes) ouvir os actuais adultos menorizarem as práticas da juventude actual: não são dados à leitura, atentam em youtuberes vácuos, não brincaram na rua, seguem sobre-protegidos e assim alheados da natureza, não socializam, encerrados em consolas de jogos e telemóveis, na futilidade da internet imediatista, são consumidores mimados, são totalmente apolitizados, etc. Subitamente, no espaço de um semestre, um movimento internacional de jovens cresceu: na sua heterogeneidade não surgem folclóricos, presos a velhas pantominas hippiescas; não são um culto de falsos heróis que encestam bolas em redes; nem cultuam LSD ou heroinas, que tanto maceraram as gerações precedentes; não destroem as propriedades públicas e privadas, como os seus "tios" vestidos de coletes amarelos; não saíram dos "seminários de insurreição" promovidos em acampamentos de maoístas e trotskistas; não têm como ídolos um qualquer Ernesto Guevara ("fuzilamos e continuaremos a fuzilar") em frémitos de utopias devastadoras; não seguem perversos pregadores hindús, islâmicos ou evangelistas, advogados de uma "purificação" das almas. Querem, e para isso se manifestam ordeiramente, numa saudável heterogeneidade de estilos, uma mais ampla informação sobre o estado da situação ecológica, e que se desenvolvam políticas de protecção ambiental - questão que há décadas está na agenda internacional mas que não tem conhecido grandes progressos, devido às resistências das elites político-económicas. Querem isso e assim se mostram jovens cidadãos. Interessados e empenhados, bem ao contrário do que deles dizem os mais-velhos, que os proclamam alienados.

Uma questão recente mostra, provando-a, a radical superficialidade destes críticos. Ou a sua estreita visão do futuro: há duas semanas Mike Pompeo - antigo director da CIA e agora ministro dos negócios estrangeiros americano, como tal alguém bem mais importante e escrutinável do que Greta Thunberg - discursou no Conselho Ártico e disse: "Because far from the barren backcountry that many thought it to be in Seward’s time, the Arctic is at the forefront of opportunity and abundance. It houses 13 percent of the world’s undiscovered oil, 30 percent of its undiscovered gas, and an abundance of uranium, rare earth minerals, gold, diamonds, and millions of square miles of untapped resources. Fisheries galore. 

And its centerpiece, the Arctic Ocean, is rapidly taking on new strategic significance. Offshore resources, which are helping the respective coastal states, are the subject of renewed competition. Steady reductions in sea ice are opening new passageways and new opportunities for trade. This could potentially slash the time it takes to travel between Asia and the West by as much as 20 days. Arctic sea lanes could come before – could come the 21s century Suez and Panama Canals."

Passados dias percebe-se que nem um dos incomodados com a visibilidade de Thunberg, desta Greta D'Arc de hoje, e do juvenil movimento ecológico, comentou estas declarações do governante americante. Omnívoras, demonstrando uma visão do mundo até demencial. Nem um, que tenha eu reparado, destes locutores portugueses as comentou. Nem um. Nem um ... 

Isto em Pompeo, e no mundo "trumpiano", é um fundamentalismo mercantil (não liberal, entenda-se bem) patético, tal e qual como os fundamentalismos desses radicais de outros cultos. E nestes luso-locutores (até nos meus amigos próximos que assim bacocam) é muito um mero blaseísmo, a patetice do fastio. Pois ficam muito enfastiados com a agitação alheia, destes "jovens". Isto não é "direita", nem "extrema-direita", nem "centro". É só parvoíce. Perversa. E carregadinha de presunção, a presunção da "distinção". Que gente ... Que se julga, saber-se-á lá porquê, que por intelecto não é, com toda a certeza, acima do vulgo. De nós, comuns. Vão nisso enganados, pois se, como disse Ulianov, "o esquerdismo é a doença infantil do comunismo", este blaseísmo nada mais é que a doença senil do capitalismo. O tal atavismo ...


111 comentários

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De Anónimo a 28.05.2019 às 16:27

A escumalha que nega o aquecimento global devia ser obrigada a beber petróleo.
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De jpt a 28.05.2019 às 16:43

isso contribuiria para o aquecimento global ...
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De Anónimo a 28.05.2019 às 19:43

Estou disposto a receber uma pequena percentagem do aquecimento global em minha casa de forma gratuita.

É que mantê-la aquecida custa-me os olhos da cara,como soe dizer-se.
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De jpt a 28.05.2019 às 19:49

Sói, rapaz, sói. Os erros ortográficos não são graves mas quando se quer armar ao pingarelho estragam o piadismo
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De Anónimo a 28.05.2019 às 22:05

Este anónimo não deve viver no litoral pois se vivesse não teria casa para aquecer com a subida do nível do mar.
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De Anónimo a 28.05.2019 às 22:06

Não é preciso beberem muito petróleo, basta consumirem uma dose letal.
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De jpt a 28.05.2019 às 22:49

E você candidata-se a provedor dessa purificadora actividade?
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De Ana a 28.05.2019 às 17:54

Boa tarde, obrigado por ter escrito este post, esperemos no entanto que a vida da Greta seja mais longa que a da Joana.
Nesta questão, e para mim os homens e mulheres de hoje dividem-se em dois tipos de doentes:
Os dois andam cansados, com fome, com sede, têm feridas pelo corpo e ultimamente desmaiam aqui e ali. Vão ao médico e este diz-lhe que provavelmente será diabetes, que terão de ter cuidado com a alimentação e fazer dieta, no entanto só pode confirmar o diagnóstico após realizar uma bateria de exames que demora algum tempo. O doente A sai do consultório preocupado e começa a fazer dieta (se for diabetes já começou o tratamento, se não, mal não faz). O doente B sai do consultório a maldizer o médico, porque nunca tinha sido diabético até então e não havia razão para o ser daí em diante, porque não percebe como pode o médico diagnosticar com base em sintomas se não tem os exames na mão, e porque há estudos que dizem que é a falta de açúcar que provoca o desequilibro da insulina no corpo que causa os diabetes, então entra numa pastelaria e come um croissant recheado de chocolate.
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De jpt a 28.05.2019 às 19:50

Eu iria beber um uísque e maldizer o médico, profeta da desgraça. Mas não sou exemplo para ninguém.
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De Cristina Filipe Nogueira a 28.05.2019 às 21:33

Regresso, para dar os parabéns pelo destaque. É inteiramente merecido!
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De jpt a 28.05.2019 às 21:38

Alguns dirão que o destaque provará que a sapo.pt está vinculada ao "marxismo cultural"
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De Cristina Filipe Nogueira a 28.05.2019 às 22:33

Teorias da conspiração em espiral!
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De jpt a 28.05.2019 às 22:48

"Ele" há gente para tudo ...
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De s o s a 28.05.2019 às 23:31

ja terei lido aqui mais que uma vez, porventura do jpt, elogios ao movimento estudantil sobre o clima. E comentado.

Resumindo nao so nao acredito nos jovens, embora entre os saber indiferentes e os ver mobilizados para a coisa do clima, antes isto.

Dos jovens, ate dos estudantes mais crescidos, nao nos chegam nestas decadas ideias que nos inquietem, alias simplesmente nem chegam ideias.

E o que temos visto sao os governos a oferecer coisas aos jovens, coisas nem reclamadas.

Portanto, é bonito essa acçao dos jovens, todos nao somos demais para a defesa do equilibrio do planeta, mas nao sei se a acçao dos jovens nao acaba por servir o negacionismo dos atavicos.

Diz bem : os atavicos sao o imobilismo, a injustiça, a luta pela "purificaçao " do clima é o presente , para a sustentabilidade de já amanha.

Todavia, clima é muita coisa, e se é mais ou menos facil a unidade na denuncia, em termos de soluçoes, e comportamentos concretos, divergimos.

Um poderosissimo aliado dos atavicos, sao os novos negocios relativos ao clima, recursos que quase absolutamente saem dos nossos impostos.

Por outro lado, noticia de hoje, uma camara municipal vai investir 1 milhao, para aumentar a cobertura do saneamento de 30 para 60 %. . Ou seja continuamos com os mesmos problemas de á cem anos.


pelo clima, marchar, marchar... mas com calma, acertadamente, sem desbaratar corruptamente aquele recurso que passa pelo banco de portugal.
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De jpt a 30.05.2019 às 06:47

uma das coisas que eu quis referir, no registo radicalmente superficial deste postal - registo imposto, acima de tudo, pela ligeireza do meu conhecimento sobre estas matérias - foi exactamente que políticas produtivas ecologicamente (mais) virtuosas são um manancial para a competição económica, potencialmente lucrativa. E que a recusa dessa via mostra um senil "espíirto do capitalismo". Claro que essas políticas poderão albergar, como diz, práticas plutocráticas ou nepotistas - cumpre às instituições impedir esse rumo.
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De Anónimo a 29.05.2019 às 09:00

Se estiver perto de um abismo, ecológico ou financeiro, o atavismo pode ser a medida mais sensata para não cair nele.
Desatar a correr atrás de uns jovens, manipulados pelo que aprenderam em escolas que nem querem frequentar, pode levá-lo a cair na curva do abismo.

Desde logo, o aquecimento global. Existe. A questão é: é antropogénico ? É o homem ou a acção humana que provoca a maior parte desse aquecimento ?
O CO2 que provoca o efeito de estufa é a causa ou apenas uma mera consequência desse aquecimento que tem outra causa não-humana ?

Essa é a grande dúvida que divide cientistas. Acontece que a ONU financia um painel deles que continuará a ser financiado na medida em que a solução proposta for exequível. Nunca se não existir ou estiver fora do nosso controlo. Os cientistas são muito ciosos de manter a sua fonte de financiamento...
A minoria que contesta a conclusão deles, a ser aceite, retirava-lhes a razão desse financiamento. Não é uma decisão independente e imparcial.

Depois, a questão fiscal. A esquerda, sempre desejosa de aumentar e orientar a carga fiscal, vê nesta questão um óptimo argumento para continuar a fazer o que sempre fez. Só precisa de escolher quem são, desta vez, os "ricos", os "opressores" ou os "inimigos do povo" futuro. O povo futuro, sobre a forma de jovens guardas, serão a vanguarda dessa revolução que trará mais carga fiscal e pode aumentar os seus orçamentos deficitários na sequência da crise das dívidas soberanas. A lógica de sempre da esquerda, necessitada de trocar o marxismo por outras causas.

Por fim, a questão da via marítima do Ártico. Putin e a sua Rússia andam a criar pequenos conflitos territoriais com a Noruega e com os EUA, no Alasca, precisamente para expandir a sua zona económica no mar do Ártico. Os interesses de prospecção futura e o controlo sobre essa via marítima são óbvios. A Rússia é, de longe, a maior beneficiária dessa situação. O segundo, o Canadá. O discurso do sec. Estado americano é uma reacção a essa questão. Uma tomada de posição. Que você consiga concluir que o aquecimento global pode ser um plano americano, e não um plano russo, só é revelador de outras coisas.
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De jpt a 29.05.2019 às 09:56

É uma minudência, se comparada com a questão do postal, mas é interessante porque denota o tipo de atitude conversacional, de debate, que vai reinando nos comentários de blog - e dado que blogo há muitos anos, e noutras plataformas, julgo que é muito típica do universo SAPO. Já a referi várias vezes e em particular muito recentemente noutro blog onde escrevia: é a tendência, não universal mas recorrente, dos comentadores anónimos deturparem os textos para os contestar. E é algo que quando as pessoas assinam é muito mais raro - e isso é mais do que notório para quem tem uma conta de facebook, plataforma na qual é muito mais raro aparecer alguém a deturpar o que está escrito. Há críticas negativas, discordâncias, às vezes até insultos. E há óbvias incompreensões. Mas o facto de se deixar o nome inibe a deturpação, há um óbvio pudor.

Que vossemecê, anónimo, retire do meu texto "Que você consiga concluir que o aquecimento global pode ser um plano americano, e não um plano russo, só é revelador de outras coisas." é apenas revelador de uma coisa, da despudorada vontade de contestar deturpando o que se contesta. É um vazio.
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De Anónimo a 29.05.2019 às 11:04

Foi só isso que o incomodou no meu comentário ? Então reage muito a quente. Os pontos anteriores são bem mais graves do que esse.

As coisas que se revelam ao apontar baterias aos EUA, num processo em que a Rússia tem tomado dianteira e tem vantagem, são óbvias. As diversas fontes que consulta são as mesmas que difundem um anti-americanismo primário. Não que os EUA de Trump e de sempre sejam diferentes daquilo que você diz. São isso mesmo: predadores e com uma visão global. Como outros. O ignorar o papel da Rússia de Putin nessa disputa é que revela as fontes. E a visão e o alvo pretendido. Mas não é o único assim.

E quanto ao anonimato, só não estive para fazer login. O meu nome é José Paulo Castro. Pelos vistos, um dos seus "estupores" para alvo. Dá jeito acusar as opiniões adversas de cobardia. Sabe, é por isso que o voto tem de ser anónimo e secreto. Sempre.
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De jpt a 30.05.2019 às 07:58

José Paulo Castro (assim é muito melhor) se volta ao anti-americanismo do postal então proponho que - se tiver paciência - volte ao texto.

Diz que as diversas fontes que consulto são veículo de anti-americanismo. Quais? Ao longo do texto refiro que há opiniões contrastantes, e admito a hipótese da pertinência dessas opiniões - não refiro fontes, entendendo essas opiniões relativamente conhecidas pelas pessoas interessadas. Tenho a minha opinião, certo, que me parece visível: temo que a hipótese pior seja plausível, que haja um processo de aquecimento global influenciado pela actividade produtiva do último século, em particular pelas últimas décadas. Temo-a porque há muita gente especialista que o afirma, sim, mas acima de tudo por uma deriva etária, por pessimismo. E espero que os que o negam tenham razão, por uma resistente esperança. E tenho duas outras opiniões: à vista desarmada, e parece-me indiscutível, há uma universal devastação ecológica, que deve ser combatida; e que em havendo a possibilidade real de defrontarmos um processo de aquecimento induzido isso sublinha a necessidade (sublinha, não é apenas dependente disso) de se procurarem formas produtivas (e de consumo) mais .... desenvolvidas. Isto é anti-americanismo? Nem sequer anti-industrialismo é.
Fontes anti-americanas? Refiro três fontes no texto: um postal meu, que tem a ver com a emergência aqui em Bruxelas deste movimento ecológico juvenil, muito inicial - ainda para mais conheço os jovens que participam nele, citei um texto escrito pela minha filha (não o disse na altura, digo-o agora). São jovens completamente ao invés do que tanto se lê sobre esta gente - a caixa de comentários daquele postal tem as coisas mais parvas e abjectas sobre "esses miúdos", tal como o que se vai lendo por aí. As pessoas falam sem conhecer, apenas com a arrogância do sofá. (Não estou a falar dos seus dois comentários). São movimentos, heterogéneos - e cujo crescimento leva a proliferação de expressões, de slogans, mas também decerto produzirá tentativas da sua apropriação por forças políticas, que querem maior esclarecimento sobre a situação, e que se desenvolvam políticas de protecção ambiental. É terrorismo? Leia esta (e outras) caixa de comentários: diz-se que querem abandonar o consumo de carne, que querem combustível limpo, o fim da indústria e da agro-pecuária. Nada disso é verdade, são dislates. De facto apelam à redução da emissão de CO2 tal como vem sendo apresentado pelos líderes mundiais desde há décadas - vamos gritar da insanidade dos jovens e não dizer do mesmo de tantos líderes? Muitos apelam a uma mudança de dieta, por uma redução da agro-pecuária. É isso um escândalo? Há muito de new age, de vegetarianismo nisso? Há, com toda a certeza, mas vamos nós mais velhos e menos new age (há muito idoso e proto-idoso filiado nesse mundo místico), refutar que há políticas de fomento alimentar? À produção e ao consumo? E em havendo-os são elas indiscutíveis? Posso defender a aquacultura sem me dizerem anti-americano? Posso discutir os subsídios à produção de determinados alimentos em detrimento de outros, os incentivos fiscais ou aduaneiros?
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De jpt a 30.05.2019 às 08:16

Refiro também, lateralmente, Ernst Kantorowicz - que não pode ser visto como anti-americano. E, finalmente, cito o Departamento de Estado americano. Quais fontes anti-americanas, sejam as implícitas sejam as explícitas? É um torcer do texto, o que V. faz.

De quem falo no postal? Explicitamente (e, aqui terá que crer na minha boa fé, implicitamente também) falo de um conjunto (inorgânico) de locutores portugueses, que integro num eixo de centro e direita que costumo ler com interesse, e também de extrema-direita, que acompanho mais como curiosidade sociológica. Não estou a falar dos americanos - e a propósito do que V. diz sobre o contexto das declarações de Pompeo, eu refiro que elas foram proferidas no Conselho Ártico, exactamente no âmbito das negociações sobre a utilização internacional. Isto não é um ensaio, é um mero postal de blog - está referido onde foram proferidas as declarações, está um citação (com ligação à fonte), há pessoas suficientemente informadas como V., que identifica a situação, há pessoas curiosas, que poderão seguir a pista, há quem ulule, para cima ou para baixo, mas isso ultrapassa-me, que blogar é gratuito, não se me pode exigir mais.

Estou a falar, repito, de um meio sociocultural português, que vitupera esta rapariga - dizem-se coisas inacreditáveis (ontem no mural FB do João Gonçalves, o ex-bloguista, em cuja lista para estas eleições eu disse que votaria se vivesse em Portugal) um septuagenário, ornamentado no perfil com a boina com a qual fez a guerra colonial, anunciava-a violável por um grupo de nigerianos - e o João Gonçalves deixa aquela merda afixada - e os miúdos que se vão associando. Ora este meio sociocultural e ideológico é muito pouco sensível (apoiante) a declarações de qualquer dirigente chinês ou a emanações de Putin. Mas globalmente, mais pró-democratas ou mais pró-republicanos, muito se revê no poder americano (esvaído que foi o anti-americanismo da direita europeia). E é nesse sentido que eu busco a confrontação com estas declarações de um governante americano. Que mostram a consciÊncia de que há um degelo (para quem visceralmente o nega), que mostram a vontade de o aproveitar para efeitos económicos e anuncia o que muitos em Portugal nem ligam, e que denotam uma enorma insensibilidade para a coisa, seja por parte do governo americano seja dos seus interlocutores (em particular dos mais poderosos)

E isto é significativo em Portugal. O texto é da semana anterior, antes destas eleições que chamaram a atenção sobre o PAN - de facto, como bem diz Rui Ramos, pouco significa, e apenas teve 2/3 dos votos em Marinho e Pinto nas últimas europeias, mas "faz barulho" nos dias de hoje. Mas o que me chamava a atenção é um centro, centro-direita, avesso a questões ecológicas, e onde os seus locutores mais esclarecidos veiculam uma abjecção por estas matérias. Agora com os votozitos no PAN vão aparecer a dizer umas coisas, mas será apenas encenação.

Na semana passada o bloguista João Távora escreveu um breve elogio a Ribeiro Telles, no seu 97º aniversário, lembrando também a sua dimensão ecologista. Como, ainda que republicano, o partido em que mais vezes votei foi o PPM isso é-me significativo. Lembrando que foi no centro-direita, com o PPM que as preocupações ecologistas surgiram junto ao poder. Tal como depois nos governos iniciais de Cavaco Silva, com Carlos Pimenta (e Macário Correia). Podemos ter boa ou má memória dessas pessoas, das suas iniciativas. Mas o que é certo é que houve uma corrente de pensamento ecologista - não fundamentalista, não folclórica, não anti-industrialista, não anti-capitalista (não anti-americana, para usar a sua preocupação) - no pensamento do centro e da direita portuguesa. E que desapareceu. Sendo que hoje em dia as pessoas dessas áreas ideológicas que falam publicamente sobre a matéria se limitam a rugir impropérios. Boçais.

Isto é ser anti-americano? Se assim for então eu, apesar de mim-mesmo, sou-o.
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De Anónimo a 07.06.2019 às 21:30

Eu sou anti-americano. Os EUA não fazem falta no mundo.

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    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D