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Delito de Opinião

Grandes romances (33)

Pedro Correia, 23.04.21

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PARIS NÃO ERA UMA FESTA

A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz

 

«Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito a ver se chega o meu.» (p. 211)

 

 

Andou meia vida a afiar a pena sarcástica contra os mais diversos sintomas da estagnação nacional, chegando a advogar a «invasão espanhola» pela boca de João da Ega, personagem lapidar d' Os Maias. À beira do fim, contemplando a pátria distante do seu posto de exilado profissional como nosso representante consular em Paris, despede-se com uma emocionada declaração de amor a Portugal. Um romance em que trabalhou nos últimos anos, num labor contínuo, fazendo sua a divisa de Gustave Flaubert, o criador de Madame Bovary: «Le mot juste». Sem nunca desperdiçar uma oportunidade de encontrar a palavra exacta.

Essa obra que José Maria d' Eça de Queiroz tanto foi cultivando como criador na última década de vida e viria a ser impressa só em 1901, ano subsequente à sua morte, é A Cidade e as Serras. Livro-testamento que já não pôde rever por completo (tinha pouco mais de metade do manuscrito corrigido ao falecer, na capital francesa) e descendeu de um conto, Civilização, publicado em Outubro de 1892 na Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro. Também esse conto girava em torno de um Jacinto, burguês endinheirado e roído pelo tédio. Também aí se gera um confronto entre a cidade como símbolo do mundo rendido à tecnologia mas cada vez mais distante da alma humana e o campo redentor, capaz de nos devolver aos valores essenciais. Sumia-se o Eça revolucionário, emergia o Eça bucólico e pastoril.

Mas o talento do escritor transparece, incólume, em cada linha. Logo na ficção curta, com o protagonista contemplando um entardecer sereno, «na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrando na simplicidade» da natureza enquanto as ilusórias conquistas da modernidade jaziam, imprestáveis, na sua abandonada mansão citadina, símbolo do «lixo da civilização» acumulado naquele final do século XIX.

 

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A Casa de Tormes, desde 1990 sede da Fundação Eça de Queiroz

 

Tudo começa com uma epifania do escritor ao deslocar-se a Portugal, vindo de Paris, para tratar de questões relacionadas com uma propriedade que a sua mulher recebera em herança sem sequer a conhecer. Era a quinta e a casa de Vila Nova, situada na freguesia de Santa Cruz do Douro, concelho de Baião. Hoje sede da Fundação Eça de Queiroz.

Descrevendo-lhe em carta esse recanto do Baixo Douro em Maio de 1892, Eça não poupa em adjectivos, rendido aos encantos da paisagem: «O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso. Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo, que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. (...) É toda em socalcos. Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro.»

Elabora o conto em poucos meses. No ano seguinte, transforma essa experiência em material de maior fôlego, mudando Torges para Tormes: ia nascer A Cidade e as Serras, de parto atribulado, entre queixas persistentes do editor reclamando o manuscrito e as evasivas do escritor, que não cessava de burilar a prosa nos intervalos de textos para consumo imediato em jornais e revistas. Já não veria impresso o livro, parcialmente revisto por Ramalho Ortigão, seu velho amigo e cúmplice de lides literárias. 

 

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Eça alarga as fronteiras espaciais do conto, deslocando-o de uma urbe nunca identificada (embora se presuma ser Lisboa) para Paris, à época enaltecida como "centro da civilização" no seu esplendor modernista. Exercendo ali funções consulares desde 1888, conhecia bem a paisagem física e humana da Cidade-Luz, o que lhe permitia ser fiel à estética realista. Jacinto mantém-se sem apelido, tal como no conto: só nos é apresentado com nome próprio, embora oriundo de uma velha família fidalga, o que acentua o carácter simbólico da personagem, equivalente ao país que foi renegando as raízes, desnacionalizando-se.

É um romance construído em perfeita simetria: a metade inicial decorre em França, a segunda em Portugal com breve regresso do narrador a Paris quase no fim, sendo as duas partes intervaladas por uma divertida intromissão em terras espanholas, na mais famosa viagem de comboio da nossa literatura. Que culminará na entrada de Jacinto no país dos seus ancestrais, cruzando a fronteira em Trás-os-Montes. 

Vinha acompanhado do melhor amigo e confidente, que ocupa o lugar de narrador omnisciente: Zé Fernandes, ou José Fernandes de Noronha e Sande - este sim, com apelidos, e simbolicamente natural de Guiães, topónimo que de algum modo o identifica como guia do amigo. Em Eça, nenhum pormenor é deixado ao acaso. 

É ele também quem nos conduz desde as linhas iniciais: tudo quanto vemos e lemos, é através dos seus olhos e da sua pena. Jacinto surge sempre no primeiro plano, mas em segunda mão. Curioso protagonismo por procuração, como se a todo o momento criador e criatura se confundissem. Como se este Zé que nos orienta pelas páginas do romance mais não fosse, afinal, do que alter ego do escritor, José de nome próprio. Conferindo-lhe nota suplementar de autenticidade.

«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.» Eis o parágrafo inicial da obra. Apresentando-nos de imediato a figura central, inseparável da presença tutelar do narrador.

 

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É um Eça antigo e um Eça novo que aqui encontramos em simultâneo. 

O primeiro, na deliciosa descrição da parasitária fauna social parisiense, que tanto inspirava a lisboeta. Juntam-se ao jantar na sumptuosa residência de Jacinto, situada no n.º 202 dos Campos Elísios, desfilando no magnífico capítulo IV do livro.

Lá estão «os dois homens de Madame de Trèves - o marido, Conde de Trèves, descendente dos reis de Cândia, e o amante, o terrível banqueiro judeu, David Efraim». E Joban, «o Supremo Crítico de Teatro», acompanhado de «um moço muito ruivo» com «perfil de periquito». Dornan, «etéreo poeta» neoplatónico e místico, de ar impassível «na sua majestade obesa». Psicólogos, académicos, especialistas em coisa nenhuma. Um tal Todelle, sempre com «o lenço muito perfumado», íntimo de «todos os enredos de Paris». Uma loura «de ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o seu vestido branco com bordados de ouro pálido parecia uma camisa a escorregar». Sem esquecer um «moço de penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento».

O segundo Eça, inesperado, é um escritor rendido ao singelo encanto do Portugal profundo, por antonomásia figurado nas Serras do título. O romancista já não sente fervor iconoclasta e anseia pelo retorno aos bens mais simples. Este contraste torna-se evidente em dois repastos: o sofisticado jantar dos Campos Elísios, tendo como convidado de honra o Grão-Duque Casimiro, e a ceia rústica improvisada em Tormes, com a mesa iluminada por «duas velas de sebo em castiçais de lata»: caldo de galinha com fígado e moela, arroz de favas, frango assado no espeto com salada recém-colhida da horta.

Duas das mais célebres refeições da literatura portuguesa. A de Paris culmina num episódio divertidíssimo, quando a travessa com o prato principal fica encravada no elevador que a conduzia da cozinha à sala. A do Douro converte o paladar de Jacinto, que abominava favas, à nossa gastronomia rural - cumprindo um ritual iniciático de ingresso físico na pátria espiritual. Já não madrasta, mas mãe extremosa. Como Ulisses voltando a Ítaca, segundo o paralelo traçado por João Medina, um dos maiores estudiosos da obra queiroziana. 

 

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Todos os grandes romances estão ancorados em momentos inesquecíveis. A Cidade e as Serras é fértil neles.

Desde logo, a descrição dos prodígios tecnológicos existentes na residência parisiense de Jacinto: o conferençofone, o teatrofone, o fonógrafo, o radómetro, o grafofone, o microfone, a máquina de escrever, a máquina de contar, a imprensa eléctrica (antepassada remota da internet), a fonte esterilizada para lavar os dentes, os ascensores internos. Vários dos quais o escritor viu pela primeira vez na futurista Exposição Universal de Paris, em 1889, quando ali foi inaugurada a Torre Eiffel, então o edifício mais alto do globo.

Depois, a memorável subida dos dois amigos ao alto de Montmartre, onde estava em construção a Basílica do Sacré-Coeur, cujas obras só terminariam em 1914. Lá de cima, como Moisés ascendendo ao Monte Sinai, Jacinto e Zé Fernandes contemplam Paris, filosofando sobre «o esterco vil que fecunda a Cidade», longe das loas que lhe cantam mil poetas: viam a capital do mundo como antítese da Terra Prometida. 

Enfim o prodigioso capítulo VII, desenrolado em três países - e que só por si, desenvolvido, daria um romance inteiro. Com Jacinto a gritar: «Alea jacta est! Partamos pois para as serras!» Mas rematando, num derradeiro aceno ao Arco do Triunfo: «É muito grave, deixar a Europa!» (Edição BIS, 2015, p. 113). Depois, com ambos a bordo do comboio internacional, vão desfilando as estações. Passam Chartres, Orleães, Biarritz, Irún (já em Espanha) e Medina, antes de verem a inconfundível paisagem lusitana: um tanque «abafado de limos», abóboras no telhado, mimosas em flor.

Jacinto, atordoado: «Então é Portugal, hem?... Cheira bem.»

Zé Fernandes, em réplica: «Está claro que cheira bem, animal!»

 

Fatal como o destino: o impenitente citadino acaba rendido à natureza. Nada a ver com Paris: é outro espaço, é outro tempo.

Acaba até confundido com um prosélito do miguelismo, embora afiance à bondosa D. Vicência, tia de Zé Fernandes: «Minha senhora, sou socialista...» Forçando o amigo a explicar à idosa dama que socialista é «ser pelos pobres.» E logo a senhora suspira: «O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai também, e até amigo do Duque da Terceira...» (p. 204)

Outra cena inesquecível.

 

Apesar das imperfeições (nas pp. 76 e 165 diz-se que Jacinto possuía 30 mil livros, enquanto na p. 146 são mencionados 70 mil), é um dos melhores textos de sempre sobre a identidade nacional - nem sequer faltando alusões nada veladas ao sebastianismo. Devia ser de recomendação obrigatória como iniciação à leitura de todos os portugueses, começando pelos mais jovens.

Mas também tem seduzido estrangeiros. Numa crónica do El País, em Janeiro de 2017, Antonio Muñoz Molina confessava-se rendido ao fascínio deste romance que teima em não envelhecer. Nestas páginas - anota o escritor espanhol - Eça «tem a alegria do jovem Dickens dos Pickwick Papers, a desmesura cómica de Cervantes, uma perspicácia cirúrgica na observação social digna de Flaubert e Zola»

É um romancista crepuscular, muito diferente do cáustico Eça da juventude. Mas não menos talentoso. Legando-nos uma espécie de elegia benévola do Portugal eterno, que persiste para além do brilho evanescente de todas as modas.

 

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Anteriores textos desta série:

 

A Escola do Paraíso - Esta Lisboa de outras eras

O Anjo Mudo - Sem tecto, entre ruínas

A Tia Julia e o Escrevedor - Ouvir para crer

Os Teus Passos na Escada - O medo nunca morre

A Torre da Barbela - No reino dos mortos-vivos

A Selva - A grande muralha verde

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