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Grandes romances (28)

por Pedro Correia, em 16.11.19

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SEM TECTO, ENTRE RUÍNAS

O Anjo Mudo, de Heinrich Böll

 

Este romance é uma pequena obra-prima. Heinrich Böll escreveu-o em 1950. Chegou então quase a ir ao prelo, mas acabou por ser editado só em 1992 - sete anos após a sua morte. O argumento invocado pelo editor que se desinteressou do manuscrito foi elucidativo dos gostos da época: «Uma extrema e decidida aversão, por parte do público, a todos os livros que tenham alguma coisa a ver com a guerra.»

Percebe-se o incómodo. O Anjo Mudo é um relato amargo, impiedoso e desencantado da Alemanha do pós-guerra, coberta de ruínas depois de Hitler ter desencadeado, com demencial fúria belicista, um conflito que deixou a Europa junada de cadáveres. Böll, forçado a combater durante seis anos como soldado de infantaria, situa o início da acção em Maio de 1945 - precisamente no termo da guerra em solo europeu.

Virava-se uma página da História. No entanto, para os jovens alemães que chegaram a envergar a farda nazi, mesmo contra vontade, não havia remissão possível. Tinham sobrevivido por caprichos do destino. Mas o futuro jamais seria deles.

 

«Ele festejou o início da paz sentado num caixote de lixo a comer lenta e cerimoniosamente as suas fatias de pão e a contar pensativo as moedas que recebera de troco da padeira.»

O jovem protagonista - alter ego do autor - que regressa a Colónia, sua irreconhecível cidade natal, terá de recomeçar do zero. Falta-lhe o ânimo, porém. Durante duas semanas, mantém-se praticamente prostrado. Quando lhe dizem que a paz vigora enfim na Alemanha, ele responde, com a sageza dos antigos: «Eu sei que a guerra acabou, mas paz?» (recorro à tradução de Cláudia Porto, para as edições ASA).

Tinha razão. Da ruínas irrompia uma sociedade onde a corrupção moral era já bem evidente. Böll teria ocasião, em toda a sua obra posterior, de denunciar essa sociedade que erigia altares ao deus-dinheiro. Tal denúncia, aliás, está já presente neste livro. Mas O Anjo Mudo é sobretudo um dos mais notáveis exemplos daquilo a que este romancista viria a apelidar de «literatura de escombros».

 

39326[1].jpgQuando em 1974 Soljenístine foi expulso da União Soviética, por delito de opinião, muitas cabeças pensantes do chamado "mundo livre" viraram a cara para o lado, fingindo ignorar o facto. Böll figurou entre as honrosas excepções, fazendo questão de abraçar o confrade perseguido pela repressão comunista.

Por estas e muitas outras atitudes de irrepreensível coerência em defesa da liberdade de expressão, Heinrich Böll (1917-1985) tornou-se uma espécie de "consciência moral" da Alemanha. Denunciando atitudes iníquas dos políticos de vários matizes, as sementes nazis que germinam no inconsciente colectivo germânico e o lado lunar do "milagre económico" alemão do pós-guerra. Uma das suas mais célebres novelas, A Honra Perdida de Katharina Blum, é um tiro certeiro no sensacionalismo da imprensa que só visa o lucro fácil. Devia ser lida por todos os jornalistas nestes tempos de progressiva diluição das regras deontológicas.

A Academia de Estocolmo concedeu-lhe o Nobel em 1972 «por uma escrita que, articulando uma ampla perspectiva do tempo histórico que é o seu com uma rara sensibilidade na construção de personagens, contribuiu para a renovação da literatura alemã».

 

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Palavras elogiosas que bem podem aplicar-se a O Anjo Mudo. Raras vezes como nestas páginas, por exemplo, a fome foi descrita em termos tão perturbantes numa obra de ficção: «Comer já não era uma bela necessidade, mas sim uma lei tenebrosa que obrigava as pessoas a devorarem, a devorarem a todo o custo, sem que a sua fome fosse saciada, pelo contrário, aumentava.»

É uma escrita ancorada no real, com destaque para a experiência do autor como combatente na mais injusta e mortífera de todas as guerras, que marcou profundamente a sua obra. Mas uma escrita que nunca se limita a ser uma reprodução automática do quotidiano, recriando-o com inegável talento artístico. Sempre em nome da dignidade humana.

 

Em 1950, os alemães queriam literatura de evasão. Böll tinha algo muito diferente para lhes dar. «As pessoas sobre as quais escrevemos viviam nos escombros. Nós, os escritores, identificávamo-nos com elas», observou o escritor anos mais tarde.

Nada mais custa, por vezes, do que encarar a realidade. Por isso esta obra esperou 42 anos para surgir nas livrarias. Hoje ganha um novo significado, com tantas guerras que ressurgem por aí.

 

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Anteriores textos desta série:

 

O Anão - O Infra-homem

Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch - A lei do frio e da fome

A Mancha Humana - A América vista ao espelho

Os Maias - O século XIX aqui tão perto

Sinais de Fogo - Do amor e da guerra

A Escola do Paraíso - Esta Lisboa de Outras Eras


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