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Grandes romances (25)

por Pedro Correia, em 19.12.18

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O SÉCULO XIX AQUI TÃO PERTO

Os Maias, de Eça de Queiroz

 

Muito mais do que um romance, este vasto fresco sobre as classes dominantes no Portugal do rotativismo monárquico, caricaturadas pela pena de alguém que bem as conhecia, é um monumento. Uma obra ímpar na literatura portuguesa e um dos grandes títulos da literatura mundial, com admiradores da envergadura de um Jorge Luis Borges.

Misto de ficção, de reportagem detalhada da Lisboa oitocentista e de ensaio sobre a perpétua crise de identidade das elites portuguesas, Os Maias contém uma inesquecível galeria de personagens, situações e frases que rapidamente se incorporaram no imaginário português, fundindo-se com a realidade. Objectivo supremo da estética realista que José Maria d’ Eça de Queiroz (1845-1900) cultivou com esmero, crente de que só a verdadeira arte podia mudar o mundo.

«O realismo é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. É a abolição da retórica como arte de promover a comoção usando o inchaço do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a verdade com o fito na verdade absoluta. Por outro lado o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter.» Palavras do autor na sua controversa intervenção sobre «A Literatura Nova ou o Realismo como Nova Expressão de Arte», na quarta Conferência do Casino, em Junho de 1871.

 

Surgem aqui figuras-tipo da alta roda lisboeta da época, num tempo em que o País cabia todo «entre a Arcada [Terreiro do Paço] e São Bento»– uma das incontáveis frases corrosivas desta obra que continua a seduzir leitores, fascinados com o paralelo que pode estabelecer-se entre a segunda metade do século XIX e as décadas iniciais do século XXI.

Encontramos no romance expressões que podiam ter sido pronunciadas em qualquer serão deste mês em que vivemos. «A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela, que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o País», observa o banqueiro Jacob Cohen, como quem faz uma elementar operação aritmérica. Com ele desfilam a ruiva Condessa de Gouvarinho, que utiliza a sedução como eficaz instrumento para combater o tédio; João da Ega, um vulto da verborreia pós-prandial; Dâmaso Salcede, típico deslumbrado social desprovido de ética; Palma Cavalão, um escrevinhador do lumpen jornalístico; o Eusebiozinho, “menino bem” que se arrasta por lupanares; o poeta Alencar, símbolo do lirismo mais palavroso e pueril.

Como acertadamente observou Arnaldo Jabor, um dos seus melhores leitores brasileiros, «Eça funda um realismo caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas que passa por traços grossos, pelo riso deslavado, por uma proposital "falta de subtileza" (que resulta depois subtilíssima) na tradição de um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência.»

 

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Desmesurado em vários sentidos, este romance publicado em 1888 funciona ainda hoje como a mais impiedosa, sarcástica e demolidora autópsia das classes dirigentes nacionais. Estas, mesmo quando não gostaram de se descobrir no retrato, aproveitaram a imparável vaga de popularidade da obra para se impregnarem do seu espírito e da sua letra, rosnando imprecações contra o País, amaldiçoando o seu passado e predizendo horrores sobre o seu futuro.

Quantas vezes, ao longo de anos, não temos lido e escutado Egas de pacotilha berrando aos quatro ventos enormidades contra o famigerado destino português, parafraseando o autor das eternamente inacabadas Memórias de um Átomo nos seus dichotes bem regados contra a teimosa sobrevivência da pátria-mãe?

«Portugal não precisa reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola. (…) Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia… Oh! Deus de Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St Emilion.» (pp. 138-139, edição Moderna Editorial Lavores, Estarreja, 2008).

É uma sátira da qual ninguém escapa ileso. Nem políticos, nem financeiros, nem aristocratas, nem jornalistas, nem escritores – um desfile de gente venal e falhada, incapaz de libertar o País de males atávicos. Por incompetência, por dolo, por desinteresse, por manifesta impreparação. A literatura era «latrinária». O jornalismo revelava-se como «escória da sociedade». Os ministros tinham como único fito «cobrar o imposto». Lisboa – no vértice do poder – surgia aos olhos de qualquer observador lúcido como «uma canalha de terra». Portugal agonizava, povoado de uma «colecção grotesca de bestas».

 

 

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Residente como diplomata no estrangeiro desde 1875, este romancista que se dizia sem biografia («Eu não tenho história, sou como a República do vale de Andorra») concebeu durante anos uma obra que funcionasse como um implacável e lúcido retrato da realidade portuguesa através da exibição dos seus mais destacados representantes – na banca, na finança, na política, nas letras e no jornalismo.

Seria, de algum modo, a obra de um estrangeirado – alguém capaz de mirar sem réstia de compaixão o chão que o gerou. Mas com um sentimento misto de nojo e nostalgia, como revela em carta a Ramalho Ortigão endereçada de Havana em Julho de 1873: «O exílio importa a glorificação da pátria. Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa. Assim eu, de Portugal, esqueci o mau - e constantemente penso nas belas estradas do Minho, nas aldeolas brancas e frias - e frias! -, no bom vinho verde que eleva a alma, nos castanheiros cheios de pássaros, que se curvam e roçam por cima do alpendre do ferrador...»

Vivia-se então um dos períodos mais pujantes de que há memória em Portugal – as chamadas décadas da Regeneração, que tiveram como expoente o chefe do Governo Fontes Pereira de Melo – sob a monarquia constitucional, letrada, respeitadora das liberdades essenciais, incluindo a liberdade de expressão, e dos princípios basilares da democracia política. Mas Eça e alguns dos seus pares – Antero de Quental, Ramalho, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins – olhavam para o País e só viam estagnação, vergastada de viva voz em lautas comezainas à mesa do Marrare ou do Tavares.

O romancista atribui o endémico fracasso português à mediocridade das supostas elites nacionais. É a visão desencantada de alguém que se encontrava havia década e meia longe da pátria, em sucessivas missões diplomáticas que o conduziram às Antilhas Espanholas, ao Reino Unido e finalmente a França, onde permaneceria até à morte, numa espécie de desterro voluntário pontuado com ocasionais incursões à pátria. 

 

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Fotograma do filme Os Maias, de João Botelho (2014)

 

O imaginário queiroziano, com as suas críticas demolidoras, foi transitando de geração em geração, influenciando sucessivas camadas de pensadores que – sem o talento literário do autor d’ O Crime do Padre Amaro nem a sua verve satírica – se limitaram a reproduzir a caricatura, assumindo-a como facto unidimensional. Não passa um dia sem que vejamos estampada nos jornais a versão contemporânea de que o País é «uma choldra ignóbil», tomando pelo valor facial a expressão de João da Ega, personagem central do romance, em paralelo com Carlos da Maia, o seu melhor amigo.

Dois falhados, como seria inevitável: o primeiro matriculou-se em Direito sem seguir o curso e sonha com gloriosas obras-primas da literatura que jamais escreverá; o segundo revela-se incapaz de exercer medicina devido ao «veneno do diletantismo» que caracteriza a atmosfera do reino, corroendo qualquer hipótese de regeneração social. Daí Ega bradar nos saraus mundanos: «Portugal não necessita reformas, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.»

Nesta óptica, todo o esforço estaria condenado ao insucesso. Os diálogos entre Ega e Carlos da Maia acabaram por funcionar até hoje como simbólica chave decifradora do “atraso estrutural português”, numa espécie de fatalidade genética, surgindo Eça – certamente à sua revelia – como avalista deste determinismo que parece perpetuar-se em lei granítica.

É certo que o escritor integrou o grupo dos Vencidos da Vida – designação também irónica da tribo intelectual que o acolhia. Mas ele próprio, com a excepcional obra literária que nos legou, acabou por ser a demonstração viva do oposto das teses que algumas das suas personagens pretendiam ilustrar.

 

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Bastaria o desfecho do romance para lhe conceder honras de panteão literário. Declina a tarde, Carlos e Ega descem em passo indolente a rampa de Santos partilhando a apologia retórica do «fatalismo muçulmano» que nos aconselha a «nada desejar e nada recear»: assim se evitam «esperanças e desapontamentos».

Carlos, o médico que não exerce, sentencia: «Não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma…»

Ega, o escritor das perenes folhas em branco, remata: «Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…»

Enquanto assim falavam, via-se ao longe a lanterna vermelha do americano – transporte público que circulava em carris, movido por tracção animal.

«De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o “americano”, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.»

 

Magnífico parágrafo final. Que desmente a peregrina tese sobre a inutilidade de todos os esforços, propalada até à náusea por uma legião de epígonos menores de Eça, incapazes de ler nas entrelinhas. O criador d’ Os Maias sabia muito bem como as palavras podem servir apenas para iludir intenções e camuflar desejos.

É um epílogo em aberto, próprio da literatura moderna: nunca saberemos se Ega e Carlos apanharam o transporte. Mas sou capaz de apostar que sim.

 

 

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Anteriores textos desta série:

 

A Marcha de Radetzsky - O passado é um país distante

O Coração das Trevas - Quanto pior, melhor

O Fim da Aventura - Efémero amor eterno

O Anão - O Infra-homem

Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch - A lei do frio e da fome

A Mancha Humana - A América vista ao espelho


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