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Grandes romances (21)

por Pedro Correia, em 14.09.14

 

EFÉMERO AMOR ETERNO

O Fim da Aventura, de Graham Greene

 

«É tão estranho descobrirmos e acreditarmos que somos amados, quando sabemos que ninguém há digno de amor, a não ser um pai ou um deus.» (p. 136)

 

Já distinguido pelo público após mais de duas décadas de actividade literária, Graham Greene quis escrever um livro diferente. Não ambientado em paisagens distantes, como o México ou a Libéria, mas no centro de Londres. Sem personagens exóticas, de características irrepetíveis, mas recorrendo a banais figuras da classe média. Sem as obsessivas situações  de perseguição que marcam tantos dos seus livros -- um dos temas principais da obra romanesca deste grande escritor inglês é a perseguição, podendo o perseguidor também ser perseguido, num singular efeito de ricochete que lhe devolve sombras do passado -- e aqui ficam reduzidas à expressão mínima.

 

O Fim da Aventura (The End of the Affair, 1951) nasceu deste desafio técnico, temático e estrutural que o autor de Jornada Sem Mapas lançou a si próprio: escrever um romance quase sem acção nem movimento, em que o eixo da narrativa se confinava à consciência da figura central, apenas vislumbrada em relances fragmentários.

Este exercício de estilo exigia a escrita na primeira pessoa do singular: todas as personagens são aqui desvendadas pelo olhar alternadamente cínico ou céptico ou nostálgico ou apaixonado do sujeito/narrador.

Era enfim um mergulho decidido e declarado num género literário capaz de produzir sérios danos na reputação de um escritor: o melodrama. Qualquer autor conceituado está consciente desse risco.

Nas suas memórias, Caminhos de Evasão, Greene explica por que motivo nunca tentara antes um romance escrito desta forma: «Quando por vezes encontrei a utilização da primeira pessoa nas novelas de Somerset Maugham e dos seus imitadores, sempre a achei um tudo-nada fácil e seca, e demasiado próxima da descuidada e incolor linguagem humana.»

Mas a leitura ocasional de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, levou-o por este caminho, sem o qual O Fim da Aventura não seria a obra-prima que manifestamente é.

 

O livro começou a ser redigido longe do Reino Unido, com os ecos dos bombardeamentos da capital britânica durante a II Guerra Mundial já resguardados na memória. Era neles que Greene pensava quando meteu mãos à obra, em Dezembro de 1948, num quarto do Hotel Parma, em Capri. Necessitava de uma catarse: envolvera-se numa situação similar à do enredo do romance quando trabalhava para os serviços secretos britânicos e as bombas nazis caíam todas as noites sobre Londres. Procurava também depurar o estilo: pretendia por um lado conseguir uma escrita mais simples e clara; por outro, queria evitar a «entediante» sequência cronológica -- previsível, regular e arrumadinha.

Conseguiu o que pretendia, na forma e no conteúdo.

A "desarrumação" criativa ficou logo expressa na primeira frase: «Uma história não tem princípio nem fim: escolhemos arbitrariamente um momento da experiência, de onde olhar para trás, ou olhar para diante.» (Tradução de Jorge de Sena para a editora Estúdios Cor, 1ª edição portuguesa em 1953)

 

Esta história "sem princípio nem fim" tem três figuras centrais: o narrador/alter ego de Greene, não por acaso também escritor, aqui chamado Maurice Bendrix; um destacado quadro do Ministério da Segurança Interna britânico, Henry Miles; e a esposa deste, Sarah -- a mulher que ambos amavam, cada qual à sua maneira.

Mas será este romance em que tantas aparências iludem um livro de amor? Bendrix/Greene apressa-se a esclarecer-nos que estamos antes perante um «memorial de ódio», causado pelo mais rasteiro despeito, pelo mais corrosivo ciúme. «O ódio deve excitar as mesmas glândulas que o amor: pelo menos produz os mesmos efeitos. Se não nos tivessem ensinado a interpretar a história da Paixão, seríamos capazes de, pelas acções deles, saber qual dos dois, o invejoso Judas ou o covarde Pedro, amava Cristo?» (p. 53)

Este é, enfim, um livro que nos dá testemunho dos ínvios caminhos da fé.

A fé que, como a flor nascida do pântano, tantas vezes germina nos momentos em que a escuridão total parece ter-se apossado de um coração humano.

A fé que se apanha «como uma doença», na expressão lancinante de Sarah.

O que daríamos para trazer intacto aos nossos olhos o ser amado, que se encontrava no momento errado e no local errado quando uma bomba deflagrou?

 

Fascinado pelo cinema, Greene conciliou -- como nenhum outro escritor -- a arte literária com os mais populares subgéneros cinematográficos, incluindo os filmes de gangsters e de espionagem. «O Fim da Aventura é um romance policial em que o culpado é divino», observou David Lodge, com muita argúcia. O fascínio perene da obra deste escritor convertido ao catolicismo na idade adulta deve-se sobretudo à sua rara capacidade de conferir dimensão metafísica a qualquer personagem, envolvida na mais atribulada ou trivial circunstância.

Repito: estamos perante um melodrama. A que ninguém fica indiferente. Como ler sem emoção as páginas do diário de Sarah, que nos desvendam uma personagem tão diferente daquilo que todos imaginávamos -- incluindo o narrador? Como resistir ao comovente diálogo entre ela e Bendrix no solitário banco da igreja, naquela invernosa noite que nenhum deles imaginava ser a última?

 

Poucos romancistas podem gabar-se de contar com um Papa entre os seus leitores: Pio XII confessou ao bispo de Leeds, John Heenan, ter lido esta vibrante história de um amor póstumo desenrolada na escuridão das noites de guerra. «Acho que este homem [Greene] está a atravessar um momento difícil. Se alguma vez ele for ter consigo, ajude-o», disse-lhe o dirigente máximo da Igreja Católica. «Dando mostras de uma grande intuição», como um irónico Greene reconheceria no livro de memórias, lançado em 1980.

Mais reconfortado ficou certamente com a opinião emitida por um ilustre confrade das letras, William Faulkner, já então galardoado com o Nobel da Literatura: «É um dos mais genuínos e comoventes romances do nosso tempo, em qualquer língua.»

The End of the Affair esteve quase a valer o Nobel a Greene: no ano seguinte foi finalista do prémio, que seria atribuído a François Mauriac, católico como ele.

 

Falecido em 1991, aos 86 anos, Graham Greene acabou por nunca receber o Nobel. Nem os elogios de certa crítica, irremediavelmente míope. Mas nunca deixou de ter inúmeros leitores, rendidos à sedução da sua escrita elegante e luminosa. Isto ficou bem patente em 1999, com a estreia da excelente versão filmada d' O Fim da Aventura, realizada por Neil Jordan e interpretada por Julianne Moore (Sarah) e Ralph Fiennes (Bendrix), que encaminhou uma nova geração para o romance. Já em 1955 houvera outra adaptação -- menos feliz -- do livro ao cinema, com realização de Edward Dmytryk, sendo os principais papéis desempenhados por Deborah Kerr e Van Johnson.

Magnífico tradutor, Jorge de Sena assinala justamente no prefácio à edição portuguesa: «É através do carácter de acidentalidade, de que se revestem as relações humanas, que Graham Greene analisa a consciência moderna.»

Lemos este romance uma vez -- e outra, e outra -- e sempre nos sentiremos tocados pela perturbante mensagem que nos transmite dessa Londres nocturna, trespassada por bombas assassinas: nada é tão vulnerável e contingente, tão efémero e tão eterno como o verdadeiro amor. 

 

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Últimos textos desta série:

 

Agosto - Um mar de lama

O Homem que Via Passar os Comboios - Fora dos carris

O Adeus às Armas - Frágil como o mundo

A Oeste Nada de Novo - Geração perdida

A Marcha de Radetzsky - O passado é um país distante

O Coração das Trevas - Quanto pior, melhor


10 comentários

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De Anónimo a 14.09.2014 às 13:52

Cheguei ao livro depois de ter visto o filme, com dois dos meus actores favoritos, e não fiquei nada desiludida.
Curiosamente, acabei de ler o "Empresta-nos o seu marido?", por sugestão do Pedro, e gostei imenso do conto que dá título ao livro (e que me fez lembrar o estilo do Somerset Maugham), bem como do último "Duas pessoas gentis", que achei comovente.
Mais um grande escritor que não ganhou o Nobel.
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 14.09.2014 às 14:58

Li este livro três vezes (duas delas antes do filme de 1999) e ficou-me sempre a ideia de que é um romance muito "cinematográfico". Greene escreveu-o a pensar no cinema. Não ficou certamente satisfeito com a versão de 1955, onde falta o essencial: a 'química' entre os dois principais intérpretes. Mas teria gostado muito da versão de 1999, certamente.
Não admira que o Papa Pio XII tenha ficado perplexo perante esta leitura: 'O Fim da Aventura' é um insólito 'ménage a trois' em que Deus é o vértice principal do triângulo.

Esse livro de contos, editado em Portugal pela Bertrand, é igualmente muito cinematográfico. E, sim, o conto que refere merece igualmente destaque na minha série dedicada a esse género. Que já está a ser "derrotada" 21-19 pela série 'Grandes Romances', que teve a primazia. Mas voltará, garanto-lhe.
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De Anónimo a 15.09.2014 às 09:50

Pedro, eu diria que estão empatadas: 21/21, ou será que estou enganada?
Aliás, dessa série só me falta ler 2: "A Capital do Mundo" do Hemingway (6) e "Amor numa Rua Escura" do Irwin Shaw (15).
Agora fico à espera de 'Os Maias', um dos livros da minha vida.
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 15.09.2014 às 13:17

Tem toda a razão, Antonieta: estão empatados (21-21). Agora fiquei com vontade de alternar as duas séries...
'Os Maias' estão a chegar. Aproveitando a estreia do filme do João Botelho (que ainda não vi).
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De Anónimo a 15.09.2014 às 17:17

A alternância das séries parece-me uma excelente ideia.
Eu voto a favor.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 15.09.2014 às 23:39

Obrigado pelo incentivo, Antonieta. Uma vez mais.
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De Maria Dulce Fernandes a 14.09.2014 às 16:50

Eu só me fiquei pelo filme, do qual aliás gostei bastante. Não me puxou para o livro, exactamente por ter achado o filme bastante bom. Mas ainda vou a tempo, assim que se proporcionar . :) :)
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De Pedro Correia a 14.09.2014 às 19:47

Há filmes melhores do que os livros que lhes deram origem. Um exemplo já clássico é 'Vertigo', de Alfred Hitchcock. Mas o mais frequente é acontecer ao contrário: o livro ser claramente superior ao filme. Neste caso o filme presta a devida homenagem ao romance de Graham Greene.
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De Miguel a 15.09.2014 às 12:24

Só conheço o filme de Neil Jordan, um realizador por quem tenho muito estima graças ao Mona Lisa e Jogo de Lágrimas. Este não me impressionou terrivelmente, à parte a excelente banda sonora de Michal Nyman e certa cinematografia.

Por qualquer razão também nunca senti interesse em ler o romance. Mas o Pedro cita algumas frases muito fortes, muito boas. Terei de repensar.
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De Pedro Correia a 15.09.2014 às 13:21

Eu achei, desde logo, a Julianne Moore muito bem escolhida para o papel. Não é fácil, tratando-se de uma das personagens femininas mais marcantes da literatura britânica do século XX.
Como 'trileitor' deste romance, só posso recomendá-lo. É um livro atípico na obra literária de Greene. Gosto dele também por isso.

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