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Grandes romances (18)

por Pedro Correia, em 23.08.14

 

 

GERAÇÃO PERDIDA

A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque

 

Os combatentes da I Guerra Mundial que sobreviveram à barbárie das trincheiras foram baptizados, em tempo de paz, com um rótulo que lhes serviu de senha de identidade: “geração perdida”. Porque ficaram para sempre inadaptados: saíram aparentemente ilesos da guerra mas esta jamais os abandonou, perseguindo-os como um fantasma vitalício.

Muitos escritores narraram aos contemporâneos a amarga experiência dos combates em que perderam a inocência e jogaram a vida quando ainda mal tinham atingido a idade adulta. Mas nenhum destes testemunhos foi tão cru, tão desencantado, tão doloroso, tão impressionante, tão realista como um curto romance publicado durante um mês em fascículos a partir de 10 de Novembro de 1928 no Vossische Zeitung, um jornal de referência, com orientação liberal, que circulou em Berlim até 1934.

O autor, Erich Maria Remarque (1898-1970), sofrera na pele a experiência da guerra como soldado da infantaria germânica. Mobilizado para a frente ocidental com 19 anos, participou em combates e foi ferido três vezes, uma das quais com gravidade. Conheceu a face mais devastadora da natureza humana que lhe sepultou camaradas, amigos e sonhos -- ser pianista era um deles.

Desmobilizado após a derrota alemã, praticou vários ofícios no regresso à vida civil: foi pedreiro, motorista, professor, guarda-livros, agente funerário, vendedor de fatos, palhaço num circo, organista numa igreja, crítico teatral, repórter desportivo. Mas nunca esqueceu os pesadelos da guerra, que lhe povoavam as longas noites de insónia. Muito antes de o passar ao papel, já tinha o romance arquitectado por um sério imperativo de consciência. Escrevê-lo foi apenas uma questão de oportunidade. Aconteceu em poucas semanas no Outono de 1927, quando os ecos do conflito mundial que mobilizara 65 milhões de soldados começavam a dissipar-se na memória colectiva.

 

Assim nasceu Im Westen nichts Neues –- que em português viria a chamar-se A Oeste Nada de Novo, expressão rapidamente incorporada no léxico corrente como sinónimo de esterilidade ou estagnação. Esta obra -- lançada em livro pela editora Ullstein a 29 de Janeiro de 1929 -- foi de encontro à deliberada intenção do autor, funcionando como um grito contra a guerra. Contra todas as guerras. Contra os velhos políticos que no conforto dos gabinetes transformam os jovens em carne para canhão, reduzindo-os a um dilema próprio dos animais: matar ou morrer.

Jovens como o protagonista do romance, Paul Bäumer (émulo evidente do autor, cujo nome real era Erich Paul Remark), arrancado dos bancos escolares para os campos de batalha ao serviço do kaiser Guilherme II, idolatrado como um deus pelas elites germânicas sedentas de sangue inimigo. Dessas elites, intelectuais e militares, fazia parte o professor de Paul, um tal Kantorek, que incentivava os alunos a alistarem-se como combatentes voluntários para evitarem o estigma da cobardia.

Assim fizeram, aturdidos pela oratória bélica do professor. Lá foram eles, Paul e os colegas: o pequeno Albert Kropp; o irreverente Keer; o esfomeado Tjaden («o maior comilão da companhia»); Joseph Behm, o primeiro a ser morto; Kemmerich, o primeiro amputado; Friedrich Müller, «ainda atrelado aos livros da aula» e que no meio dos bombardeamentos memoriza teoremas de física ansiando por um exame de segunda época que jamais fará.

Marcham para a frente com 18 anos. E nunca de lá regressam. Efémeros heróis de um império em derrocada.

O primeiro cadáver que viram sepultou neles a crença na superioridade moral da guerra que lhes tinha sido inoculada por Kantorek e outros cultores da retórica guerreira. «Escreviam, falavam ainda, e nós víamos ambulâncias e moribundos. Enquanto para eles servir o Estado era um valor supremo, nós já sabíamos que o medo da morte era o mais forte», confessa Paul, o soldado-narrador, porta-voz de uma geração aniquilada (versão portuguesa das Publicações Europa-América com data de 1957, em livro de bolso desde 1971, com tradução de Mário C. Pires).

«A nossa instrução militar durou dez semanas e esse tempo foi o bastante para nos transformar de uma maneira mais radical que dez anos de escola. Soubemos que um botão bem reluzente é mais importante que dez tomos de Schopenhauer.» (p. 21). Quando chegam às trincheiras vão mudados: extinguira-se neles a juventude ainda mal esboçada. «É o instinto do animal que acorda em nós, que nos guia e nos protege.» (p. 45).

 

A Oeste Nada de Novo, com a sua brutal descrição do ambiente de guerra sem floreados românticos, não poupa pormenores que outros autores pudicamente esconderiam em obediência aos duvidosos parâmetros do "bom gosto". São homens de carne e osso que percorrem estas páginas. Homens que comem, bebem, fumam, cospem, praguejam, vomitam, suam, sangram, matam e morrem. Homens que nas trincheiras disputam restos de pão com os ratos. Homens que viram camaradas cujos olhos foram arrancados por baionetas inimigas. Homens desvalidos como crianças que durante os combates se colam por vezes à terra como se recebessem um abraço da mãe distante.

«Vemos pessoas sem boca, sem maxilar inferior, sem figura; encontramos um que, pelo espaço de duas horas, mantém os dentes cerrados na artéria do braço para não perder todo o sangue; o sol esconde-se, chega a noite, os obuses assobiam; a vida pára.» (p. 99)

Quando Paul vai de licença, em visita à família numa pacata vila da Vestefália, os problemas agravam-se. Porque toma a consciência de que existe já um fosso intransponível entre ele e qualquer rotina considerada normal. É impossível reviver a tranquila existência burguesa do passado: a sua nova família é composta pelos camaradas que agonizam nas trincheiras.

Certo dia, de regresso à frente, observa os rostos concretos de prisioneiros russos mendigando umas côdeas de pão. E conclui, quase assombrado, que são homens como ele: «Foi uma ordem que fez nossos inimigos estas formas silenciosas; outra ordem poderia, agora, torná-los nossos amigos.» (p. 138)

 

Há livros que passam por nós sem deixar marca. Outros, porém, permanecem connosco para sempre. É o caso deste, que foi um sucesso instantâneo numa Europa que parecia já esquecida das atrocidades da guerra: bastou um ano para a editora vender um milhão de exemplares. Num só dia, em Praga, venderam-se 20 mil. A Oeste Nada de Novo tornou-se o maior êxito internacional da literatura de língua alemã durante a primeira metade do século XX. E Remarque é o escritor germânico mais lido desde sempre, a par de Goethe.

O romance surgiu quando os sequazes de Hitler já desfilavam nas ruas das cidades alemãs com estandartes e archotes, ressuscitando a linguagem bélica, e logo suscitou a ira da tropa de choque nazi, ampliada com a rápida transposição para o cinema: Hollywood não tardou a produzir um filme homónimo, sob a direcção de Lewis Milestone, que teve difusão mundial a partir de 1930, e a 5 de Novembro desse ano recebeu o Óscar para melhor longa-metragem (o primeiro atribuído a um filme inteiramente sonoro).

Furiosos, os nazis encabeçados por Goebbels boicotaram as sessões de cinema, enchendo as salas de gás lacrimogéneo e fumo desencadeado por bombas artesanais. O filme acabaria por ser proibido com a subida de Hitler ao poder, em Janeiro de 1933. E o mesmo sucedeu a este romance sem heróis: a 10 de Maio de 1933, centenas de exemplares da obra foram queimados num auto-de-fé montado na emblemática Praça da Ópera, em Berlim, entre brados contra o suposto carácter "anti-alemão" do livro. Cinco anos depois, Hitler retirou a Remarque (exilado desde 1932 na Suíça) a cidadania germânica por ter "arrastado na lama" os soldados da Grande Guerra. Uma irmã do escritor, Elfried, foi condenada à morte e decapitada em 1943.

 

Traduzida em 58 idiomas, com mais de dez milhões de exemplares vendidos por todo o mundo, inscrita nos currículos escolares, A Oeste Nada de Novo perdura como uma das mais dramáticas descidas ao abismo da espécie humana degradada pelo horror da guerra. É, infelizmente, um livro que nunca passa de moda. Porque nunca sabemos extrair devidamente as lições que a História nos transmite e continuamos incapazes de vislumbrar num inimigo um olhar de um ser humano, tão precário e desamparado como qualquer de nós.

 

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Últimos textos desta série:

 

Fahrenheit 451 - Queimo, logo insisto

Martin Eden - Não há sucesso como o fracasso

O Leopardo - O sono em vez do sonho

Agosto - Um mar de lama

O Homem que Via Passar os Comboios - Fora dos carris

O Adeus às Armas - Frágil como o mundo


16 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 23.08.2014 às 12:28

O meu pai adorava este livro...
Li-o vai para mais de 30 anos; como ontem.

"Quando saltaste para aqui eras meu inimigo e tive medo de ti, mas és só um homem como eu e matei-te. Perdoa-me [...]
Porque é que eles nos fazem isto?
Só queríamos viver, tu e eu. Porque é que eles tinham de nos enviar para lutar um contra o outro?
Se deitasses fora a espingarda e esse uniforme, podias ser meu irmão..."
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De Pedro Correia a 24.08.2014 às 12:07

A primeira vez que li 'A Oeste Nada de Novo' foi num exemplar encadernado do meu avô que combateu na Flandres, na I Guerra Mundial. Fui lendo o livro - ainda de grafia pré-pré-"acordística" - imaginando sempre como ele, antigo combatente, o teria lido também. Uma experiência única que contribuiu para me envolver ainda mais neste romance tão próximo da dramática realidade cujo centenário agora assinalamos.
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De Carlos Faria a 23.08.2014 às 15:01

Um livro que me ofereceram na juventude e que jamais esqueci como termina e sempre que estou descontente com o mundo à minha volta, o que não é raro, mesmo sem o extermínio das armas, penso: a oeste nada de novo.
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De Pedro Correia a 24.08.2014 às 12:09

Raros romancistas podem gabar-se de ter imaginado um título que logo andou nas bocas do mundo, transformando-se numa expressão idiomática um pouco por toda a parte. Uma expressão amargamente irónica, quase sempre.
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De Miguel R a 23.08.2014 às 16:57

Está visto, tenho de-o ter. Agora estou a ler o «1984», está a ser um deleite.
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De Pedro Correia a 24.08.2014 às 12:09

'1984' também passará por cá. Tem mesmo de ser.
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De Costa a 23.08.2014 às 19:51

"(...) e continuamos incapazes de vislumbrar num inimigo um olhar de um ser humano, tão frágil e desamparado como qualquer de nós."

Sendo certo que além desses, fundamentalmente iguais a nós e que uma ordem faz sem mais nossos inimigos, há um novo (ou ressurgido, talvez) tipo de inimigo: aquele fanatizado, asselvajado, cujo objectivo é a destruição pura de uma civilização, o retrocesso de séculos e, a mais do que a vida, a morte em ansiado alegado martírio por causas inomináveis. Esse, dia após dia mais poderoso, mais próximo de nós, entre nós, olhará para Remarque - para nós - com tanto ou mais ódio do que os nazis. Nunca o leu, nunca o lerá, o seu exemplo é-lhe absolutamente repugnante.

E nele - dele - que resíduo de humanidade resta que nos permita sequer remotamente nutrir a convicção de que seja, no fim, como qualquer um de nós?

Costa

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De Pedro Correia a 24.08.2014 às 12:12

É uma boa interrogação. E tanto mais arrepiante quanto é muito provável que esse fanático capaz de assassinar quem quer que seja tenha um rosto semelhante ao meu ou ao seu e possa viver a dois passos de nós.
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De Fernando Sousa a 24.08.2014 às 01:48

Obrigado, Pedro. Revivi de repente alguns anos e não foi para nada.
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De Pedro Correia a 24.08.2014 às 12:10

É para isso que esta série serve também, Fernando. Um abraço.
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De LN a 25.08.2014 às 08:20

De vez em quando, leio esta série de "grandes romances". Hoje, agradeço especialmente. A Oeste nada de novo é mais do que um dos livros da minha juventude - é bem uma leitura a repetir. de novo. :)
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De Pedro Correia a 25.08.2014 às 15:35

Sim, é um livro que se relê sempre com proveito. Agora ainda mais, a pretexto do centenário da I Guerra Mundial.
(obrigado pelas suas palavras, espero que continue leitor da série)
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De RUI AGONIA PEREIRA a 24.01.2017 às 18:35

Gostei muito . Tinha lido.
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De Pedro Correia a 24.01.2017 às 21:45

Obrigado, Rui. Ainda bem que gostou.
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De Acma Macedo a 17.03.2018 às 09:53

Não conhecia o blog e na procura de leitura já "lida" deparei-me com este "Delito de Opinião".Os meus parabéns.
Quanto ao livro, sou um leitor/ex combatente da velha guarda, e li esta obra em 1972 quando me encontrava em plena "guerra colonial" na Guiné.
Hoje, decorridos 46 anos e ao reler algumas passagens revivi aqueles anos, e o que cada um de "nós" que por lá andou sente após o fim daquele tempo.
Um misto de "vergonha" imposta por valores de outros, "banqueiros e arregimentários" do Estado Novo que me mantém num permanente estado de alerta perante uma época que não se consegue varrer da memória.
"Aquilo" está entranhado, difícil/impossível de esquecer o que por lá passámos.
Por isto, e bastante mais; esta obra é um dos meus "ícones" da literatura pois retrata de facto a realidade do inferno.
E não é que vamos ouvindo, vendo e lendo o que se passa por esse Mundo cada vez mais belicista e menos humano.
Pouco se aprendeu com tanta desgraça e mortandade.
Bem haja pelo blog, continue.
Agora que aqui vim pela primeira vez, serei seguramente um visitante mais assíduo.
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De Pedro Correia a 17.03.2018 às 10:20

Obrigado pela sua visita, pelas suas palavras e pelo seu incentivo. Ando há muito com vontade de retomar esta série dos "grandes romances", que tanto interesse despertou junto dos leitores do nosso blogue.
Espero que continue a aparecer por cá.

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